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Manual do bom político (no cinema)

Com Hillary e Trump a luta pela presidência dos Estados Unidos ficou viva como um vulcão em erupção. Mas como mostram estes sete filmes, a coisa já vem de trás

©DR

Cinema e política são, a bem dizer, unha com carne. E esta é uma altura tão boa como outra qualquer para recordar a presença da política no cinema através de obras onde convivem, muitas vezes satiricamente, o melhor, o mau e ainda o pior da ambição e da intriga política.

Manual do bom político (no cinema)

Os Candidatos (1964)

Houve um tempo, o tempo retratado neste filme de Franklin J. Schaffner, em que as convenções partidárias não eram apenas um espectáculo televisivo e uma parada do candidato nomeado, mas verdadeiros e animados conclaves dados a discussões exaltadas e reviravoltas aparatosas. Como nesta adaptação da peça de Gore Vidal em que dois candidatos, William Russell (Henry Fonda) e Joe Cantwell (Cliff Robertson), procuram o apoio, decisivo para a nomeação, de um ex-presidente (Lee Grant) entretanto moribundo. O que é, de facto, uma maneira de dar a ver os bastidores dos congressos partidários e as jogadas e rasteiradas que levam à presidência… até um homem bom. 

Manobras na Casa Branca (1997)

Quando uma guerra pode salvar um presidente, digamos, dissoluto, e não há nenhuma assim à mão de semear, o melhor é inventar uma, como Robert De Niro e Dustin Hoffman fazem nesta sátira de Barry Levinson com argumento de David Mamet. O filme é uma alusão pouco subtil ao escândalo Monica Lewinski, durante a presidência de Bill Clinton, e à decisão deste em bombardear o Kosovo e alterar o equilíbrio político na região dos Balcãs sem razão aparente que não a de mostrar músculo. Mas, principalmente, é uma denúncia particularmente bem-disposta e acutilante e imaginativa sobre a manipulação política dos cidadãos. 

Bulworth – Candidato em Perigo (1998)

Warren Beatty, que também dirige, interpreta o papel de um antigo membro do Partido Democrata a tentar recolocar-se mais ao centro e disposto a aceitar qualquer jogada que lhe dê a popularidade desejada, se necessário for forjando o seu próprio assassinato. Mas isto é antes de ele próprio resolver, como se costuma dizer, virar a mesa, depois de, mais ou menos por acidente, entrar em contacto com uma vibrante comunidade afro-americana e dar por si a rappar os seus próprios discursos. Apesar de um pouco datado – e algumas vezes aparentemente desorientado –, o filme assinala alguns aspectos importantes e geralmente fora dos holofotes da política com humor sarcástico, mas a dinâmica é sabotada pela necessidade de um final, digamos, feliz. 

Bob Roberts – Candidato ao Poder (1992)

O primeiro filme dirigido por Tim Robbins, apesar da passagem dos anos, não perdeu actualidade, ainda é motivo para uma boa discussão política, e, de certa forma, antecipa a ascensão do Tea Party no interior do Partido Republicano que, com o tempo e a radical inclinação para a direita, deu no que deu, ou seja, Donald Trump como potencial presidente. Robbins, que é Roberts, um político que se fez a si próprio, e surge no palco dos comícios entoando canções de queixume contra a preguiça dos pobres, antes de explorar um discurso anti-governamental e anti-liberal que lhe acrescenta popularidade em cima da popularidade. Tudo ampliado pelo estilo falso documentário adoptado pelo realizador e pela forma astuta como utiliza a câmara em jeito de suplemento dramático. 

Em Inglês, S.F.F. (2009)

Astro da constelação Hollywood, por mor da qualidade e do êxito da série Veep, Armando Iannucci é, há muito, um mestre da sátira e um malabarista da semântica política, só comparável, no pólo oposto, com Aaron Sorkin. Ambas, sátira e semântica, demonstradas com alucinante verve neste filme, baseado nos seis episódios de outra série de televisão, The Thick of It, produzida, entre 2005 e 2007, pela BBC. Como naquela, Malcolm Tucker (interpretado em modo de histeria criativa pelo exemplar Peter Capaldi), o irascível e tonitruante rufia e manobrador para todo o serviço do primeiro-ministro, tenta meter na linha um membro tresmalhado do governo em busca de protagonismo, e mais uma vez salvar a pele de um governante sempre ausente, mas que é evidentemente Tony Blair, desta vez empenhado, a meias com o presidente dos Estados Unidos, em – imagine-se – começar uma guerra. 

O Enviado da Manchúria (1962)

John Frankenheimer encontrou uma maneira astuta de assinalar o clima de medo psicológico característico da Guerra Fria neste thriller político sobre lavagem ao cérebro de soldados norte-americanos por comunistas infiltrados. Numa elaborada teoria de conspiração, segue os passos do major Bennett Marco (Frank Sinatra), atormentado por pesadelos, depois de um dos seus homens ser morto por um sargento, que a investigação revelou ser um infiltrado comunista condicionado a cumprir qualquer ordem sempre que lhe mostrassem uma rainha de ouros. O realizador, ao mesmo tempo que revela o manobrismo geopolítico da época, cria um clima de tensão e suspense a que a versão actualizada do filme, realizada em 2004, com Denzel Washington, não consegue sequer aspirar.    

Peço a Palavra (1939)

Apesar da triste tradução nacional de Mr. Smith Goes to Washington, o filme de Frank Capra (um dos poucos cineastas que viu a parte nobre da política esforçando-se por torná-la comum, como, anos depois, em Um João Ninguém) é um clássico cinematográfico e um marco no cinema político. Aqui, Capra, por via de um esquema a dar para o escuro, coloca o ingénuo e idealista Jefferson Smith, supremamente interpretado por James Stewart, no Congresso dos Estados Unidos determinado a fazer o bem. Até que, claro, a sua honestidade o leva ao confronto, e o confronto torna-se verdadeiramente feio, com tentativas de corrupção e a invenção de um escândalo envolvendo Smith, o qual, ou não fosse Capra um guardião e propagandista de elevados princípios morais, acaba por se sair bem percorrendo o seu recto caminho sem necessidade de atalhos. 

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