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Música, Johnny Cash
©DRJohnny Cash

Alguns dos melhores covers de todos os tempos

É certo que a arte do cover não tem fim e que todos os tempos são muito tempo para cobrir. Mas são escolhas. Eis algumas das melhores canções que ganharam nova vida numa nova versão.

Escrito por
João Pedro Oliveira
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Uns elevaram a qualidade da canção original com novas leituras, arranjos diferentes ou interpretações especialmente marcantes; outros apenas se alojaram oportunisticamente na falta de memória de uma nova geração, passando por peça original. De uma forma ou de outra, todos eles são covers memoráveis no universo da pop-rock, capazes de mudar a forma como ouvimos uma canção.

Espreite a lista abaixo ou siga a playlist no Spotify:

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Alguns dos melhores covers de todos os tempos

1. Jeff Buckley, “Hallelujah” (Leonard Cohen)

Não haverá muitas canções com tantos covers de sucesso. Lançada originalmente e sem grande alarido no álbum Various Positions (curiosidade: Portugal foi dos raros países onde o disco chegou ao top 10 logo, logo em 1985), “Hallelujah” foi sendo repetidamente reimaginada ao longo dos últimos 35 anos. Mais do que isso, a canção de Cohen foi sendo apropriada de forma diferente por diferentes gerações de ouvintes e redescoberta em novas vozes, crescendo como um hino indeciso de salvação e tragédia. O fenómeno deu aliás origem a um pequeno livro, Leonard Cohen, Jeff Buckley, And The Unlikely Ascent Of Hallelujah, do jornalista norte-americano Alan Light. O que só torna mais impressionante que Buckley tenha conseguido fazer tanta gente achar que a música era sua, quando lhe acrescentou esta interpretação assombrosa no seu álbum de estreia (e o único terminado em vida), Grace, de 1994.

2. Johnny Cash, “Hurt” (Nine Inch Nails)

O original é imbuído de um sofrimento trágico, sublinhado pelo arranjo dissonante e pela voz traumatizada de Trent Reznor. E no entanto, a interpretação limpa e direitinha que Johnny Cash lhe deu conseguiu dar-lhe uma espessura maior. Onde antes sobressaía a dor ressacada de uma vida capturada pelas drogas, escutamos de repente uma voz surrada pelos peso do tempo, que encara a sua própria mortalidade e passa em revista 71 anos de transgressões. E isso, de alguma forma, torna tudo mais pungente, credível e universal. É um entre os vários exemplos de grandes covers que poderíamos resgatar aos “American Recordings” de Johnny Cash – mas é talvez o mais impressionante. A peça completa-se com um magnífico vídeo, em que vemos o homem sentado entre escombros do seu próprio museu. Johnny Cash morreu sete meses depois de o filmar.

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3. Tom Jones, “What Good Am I?” (Bob Dylan)

Aos 70 anos, Sir Thomas John Woodward mergulhou fundo para trazer à superfície qualquer coisa absolutamente surpreendente, quando já ninguém esperava mais nem diferente dele. Teve aquilo a que podemos chamar o seu momento Johnny Cash. Primeiro, porque neste belíssimo Praise & Blame (2010) Jones se entrega ao mesmo universo espiritual rude da América profunda, onde se reza com uma mão na Bíblia e outra no coldre. Depois porque, tal como Cash fez alguma da sua melhor discografia quando, já septuagenário, se cruzou com Rick Rubin (homem com currículo forjado no ferro do hard rock) e gravou a série “American Recordings”, também Jones consegue o melhor disco da sua vida aos 70, a trabalhar com Ethan Johns (produtor de Ryan Adams, Kings of Leon ou Rufus Wainwright). O galês mantinha ainda uma peitaça de meter respeito e o vozeirão de barítono escuta-se aqui em blues encardidos de electricidade. Mas a melhor parte do disco é cantado em registo de confessionário, de um veterano a contas com a vida e à conversa com o criador, fazendo render cada palavra com uma gloriosa sensibilidade. Este cover de “What Good Am I”, original de Bob Dylan, é disso exemplo. Com este disco, Jones tornou-se no mais velho artista a atingir o top de vendas britânico.

