Festival de Cannes 2018: os vencedores

Nem sempre o que parece acontece. E o inesperado aconteceu na 71º edição do Festival de Cannes quando Cate Blanchett entregou a Palma de Ouro a 'Shoplifters', o filme de Hirokazu Kore-eda a que poucos deram importância quando foi exibido.
Shoplifters, vencedor da Palma de Ouro
Shoplifters, vencedor da Palma de Ouro
Por Rui Monteiro |
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O maior e também o mais político dos festivais encerrou em festa e toda a gente ficou mais ou menos satisfeita com a democrática distribuição de prémios. Atribuídos a obras, realizadores e intérpretes que, atentos ao estado do mundo, injectaram consciência humanista nas suas películas, assim ampliando a diversidade geográfica e temática do cinema contemporâneo.

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Festival de Cannes 2018: os vencedores

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Palma de Ouro

Shoplifters, de Hirokazu Kore-Eda

Com surpresa, mas sem escândalo ou controvérsia de maior, o mais importante prémio do festival foi entregue pela presidente do júri, a actriz australiana Cate Blanchett, ao realizador japonês Hirokazu Kore-Eda.

No filme que apresentou, Shoplifters, Osamu ensina ao seu filho a arte de roubar em lojas e, no regresso de uma dessas, digamos, aulas, cruzam-se com uma rapariga gelando ao frio. Compadecem-se dela, levam-na para casa, o que não agrada muito à mulher de Osamu, que no entanto acaba também por condoer-se perante a trágica história da rapariga e acolhe-a apesar das dificuldades porque passa a família. Mas a forasteira vai pôr à prova a unidade familiar.

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Grande Prémio

Black Klansman, de Spike Lee

Benicio Del Toro e Chang Chen entregaram o que muitos consideram, numa perspectiva talvez demasiado competitiva para uma mostra de arte cinematográfica, o prémio de consolação do festival, a um habitual criador de polémica, Spike Lee.

Como quase sempre insistindo na luta anti-racista, Black Klansman, com John David Washington e Adam Driver, conta a história espantosa e verdadeira de um negro, Ron Stallworth, agente policial no Colorado, que se infiltrou no ramo local do Ku Klux Klan e, pelo telefone, ou em público sempre encapuçado, foi ganhando prestígio entre os racistas que queria prender, até, por um triz, não se tornar dirigente local da organização.

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Prémio do Júri

Capharnaüm, de Nadine Labaki

Foi como uma fábula politicamente aditivada, dirigida com um elenco quase sem actores profissionais, na qual um rapaz de 12 anos inicia um processo judicial contra os pais, que a realizadora libanesa Nadine Labaki conquistou um dos mais importantes prémios do Festival de Cannes.

Depois de receber o galardão das mãos de Gary Oldman e Léa Seydoux, Labaki aproveitou o momento dos agradecimentos para referir, reforçando a mensagem da sua obra, que é na “infância sem amor que se encontra a origem do mal no mundo.” Dedicando o prémio aos actores “que me abriram as suas vivas”, a realizadora, argumentista e actriz não quis deixar de fora uma singela homenagem ao seu país, o qual, disse, “apesar de tudo o que nele é criticável, é o que mais refugiados acolhe em todo o mundo.”

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Melhor Actriz

Samal Yeslyamova, em Ayka, de Sergey Dvortsevoy

Antes de entregar o prémio para Melhor Actriz a Samal Yeslyamova, com Ava Duvernay ao seu lado, Asia Argento fez questão de referir ter sido ali, durante aquele festival, tinha então 21 anos, que foi violada pelo agora infame Harvey Weinstein, apelando à denúncia dos prevaricadores e deixando aviso e ameaça: “nós sabemos quem vocês são.”

Mais comedida foi a premiada, protagonista de um filme em que uma mão solteira e pobre dá à luz um filho que não pode criar, mas não abdica dos seus instintos maternais, Samal Yeslyamova disse ser este “o mais inesquecível momento da minha vida” e agradeceu ao realizador, Sergey Dvortsevoy.

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Melhor Actor

Marcello Fonte, em Dogman, de Matteo Garrone 

O que toda a crítica considerou uma grande interpretação valeu ao actor italiano o prémio para Melhor Actor, entregue por Khadja Nin e pelo mestre da comédia italiano Roberto Benigni.

Considerado uma cóboiada urbana, Dogman, passa-se num subúrbio algures entre uma grande cidade e a natureza em estado quase selvagem, onde o protagonista é um criador de cães que se envolve numa perigosa e subjugante relação com Simone, um antigo pugilista com fama de particularmente violento que aterroriza a vizinhança.

