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Realizador, Filmes, John Walker, Cretinos, A Teoria (2019)
©DRJohn Walker realizador de Cretinos, A Teoria

John Walker: “Os cretinos não nascem cretinos. É um fenómeno cultural”

‘Cretinos, a Teoria’ é um documentário baseado num livro de um professor de Filosofia. Conversámos com o realizador, o canadiano John Walker.

Escrito por
Eurico de Barros
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Em 2012, o professor de Filosofia americano Aaron James publicou Assholes: A Theory, uma análise do fenómeno dos cretinos, das suas características e da sua nocividade nas sociedades, que se transformou num bestseller. A obra inspirou o canadiano John Walker (na foto) a realizar o documentário Cretinos, a Teoria, em que participam nomes como John Cleese e o banqueiro e gestor financeiro Paul Baird.

Só se interessou pelo tema dos cretinos e sua omnipresença quando leu o livro de Aaron James, ou já o vinha a analisar?
Um pouco de ambos. O livro inspirou o filme, sem dúvida, mas depois de o ler apercebi-me que sempre funcionei segundo uma regra de “proibido cretinos” na minha vida. A minha família nunca tolerou comportamentos cretinos e enquanto realizador, sempre tentei evitar trabalhar com eles, porque a nossa indústria parece atrair uma certa quantidade deles. E o livro tornou-me mais consciente disso, é uma bela obra.

O cretino pode ser caracterizado como uma pessoa mal-educada a um ponto extremo? Ou não são uma e a mesma pessoa?
Um cretino é muito pior do que uma pessoa mal-educada, tal como o Aaron James escreve. Ele refere também que “mal-educado” não é uma expressão que usaríamos para classificar alguém de que não gostamos. Ser cretino implica uma característica moral. É alguém que tem um sentido de superioridade profundamente entranhado, que acha que merece ter vantagens especiais sobre todos nós. Mas claro que um cretino pode também ser uma pessoa mal-educada.

Os cretinos nascem assim, ou são produto das circunstâncias familiares ou sociais?
Os cretinos não nascem assim, o Aaron James di-lo no livro. É um fenómeno cultural. Ele escreve o seguinte: “Um rapaz que nasce nos EUA, em Itália ou em Israel tem mais probabilidades de se transformar um cretino do que se tiver nascido no Canadá, na Noruega ou no Japão.” Achei isto muito interessante. Culturas que têm grande rede de segurança, de cuidados do cidadão, caso da minha, a canadiana, tendem a gerar menos cretinos.

Há uma tendência para se encontrarem mais entre homens do que entre mulheres?
Claro que as mulheres podem ser cretinas, mas estão em geral a assumir uma característica masculina. Por serem, por exemplo, nomeadas presidente de uma empresa e terem visto outros homens que o são agirem como cretinos. Os cretinos são, predominantemente, homens. As mulheres são muitas vezes “bullies” de outras mulheres, mas não o fazem por um sentimento de superioridade. É por outras razões ligadas a especificidades do comportamento feminino. Nos homens, o fenómeno radica num sentimento de superioridade historicamente muito antigo que temos em relação às mulheres, e que abrange desde a ideia que devemos ganhar mais do que elas, até à noção de que elas têm que se submeter às nossas imposições sexuais. Isto segundo o livro, claro.

Disse que fez este documentário a pensar na sua filha. Foi por causa disto que referiu?
Sim, absolutamente. Quando li o livro, a primeira coisa que se me ofereceu fazer foi passá-lo para ela o ler também – ela tinha 20 anos nessa altura – e não ter tolerância para com este tipo de comportamento. É que senti que alguns dos namorados dela eram cretinos em potência [risos].

Os cretinos estão por toda a parte. E apenas um pode estragar o ambiente de um grupo, uma empresa, um clube. O que é que podemos fazer para que isso não aconteça? É possível fazer com que um cretino deixe de o ser?
Sim, é. Penso, por experiência própria, e por aquilo que li no livro, que precisamos do apoio de outras pessoas, dos nossos colegas. Se um superior nos trata mal, podemos juntar um grupo de colegas, de consócios, e enfrentá-lo. É que, ainda por cima, o cretino culpa sempre a vítima. Mas se outros apoiarem a vítima e disserem “Não, não, este comportamento é inaceitável”, isso poderá ajudar. Tenho um desses exemplos no filme, o da agente da Polícia Montada que estava a ser maltratada dentro da força e que não estava a conseguir nada sozinha. Mas saiu a público, outros reconheceram o mau comportamento e começaram a protestar e houve um processo judicial colectivo e uma petição com muitas assinaturas a favor dela. Tudo isso teve um enorme impacto, e resultou mais tarde numa mulher ser nomeada para chefiar a Polícia Montada.

O filme dá também o exemplo daquela grande empresa, a Baird, que filtra com muito cuidado quem emprega, para não admitir cretinos, e com bons resultados humanos e comerciais.
Sim, e isso é muito importante em termos de gestão. A atitude do presidente dessa empresa, Paul Purcell, é exemplar, e quando o vemos pensamos logo que é o tipo de pessoa que devia estar a governar um país. Tem altíssimos padrões morais. Essa empresa é um excelente lugar para se trabalhar e tem sucesso. A conclusão é: não precisamos de ser cretinos para termos sucesso. Sejamos artistas, empresários ou realizadores.

Odisseia (disponível na posição 92 do MEO)

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