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Nicolas Cage: bom ou mau actor (ou sete razões para a dúvida persistente)

Mistério da cultura pop repescado a cada novo filme com Nicolas Cage: afinal, o actor é um génio, uma fraude, um medíocre com sorte, ou uma peculiar mistura de tudo?

O misterioso Nicolas Cage

Ao todo são 84 filmes, contando com os cinco anunciados para 2017 e os cinco estreados este ano. É obra. Na generalidade, má. É o dinheiro que leva Cage a aceitar qualquer argumento, ou acha-se capaz de fazer de qualquer porcaria um êxito? O mistério continua.

Companheiros à Força (1993)

Nicolas Cage já fizera O Feitiço da Lua e Um Coração Selvagem. Tinha um nome, por assim dizer. Porém, com Samuel L. Jackson ao lado, meteu-se nesta suposta comédia carregada de comentários raciais. Os quais, por muito que tentassem os argumentistas mostrar sagacidade, não tinham graça nenhuma e proporcionaram a ambos os actores uma actuação tão confusa que, de tão tosca, até tinha uma certa piada, quando se acha graça ao patético. Pode-se dizer que foi um sinal incompreendido. 



O Escolhido (2006)

Desta vez, Cage é um polícia em busca de uma jovem desaparecida numa ilha isolada na costa americana do oceano Pacífico, povoada por um grupo secreto de mulheres que gerem o lugar como um enclave semipagão. Se isto não basta, o filme de Neil Labute (remake de filme de terror de 1973) é generoso no desenvolvimento do argumento da maneira mais bizarra possível sem qualquer medo do ridículo. Como acontece a outros filmes tão maus que até têm graça, tornou-se coisa de culto. Aliás, é em O Escolhido que o actor diz uma das suas mais tristemente célebres frases: “No, not the bees! Not the bees.”

O Perigo Espreita (2008)

Quando é para bater no fundo, o melhor é bater mesmo no fundo. E, na altura, nada parecia mais fundo no prestígio de qualquer actor que o desastrado Bangkok Dangerous, de seu título original, de Danny Pang e Oxide Chun Pang, autores conhecidos pela mediocridade disfarçada de baixo orçamento. E Nicolas lá foi fazer o seu papel. Agora de atirador furtivo existencial, encarregado de um assassinato que lhe causa problemas, não éticos, mas, sim, de demasiada e escusada exposição. Pior, apaixona-se por uma nativa, ganha consciência, e toma as decisões difíceis que tem de tomar enquanto anda de moto ao som de música fatela. 



Ghost Rider: Espírito de Vingança (2011)

Para quem acredita nessas coisas, é como o caminho para o inferno da representação a presença de Cage em Ghost Rider: Espírito de Vingança, no qual, curiosamente, interpreta um motociclista fugido de um maléfico submundo qualquer. Por outro lado, é também a prova de que ao participar na película de Mark Neveldine e Brian Taylor o actor é capaz de tudo. E, que, por desafio ou singela maluquice ou simples ganância – as mansões custam caro –, voluntariamente se mete em empresas destinadas a cobrir os seus protagonistas de vergonha – como se não bastasse já ter sido protagonista do original de Mark Steven Johnson uns anos antes.

Um Coração Selvagem (1990)

O estilo sempre um bocadinho acima do tom serviu às mil maravilhas para a demencial correria dos sentidos e das personagens entre um abismo e outro, ou em saltar da frigideira para o fogo, se preferido, enquanto procuram a normalidade para as suas vidas na anormalidade frenética e sexual em que se movem. Neste filme de estrada dirigido magistralmente por David Lynch, a par com Laura Dern (outra actriz da escola Cage, por assim dizer), o actor vestiu com orgulho o piroso fato de Sailor Ripley e tornou-se personagem para recordar. 

Morrer em Las Vegas (1995)

Eis o filme em que toda a gente leva um Óscar. Mike Figgis pelo argumento e pela realização, Elisabeth Shue como actriz principal e, claro, Nicolas Cage, na obra em que compensou realmente dar o litro – o que como piada é um bocado foleira pois o protagonista literalmente bebe até morrer. Mau gosto piadético à parte, este papel de argumentista nas lonas, que encontra uma prostituta tão ou mais complicada e – porque não? – estragada do que ele, permite a Cage mostrar a sua qualidade representando um arco de sentimentos e sensações entre a lucidez e a agonia notáveis e comoventes.

Inadaptado (2002)

Depois de Inadaptado, bem se pode dizer, nada. O vazio. Os seus melhores desempenhos desde então nada mais são do que menos maus em filmes, no melhor, assim-assim. E logo aqui ele não é uma personagem, mas duas, o alter ego e o irmão de Charlie Kaufman, o mais brilhante e ousado dos argumentistas, dirigido por um realizador original como Spike Jonze. Nestes dois papéis, Cage é sublime na interpretação da rivalidade entre os dois irmãos, moldando as suas habituais explosões de frenesim angustiado em uma espécie de agitação interior neurótica completamente apropriada à acção. 

Comentários

1 comments
João M
João M

Em Morrer em Las Vegas , só Nicolas Cage é que "leva" o Óscar (os outros três conseguiram a nomeação, mas não a estatueta...)