4. Aretha Franklin, “Respect” (Otis Redding)

Foi gravado pela primeira vez em 1965 por Ottis Redding e facilmente poderia integrar uma lista de músicas que a maioria conhece melhor pela versão do que pelo original (na melhor parte das vezes, sem sequer desconfiar de que se trata de um cover). Mas mesmo para quem sabe disso, é apenas justo reconhecer que a versão de Aretha Franklin bate o original aos pontos. Foi com esta interpretação poderosa, surgida logo em 1967 na voz de uma então jovem estrela r&b, que a canção se transformou num dos mais impressionantes hinos feministas de sempre. E foi Franklin que lhe acrescentou a sua mais icónica passagem. Ora cante connosco: R-E-S-P-E-C-T.

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5. Jimi Hendrix, “All Along the Watchtower” (Bob Dylan)

Com grande frequência, a receita para um grande cover passa por pegar numa canção bombástica e acalmar a coisa, preferencialmente polindo-a numa versão acústica que revele a composição essencial e lhe dê novo significado. Pois Hendrix faz precisamente o contrário. Pega numa canção de inspiração folk e converte-a num comboio de mercadorias rock n’ roll, impulsionado por aqueles riffs de guitarra fluídos que só ele era capaz de sacar. Hendrix sempre foi um fã assumido de Dylan e espalhou vários covers de músicas do cantautor na sua própria discografia. Mas este elevou o original para outro patamar.

6. Stevie Wonder, “We Can Work It Out” (The Beatles)

O enciclopédico calhamaço que registar todas os covers já feitos dos Beatles pode reservar um dos primeiros capítulos à Motown. Mal o quarteto invadiu os Estados Unidos, nos idos de 1964, e já as Supremes editavam o álbum A Bit of Liverpool, quase todo feito de versões dos Beatles. Mas Stevie Wonder foi o primeiro artista da mítica etiqueta norte-americana a conseguir construir um sucesso em cima do sucesso dos Fab Four. Cinco anos depois de os Beatles terem lançado “We Can Work It Out” (foi número 1 de singles nos Estados Unidos, Reino Unido e pouco mais ou menos em todo o mundo), o jovem Stevie emprestou-lhe esta versão funky, alimentada pelo mesmo som de teclado Clavinet que haveríamos de ouvir em “Superstition”, e que reforça o tom optimista da canção de Lennon e McCartney. Foi incluído no álbum Signed, Sealed & Delivered, de 1970, e lançado como single no ano seguinte (que é como quem diz há precisamente 50 anos).

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7. Joe Cocker, “With a Little Help From My Friends” (The Beatles)

Aqui temos um caso em que o cover ajudou a promover o original. A canção foi composta por Lennon e McCartney a pensar na tessitura limitada de Ringo Starr, e inscrita em 1967 na segunda faixa do mítico Sgt Pepper 's Lonely Heart Club Band. Mas foi no ano seguinte que se transformou num êxito global, à boleia da voz rugosa mas elástica de Joe Cocker, que a esticou daquele registo cândido inicial até ao transe da rockalhada, e a transformou num hino do Festival de Woodstock. Por três vezes a canção alcançou o top de singles do Reino Unido e, curiosamente, nenhuma delas foi com os Beatles: em 1968 com Joe Cocker, em 1988 com os Wet Wet Wet, e em 2004, na versão juvenil de Sam & Mark.

