Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Cinco canções para o movimento #MeToo

Cinco canções para o movimento #MeToo

O pop-rock não é só entretenimento, também reflecte sobre as questões do nosso tempo. Eis cinco canções que falam de assédio sexual e da docilidade que se espera das mulheres na satisfação dos apetites masculinos

Pearl Jam
Photograph: Danny Clinch Pearl Jam
Por José Carlos Fernandes |
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Há práticas inadmissíveis que se instalam e subsistem durante décadas ou até séculos, mas que apesar de serem do conhecimento geral apenas são mencionadas “à boca pequena” e são encaradas com complacência, como se fossem irrelevantes ou inevitáveis. O assédio sexual só deixou este limbo quando em Outubro de 2017 surgiram reportagens detalhadas e circunstanciadas no New York Times e na New Yorker relatando o longo e tenebroso historial do produtor de cinema Harvey Weinstein. Foi o princípio do movimento #MeToo, que não tardou a revelar que estas práticas não eram correntes apenas em Hollywood, mas (pasme-se!) estavam presentes em muitas outras facetas da vida em sociedade, da moda ao desporto.

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Cinco canções para o movimento #MeToo

Sonic Youth
©DR

“Kissability”, dos Sonic Youth

Ano: 1988

A fama de terroristas sónicos que os nova-iorquinos Sonic Youth tinham na década de 1980 faz por vezes esquecer que por trás das suas guitarras adstringentes e fúria rock’n’roll não estava uma banal banda de garagem imbuída de nihilismo e espírito de rebelião juvenil. O quarteto era “well-read” e tinha aguda consciência social e política, como atesta o seu quinto álbum, Daydream Nation. Além de uma capa com uma pintura de Gerhard Richter e de letras com alusões a romances de William Gibson e James Ellroy e a um filme de Andy Warhol, Daydream Nation contém “Kissability”, cantada pela baixista Kim Gordon, mas a partir de uma perspectiva masculina: “Olha-me nos olhos, não confias em mim?/ És tão macia, dás-me tesão/ Vou pôr-te num filme, não queres?/ Podes tornar-te numa estrela, podes ir longe”. Toda a gente sabia como funcionavam as coisas em Hollywood e, todavia, seria preciso esperar quase 30 anos após esta canção para que Harvey Weinstein fosse denunciado.

Fugazi
©DR

“Suggestion”, dos Fugazi

Ano: 1988

Curiosamente, pela mesma altura, um grupo também conotado com as margens mais agrestes do pop-rock, e em particular com o punk e o hardcore, os Fugazi, de Washington DC, incluía no seu EP de estreia homónimo a canção “Suggestion”. Ao invés de Gordon em “Kissability”, é Ian MacKaye que assume o ponto de vista feminino: “Porque não posso eu passar por uma rua livre de sugestões?/ Será o meu corpo a única coisa relevante aos olhos dos homens?”. MacKaye questiona os padrões de comportamento impostos pela sociedade às mulheres –  “Ficamos quietas, tal como nos ensinaram/ Ficamos caladas, tal como nos ensinaram” – e conclui: “E assim, desempenhamos os papéis que nos foram distribuídos/ Ela não faz nada para se cobrir/ E ele toca-lhe porque precisa de experimentar/ Nós culpamo-la por estar lá/ Mas somos todos culpados!”.

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Pearl Jam

“Saying No”, dos Pearl Jam

Ano: 1991

As vozes dos Sonic Youth e dos Fugazi nunca tiveram alcance planetário (e, na altura, tinham apenas um núcleo restrito de fãs), mas poucos anos depois, uma banda então na crista da onda da popularidade (o grunge enchia estádios e tomava de assalto os tops), também abordou o assédio sexual na canção “Saying No”: “Ele espera que ela se entregue facilmente/ Mas ela diz ‘não’/ ‘Não quero’/ Quando ela diz para parares, tens de parar”. Mais adiante, a letra cita directamente os versos “Ficamos quietas, tal como nos ensinaram/ Ficamos caladas, tal como nos ensinaram”, de “Suggestion”, dos Fugazi.

Porém, este manifesto “No Means No” acabou por ter escassíssima repercussão, pois os Pearl Jam não gravaram a canção e apenas a tocaram em três ocasiões, a última das quais a 2 de Março de 1992, em Haia, na Holanda – no registo que pode ser ouvido abaixo.

Tori Amos
© Jean Goldsmith

“Me and a Gun”, de Tori Amos

Ano: 1991

“Me and a Gun” não é uma canção qualquer, nasceu de uma experiência traumática: quando Tori Amos tinha 21 anos, após uma actuação num bar em Los Angeles, um espectador ofereceu-se para lhe dar uma boleia e depois, sob a ameaça de uma faca, violou-a. Obrigou-a também a cantar hinos religiosos e manteve-a sequestrada durante horas, ameaçando ir entregá-la aos seus amigos. A canção foi o primeiro single de Little Earthquakes, o álbum de estreia de Amos, e o facto de ser cantada sem qualquer acompanhamento instrumental torna-a ainda mais exposta e crua. Como seria previsível, o single não logrou grande sucesso comercial.

A letra, que não é uma descrição factual dessa noite fatídica em L.A. (na canção o violador ameaça a vítima com uma pistola), rebate um dos argumentos habitualmente usados para “justificar” ou “atenuar” a gravidade do assédio sexual e da violação: “Sim, eu tinha um vestido vermelho justo/ Mas isso não quer dizer que devesse abrir as pernas para ti”.

[Ao vivo em Montreux, 1992]

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Stella Donnelly
©Willem Schalekamp

“Boys Will Be Boys”, de Stella Donnelly

Ano: 2017

“A minha amiga contou-me um segredo/ Contou-me que se culpa a si mesma/ Tu invadiste a sua magnificência/ Colocaste a tua mão sobre a boca dela/ Porque estava ela sozinha/ Usando uma blusa tão decotada?/ Disseram ‘Os rapazes são mesmo assim’/ Surdos à palavra ‘não’/ O teu pai disse-te que tu não tinhas culpa/ Afirmou: ‘As mulheres violam-se a si mesmas’”.

“Boys Will Be Boys”, que faz parte de Thrush Metal, o EP de estreia da australiana Stella Donnelly, sumaria os velhos e relhos argumentos invocados para desculpabilizar o assédio: as raparigas vestem-se de forma provocadora, estão mesmo a pedi-las, os rapazes não são de ferro, não conseguem controlar a sua testosterona.

A canção “Mechanical Bull”, do mesmo EP, também aborda o problema do assédio sexual, mas, em vez da toada magoada de “Boys Will Be Boys”, toma a via do exaspero e da revolta.

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