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Melhor Realizador

Pawel Pawlikowski, por Cold War

Recebido em palco por Abderrahmane Sissako, Kristen Stewart e o realizador Denis Villeneuve, Pawel Pawlikowski fez questão de agradecer à direcção do festival a aceitação do seu filme a concurso, referindo como há muito que um filme polaco não era premiado.

Referindo-se à sua película, uma apaixonada e apaixonante história de amor entre duas pessoas de diferentes origens e temperamentos, passada no início da Guerra Fria, em 1950, na Polónia, Berlim, Jugoslávia e Paris, o realizador fez questão de concluir o seu discurso agradecendo aos actores e dedicando o prémio ao dramaturgo Janusz Głowacki, recentemente falecido, pois “ele representa tudo a que eu aspiro: generosidade e coragem.”

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Melhor Argumento

Foi um prémio tão renhido que foi preciso dividi-lo por dois argumentistas, a saber:

Alice Rohrwacher, por Lazzaro Felice

Obra em que a argumentista e realizadora junta os estreantes Adriano Tardiolo e Luca Chikovani, aos experientes Nicoleta Braschi, Segi López e Alba Rohrwacher para contar a história de Lazzaro, um jovem camponês com tão bom carácter que amiúde é tomado por parvo. E o seu encontro com Tancredi, um nobre, igualmente jovem, amaldiçoado, por assim dizer, pela sua imaginação, que planeia o seu próprio rapto e arrasta o camponês numa aventura pelo mundo moderno, longe, bem longe da terrível marquesa Alfonsina de Luna, a rainha dos cigarros.

 

Jafar Panahi, por 3 Faces

A outra “metade” do prémio foi entregue a Jafar Panahi, o cineasta do Irão, que não esteve naturalmente presente por se encontrar a cumprir prisão domiciliária no seu país e proibido de filmar durante 20 anos depois de ter ofendido estética e politicamente uns aiatolas.

Apesar disso, Panahi continua, mais ou menos clandestinamente, com uma pequena equipa, a realizar os seus filmes e a encontrar maneira de os enviar para fora do Irão. Assim aconteceu com esta nova obra, na qual a actriz Behnaz Jafari, comovida e intrigada pelo apelo de uma rapariga da província impedida de prosseguir estudos teatrais, procura um realizador seu amigo, o próprio Jafar Panahi, para a ajudar a resolver o imbróglio. Juntos viajam para o noroeste rural, para rapidamente descobrirem na força das tradições o aprisionamento do desejo da aspirante a actriz.

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Palma de Ouro Especial

Le Livre d’Image, de Jean-Luc Godard

Cinquenta anos depois de com François Truffaut, um bando de cineastas da nova vaga do cinema francês e alguns aliados, como Roman Polanski ou Milos Forman, Jean-Luc Godard mobilizar forças para se juntarem ao movimento revolucionário parisiense, impedindo o pano de subir na Grande Sala e levando a direcção a cancelar o festival, o mais prestigiado cineasta francês, que não esteve presente na cerimónia, foi agora galardoado com a Palma de Ouro de Especial.

O pretexto é o seu novo filme, obra que é “uma reflexão sobre o mundo árabe em 2017 através de imagens de documentários e de ficção”, onde se realça o silêncio, “nada mais que o silêncio, nada a não ser um canto revolucionário, uma história em cinco capítulos, como os cinco dedos da mão.”

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Câmara de Ouro

Girl, de Lukas Dhont

Apresentado no programa da secção Un Certain Regard, o filme de Lukas Dhont ultrapassou larga concorrência para aqui chegar. E aqui chegou, com a sua história de uma rapariga de 15 anos, determinada a ser bailarina, que, confrontando-se com a falta de flexibilidade do seu corpo, junta à impaciência e às frustrações próprias da adolescência a descoberta de ter nascido rapaz.

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Prémio do Júri Un Certain Regard

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de João Salaviza e Renée Nadere Messora

Entre os filmes portugueses presentes nesta edição do Festival de Cannes, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos foi o único que o júri considerou digno do prémio na secção Un Certain Regard.

Dirigido por João Salaviza e Renée Nadere Messora, esta produção luso-brasileira, primeiro filme de monta do realizador português depois de Montanha (no qual Messora foi assistente de realização), é descrita como uma viagem entre o espírito e a superstição, no meio da floresta amazónica, entre a comunidade índia dos Krahô. Aqui, Ihjãc, nos seus 15 anos, tem pesadelos desde a morte do pai. Pesadelos em que o rapaz caminha na floresta atraído por um canto, a voz do pai chamando-o desde a cascata, ordenando-lhe os preparativos do funeral para de uma vez por todas o espírito seguir o seu caminho. Ihjãc, porém, recusa cumprir o seu dever. Foge para a cidade e aí revela-se a metáfora sobre a realidade dos índios no Brasil contemporâneo.

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