8. Nina Simone, “Mr Bojangles” (Jerry Jeff Walker)

Em 1965, o cantor country Jerry Jeff Walker apanhou uma valente boina em Nova Orleães e acabou e a curá-la na cadeia. Aí passou a noite numa cela com um sem-abrigo que se apresentava como Mr. Bojangles, por não querer dar o verdadeiro nome à polícia. O nome era inspirado na figura Bill “Bojangles” Robinson (1878–1949), entertainer negro que fez fama nos anos 20 e 30 do século XX. Ora, este Bojangles era também homem dotado de talentos e nessa noite cantou, dançou, riu-se e falou da sua vida para quem quisesse ouvir, com uma graciosidade comovente, imune à miséria que o perseguia. Dessa experiência nasceu esta balada valseada que tanta gente já cantou. Há resmas de versões da canção, algumas bastante recomendáveis, como as de Bob Dylan, Nitty Gritty Dirt Band, Neil Diamond ou Sammy Davis Jr. que encarnou a personagem e lhe acrescentou uma preciosa dimensão cénica, ou até mesmo Robbie Williams, que lhe copiou o assobio e também encenou a coisa. Mas é talvez o cover de Nina Simone que mais acrescenta a uma canção que quase sempre se escutou no masculino. Está incluído em Here Comes the Sun, álbum de covers editado de 1971, onde podíamos ir buscar vários outros exemplares dignos desta lista.

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9. Whitney Houston, “I Will Always Love You” (Dolly Parton)

É a maior dose de azeite que incluiremos nesta lista, mas não há como evitar o tempero. Quando Whitney Houston pegou na canção em 1992, ela era já um sucesso digno do Hall of Fame. Na voz de Dolly Parton, a balada country “I Will Always Love You” era já um single de êxito por duas vezes repetido no top norte-americano: primeiro em 1974, depois em 1982, aquando da sua regravação. E mesmo assim, quando serviu de banda sonora ao filme O Guarda-Costas, a canção voltou com uma carga viral ainda mais violenta, inflamada pela voz poderosa de Houston, pela sua interpretação imaculada, e pela imagem dramática de amor impossível que o filme sublinhou. Com Houston, acampou 14 semanas consecutivas no n.º1 da Billboard Hot 100 e tornou-se no single interpretado por uma mulher mais vendido de sempre.

10. Cowboy Junkies, “Sweet Jane” (The Velvet Underground)

Esta recuperamos de uma outra lista assinada pelo grande José Carlos Fernandes. “Sweet Jane” é uma das mais conhecidas canções de Lou Reed e apareceu pela primeira vez em Loaded (1970), o quarto álbum de estúdio dos Velvet Underground e o último a contar com Lou Reed. Reed voltaria à canção no álbum Rock’n’Roll Animal (1974) e continuaria a tocá-la ao vivo durante muitos anos. 1974 foi também o ano de edição de 1969: The Velvet Underground Live, que documenta actuações da banda em Dallas e São Francisco e inclui uma versão mais suave e menos rock’n’roll de “Sweet Jane” (e que preserva a ponte que tinha sido suprimida na versão encurtada de Loaded). Quando os Cowboy Junkies pegaram na canção, para o seu segundo álbum, The Trinity Session (1988), o modelo foi a versão de 1969: The Velvet Underground Live, a que a banda canadiana deu um cariz mais despojado e narcoléptico.

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11. Nirvana, “The Man Who Sold the World” (David Bowie)

Não será dos melhores covers de sempre, reconheça-se, mas é exemplar desse fenómeno de erosão da memória capaz de criar sucessos recorrentes. É, de facto, um daqueles casos em que o cover confundiu muita gente quanto ao original – ainda que gente quase toda da mesma idade. A banda grunge de Seattle incluiu esta interpretação do original de David Bowie no – hoje lendário – espetáculo gravado em 1993 para a série MTV Unplugged, expondo a canção a toda uma nova geração. O sucesso foi tal que chegou a acontecer Bowie ouvir de malta nova que ia aos seus concertos (hoje gente com filhos a quem terão de aturar disparates do mesmo calibre) o quão fixe era o velhadas estar a fazer um cover dos Nirvana.

