António-Pedro Vasconcelos na Cinemateca: arte e comércio

António-Pedro Vasconcelos, um dos mais populares cineastas nacionais, tem a sua primeira retrospectiva na Cinemateca
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Obreiro na criação do Cinema Novo português, António-Pedro Vasconcelos foi também o seu primeiro dissidente. Ao contrário de Paulo Rocha ou João César Monteiro, o realizador que começou por emular a Nova Vaga do cinema francês continuou a sua carreira, a partir do êxito de O Lugar do Morto, com filmes onde tenta aproximar-se dos modelos universais da ficção e de um cinema de género. Sempre em cruzamento com uma sublinhada reflexão sobre a relação amorosa e a paixão, a obra deste cineasta, motivo de um ciclo que se prolonga até meados de Julho na Cinemateca, é uma viagem por meio século de produção e pelos debates que protagonizou.

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António-Pedro Vasconcelos: arte e comércio no cinema português

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'Perdido por Cem…' (1973)

O primeiro filme de António-Pedro Vasconcelos é um bom exemplo da influência que a Nova Vaga do cinema francês exerceu sobre realizadores como Paulo Rocha, João César Monteiro, Fernando Lopes, José Fonseca e Costa, António da Cunha Telles ou Alberto Seixas Santos, entre outros, na definição estética do Novo Cinema em Portugal.

Filme de Lisboa, esta longa-metragem é, como mandavam as regras importadas de Paris, feita de planos-sequência, com a câmara ao ombro, som directo e, principalmente, interpretada quase só por actores não profissionais (José Cunha, Marta Leitão, Nuno Martins, Ana Maria Lucas e Rosa Lobato Faria), naturalmente repleta de citações literárias e cinéfilas.

Quinta, 14, 21.30.

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'Oxalá' (1980)

Entre o 25 de Abril de 1974 e Abril de 1978, um jovem exilado em Paris faz várias viagens a Portugal nesta obra estreada na secção competitiva do Festival de Veneza.

Essa experiência de viajante indeciso entre ficar e voltar a ir traduz-se, no argumento de Oxalá (com interpretação de Manuel Baeta Neves, Marta Reynolds, Laura Soveral, Judite Maigre, Lia Gama, Ruy Furtado, Karen Blangueron, Teresa Madruga e Adelaide João), numa sequência de retratos das mulheres com quem o protagonista se cruza, que é, também, uma tentativa do realizador criar uma memória do 25 de Abril através dessas intermediações.

Sábado, 16, 21.30.

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'Adeus, Até ao Meu Regresso' (1974) / 'A Voz e os Ouvidos do MFA' (2016)

É preciso ser já um bocado antigo para recordar a expressão “Adeus, até ao meu regresso”, utilizada pelos soldados portugueses, durante a Guerra Colonial, nas suas mensagens de Natal para os familiares, diligentemente recolhidas e apresentadas pela RTP. Mas foi, e muito apropriadamente, essa a frase escolhida por António-Pedro Vasconcelos para o título desta obra.

Encomendada pela mesma RTP no fim da Guerra Colonial, Vasconcelos, no seu documentário, regista testemunhos de soldados que combateram na Guiné, assim fazendo o retrato do conflito quando este era ainda realidade próxima. Na primeira parte desta sessão é exibido um dos últimos trabalhos do autor, A Voz e os Ouvidos do MFA, documentário televisivo que foca a sua atenção nos meses de conspiração que antecederam as acções militares do M.F.A. no 25 de Abril.

Terça, 19, 19.00.

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'O Lugar do Morto' (1984)

Por muitas voltas que se dê para falar de cinema em Portugal não há maneira de evitar o primeiro êxito comercial de António-Pedro Vasconcelos.

Com Ana Zanatti, Pedro Oliveira, Lídia Franco, Teresa Madruga e Manuela de Freitas, e cerca de 270 mil espectadores, O Lugar do Morto é um título incontornável da filmografia da década de 1980, percorrendo os caminhos narrativos há muito adoptados pelo cinema policial. Aqui, nesta história de mistério com uma mulher sedutora e enigmática de premeio, o realizador iniciou o caminho de afastamento dos seus companheiros de viagem e do Cinema Novo para nunca mais voltar. Ainda assim não resistiu à tentação da citação para encantar cinéfilo, fazendo o protagonista guiar – como em Desprezo, de Jean-Luc Godard – um Alfa-Romeo.

Quarta, 20, 21.30.

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'Jaime' (1999)

Quase década e meia depois, Vasconcelos estava já muito distante dos seus filmes iniciais e da, por assim dizer, corrente dominante do cinema em Portugal, como mostra esta longa-metragem passada nos bairros populares do Porto filmada como uma evocação do neo-realismo.

Esta associação é bastante evidente logo no início da película com a óbvia citação de Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica, o argumento do filme remetendo ainda para história idêntica (interpretada por Saul Fonseca, Fernanda Serrano, Joaquim Leitão e Nicolau Breyner), com um rapaz, filho de pais divorciados, tentando juntar dinheiro para oferecer ao pai uma motorizada que lhe permitisse ir trabalhar depois do roubo da sua.

Terça, 26, 21.30.

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'Os Imortais' (2003)

A memória de Guerra Colonial é trabalhada neste filme criado a partir do romance Os Lobos Não Usam Coleira, de Carlos Vale Ferraz.

Com Joaquim de Almeida, Emmanuelle Seigner, Nicolau Breyner, Ana Padrão, Alexandra Lencastre, Maria Rueff, Rogério Samora, Sérgio Mano e Rui Unas, o enredo desta longa-metragem centra-se na vida civil de quatro ex-comandos e combatentes em Moçambique e da sua difícil adaptação à realidade depois do fim da guerra.

Quarta, 27, 19.00.

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'Amor Impossível' (2015)

O último trabalho de ficção de António-Pedro Vasconcelos, que, no final deste ano, estreia Parque Mayer, é um olhar sobre o romantismo juvenil.

O mote é a história (com Victória Guerra, José Mata, Soraia Chaves e Ricardo Pereira), narrada em flashback, da investigação policial ao desaparecimento inexplicável de uma adolescente e do qual o namorado é o principal suspeito, usando o diário da rapariga, carregado de ecos sacados a O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, como mote da narrativa.

Quinta, 28, 21.30.

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'Aqui D’El Rei' (1991)

É preciso recuar até 1991 para encontrar o mais ambicioso projecto de António-Pedro Vasconcelos com o qual encerra a primeira parte deste ciclo: um fresco histórico sobre a expedição de Mouzinho de Albuquerque a Moçambique, em finais do século XIX, para capturar Gungunhana.

Com um elenco que reúne actores portugueses de várias gerações (Joaquim d’Almeida, Rogério Samora, Julie Sergeant, Pedro Efe, José Mário Branco) e actores estrangeiros de nomeada (Jean-Pierre Cassel, Arnaud Giovaninetti, Ludmila Mikaël, Montserrat Salvador), e argumento escrito por Carlos Saboga e pelo historiador e cronista Vasco Pulido Valente, Aqui D’El Rei foi o mais ousado projecto de António-Pedro Vasconcelos em termos de produção, e também o mais viscontiano dos seus filmes. Nesta sessão será apresentada a versão francesa desta série televisiva em três episódios, que o realizador considera a “ideal”, com uma boa hora e meia a mais do que a montagem para cinema.

Sábado, 30, 19.00.

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