12. Paul Anka, “Smells Like Teen Spirit” (Nirvana)

Por falar em Nirvana, metemos aqui esta para a troca. Em 2005, o crooner e cantautor canadiano Paul Anka divertiu-se a enxertar swing em canções pop-rock, apoiado por uma big band. O exercício, não sendo original, acontece aqui com uma elegância notável, tudo interpretado com rigor, bem penteado e com botões de punho. E mesmo quem não simpatize com os originais, dificilmente vai recusar a galanteria das versões oferecidas a “Worderwall”, dos Oasis, ou “Black Hole Sun”, dos Soundgarden. Já agora, uma curiosidade que mostra como isto anda tudo ligado. O álbum inclui também a canção “It’s My Life”, em que Jon Bon Jovi cantava a frase Like Frankie said, I did it my way, numa referência a My Way, o clássico de Frank Sinatra, cujo texto foi escrito precisamente por Paul Anka. “My Way” que, a propósito, é também ele um cover - mas isso é tema para outra conversa.

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13. Seu Jorge, “Ziggy Stardust” (David Bowie)

É o próprio David Bowie que escreve nas notas do álbum The Life Aquatic Studio Sessions: “Se Seu Jorge não tivesse gravado as minhas canções acusticamente em português, eu nunca teria escutado este novo nível de beleza que ele embutiu nelas. O disco reúne uma colecção de canções de David Bowie que Seu Jorge gravou em português para a banda sonora do filme The Life Aquatic with Steve Zissou, de Wes Anderson. Ao longo da fita, o personagem interpretado pelo brasileiro no ecrã canta cinco covers de Bowie em Português e ao violão (em estúdio juntaria outras nove), respeitando as harmonias e o desenho melódico, mas dando-se a liberdades de adaptação lírica, com uma lata maravilhosa. Entre elas está este cover de “Ziggy Stardust”, transformado em canção de amor malandro.

14. Tom Waits, “Somewhere” (West Side Story, Leonard Bernstein)

A canção foi composta em 1957 por Leonard Bernstein, com texto de Stephen Sondheim para o musical West Side Story, e tornou-se num clássico a partir de 1961, depois de ser exportado da Broadway para Hollywood, com o filme de Robert Wise e Jerome Robbins. Na peça, como no filme, “Somewhere” é a expressão de uma esperança maior que a vida face à evidência de um amor condenado – espécie de Romeu e Julieta reescrito no mundo dos gangues juvenis dos anos 50. Maria canta estas linhas enquanto Tony morre nos seus braços. A voz límpida que ouvimos na gravação original para o musical de 1957 pertence à soprano Reri Grist, e a canção foi sendo revisitada ao longo dos anos sempre com a mesma grandeza orquestral e interpretações encenadas, de P.J. Proby a Barbra Streisand. Excepto, talvez, quando Tom Waits pegou nela em 1978 para abrir o álbum Blue Valentine. É como ver um mamífero de grande porte saltar graciosamente, de nenúfar em nenúfar, sem perturbar a quietude das águas. Sobre uma filigrana de cordas, a rouquidão embriagada de Waits consegue o pleno do desassossego emocional, deixando-nos indecisos entre a melancolia desesperada e uma tranquilidade reconfortante.

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15. Elvis Costello e Anne Sofie Von Otter, “Broken Bicycles” / “Junk” (Tom Waits / Paul McCartney)

Broken Bicycles, Tom Waits

Junk, Paul McCartney

Aqui entramos noutro campeonato. Em 2001, Elvis Costello decidiu pegar em duas melodias de caligrafia perfeita e juntá-las numa só, explorando as afinidades de tom e de tema. O produto resultou maior que a simples soma das partes e o saldo é, na verdade, uma nova canção, plena de significado, composta a meias por Paul McCartney e Tom Waits, com arranjo de Costello e com a sua voz a ouvir-se em dueto com Anne Sofie Von Otter. Este cover dois-em-um está guardado em For the Stars, belíssimo álbum que o nosso Elvis preferido gravou com a meio soprano sueca, faz agora 20 anos.

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