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Cinco óperas sobre Orfeu, de Gluck aos nossos dias

A apresentação em São Carlos de “Orfeo ed Euridice”, de Gluck, serve para recordar outras óperas que se lhe seguiram, inspiradas pelo mesmo mito.

Por José Carlos Fernandes |
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Orfeu e Euridice
O trágico momento em que Orfeu perde Eurídice pela segunda vez, por George Frederick Watts, c.1689

Muito antes de haver rock stars e Fender Stratocasters, havia Orfeo e a sua lira: quando a tocava e cantava não fazia estádios de futebol entrar em delírio, mas deixava os humanos suspensos do seu canto e tornava mansas as bestas selvagens. Parecia fadado a viver feliz para sempre com a ninfa Eurídice, mas quis o destino que esta sucumbisse à mordedura de uma serpente. Num primeiro momento, Orfeu ficou devastado pela perda; depois, decidiu descer ao Inferno para resgatar a amada e, pelas artes da sua voz e da sua lira, conseguiu convencer Hades (o Plutão dos romanos), com a ajuda da esposa, Perséfone (Proserpina, para os romanos), a deixá-lo levar Euridice de volta ao mundo dos vivos. Plutão impôs-lhe a condição de não olhar Eurídice até chegar à superfície. Mas Eurídice, perplexa com a aparente indiferença de Orfeu, tanto o assediou com questões angustiadas que, a uns passos de sair do submundo, Orfeu voltou os olhos para a sua amada e perdeu-a definitivamente.

O mito de Orfeu tem diferentes versões, com variações no enredo e, se bem que em todas o desgostoso Orfeu acabe despedaçado por um turba de bacantes trácias, diferentes razões são usadas para justificar a fúria homicida destas: ter-se-ão sentido insultadas pela fidelidade de Orfeu à memória de Eurídice; ou por Orfeu ter passado a preferir a companhia de rapazes; ou por Orfeu praticar rituais herméticos de que as mulheres eram excluídas; ou ainda por Orfeu se ter tornado abstémio e renegado o culto de Dionísio/Baco.

Os “inventores” da ópera, na Itália do século XVII, julgavam estar a ressuscitar uma prática musical da Grécia Antiga, pelo que foram buscar os primeiros enredos à mitologia clássica – e é natural que Orfeu, que encarna o poder da música, fosse assunto de muitas delas e que tenha sido um dos assuntos favoritos da ópera barroca.

Orfeu em Lisboa

Teatro Nacional S. Carlos. Qua (6 de Novembro) 20.00.

Cinco óperas sobre Orfeu, de Gluck aos nossos dias

Orfeo ed Euridice, de Gluck

Data e local de estreia: 1762, Burgtheater, Viena (versão francesa: 1774, Académie Royale de Musique, Paris)
Compositor: Christoph Willibald Gluck (1714-1787)
Libretista: Ranieri de’ Calzabigi (versão francesa: Pierre Louis Moline)

O Orfeo ed Euridice de Gluck é visto como a primeira ópera do Classicismo e como o início de uma “reforma” empreendida por Gluck, que, influenciado por um manifesto publicado pelo poeta e crítico Francesco Algarotti, em 1755, entendia que a opera seria que dominara o período barroco era prejudicada por enredos inverosímeis e retorcidos e por música sobrecarregada de ornamentações, ao serviço da exibição de virtuosismo vocal. Orfeo ed Euridice adopta um registo de “nobre simplicidade”, mas não marca a rejeição por Gluck da opera seria – aliás, a suas duas óperas seguintes, de 1763, recorrem a textos de Metastasio, o libretista-modelo das convenções rígidas da “velha” ópera barroca. Só quando trocou Viena por Paris, em 1770, é que Gluck deixou de vez a ópera “metastasiana” e se concentrou no novo “modelo”. A segunda ópera que estreou em Paris, em 1774, foi uma versão substancialmente revista e transposta para francês de Orfeo ed Euridice.

[“Che Farò Senza Euridice”, a mais famosa ária desta ópera – e de toda a produção de Gluck – por Philippe Jaroussky (Orfeo, contratenor) e I Barocchisti, com direcção de Diego Fasolis (Erato)]

L’Anima del Filosofo ossia Orfeo ed Euridice, de Haydn

Data de composição: 1791
Compositor: Joseph Haydn (1732-1809)
Libretista: Carlo Francesco Badini

O interesse dos compositores de ópera pelo mito de Orfeu manteve-se vivo ao longo do século XVIII, mas Haydn foi o único grande compositor do Classicismo a tratá-lo. A ópera foi encomendada a Haydn pelo empresário John Gallini, que dirigia o King’s Theatre, em Londres, e que assegurou também a contratação de várias vedetas do canto para os papéis principais – esqueceu-se porém, de tratar dos detalhes burocráticos e quando chegou a altura de levar a ópera à cena, o rei Jorge III negou a autorização, por considerar que bastava que um teatro londrino – o Pantheon – estivesse consagrado à ópera italiana. L’Anima del Filosofo foi parar à gaveta , ficou esquecida e só estreou em 1951.

Este olvido não foi particularmente grave: se Haydn não tinha o instinto dramático de Mozart e teve pouca sorte com os libretistas, Carlo Badini era francamente inepto e o seu libreto não dá mostras de acompanhar “o regresso à simplicidade” proposto por Gluck e Calzabigi. Convirá explicar o título: quando Orfeu, desgostoso com a morte de Eurídice consulta a Sibila (na altura não havia psicoterapeutas), esta recomenda-lhe que procure consolo na filosofia, por ser “um encantamento que induz a distracção” (!).

[“Del Mio Core ill Voto Estremo”, por Patricia Petibon (Euridice, soprano) e Concerto Köln, com direcção de Daniel Harding, do álbum Amoureuses (Deutsche Grammophon)]
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Orphée aux Enfers, de Offenbach

Data e local de estreia: 1858, Téâtre des Bouffes, Paris
Compositor: Jacques Offenbach (1819-1880)
Libretista: Henri Crémieux e Ludovic Halévy

Orphée aux Enfers é uma sátira ao mito de Orfeu, em que se dança o can-can e em que Orfeu e Eurídice se detestam mutuamente: Eurídice tem um amante, o lavrador Aristeu, e não suporta ouvir Orfeu tocar violino – o que faz com que este insista em mostrar-lhe o último concerto que compôs, só para a irritar. Assim, quando uma serpente morde Eurídice e ela vai parar ao Inferno, Orfeu vê-se livre da megera e Eurídice fica encantada com a ideia de ser levada por Plutão para as profundezas. Porém, a Opinião Pública (que encarna numa personagem) força Orfeu a ir resgatar Eurídice e, por outro lado, esta descobre que a vida no Inferno é menos divertida do que imaginara.

Orphée aux Enfers foi um sucesso estrondoso, consolidou o prestígio internacional de Offenbach e é hoje a mais famosa das dezenas de operetas por ele compostas.

[“Couplets Cupidon”, por Cassandre Berthon (Cupidon, soprano) e Orquestra da Ópera Nacional de Lyon, com direcção de Marc Minkowski e encenação de Jean-Pierre Brossmann]

Les Malheurs d’ Orphée, de Milhaud

Data e local de estreia: 1926, Téâthre La Monnaie, Bruxelas
Compositor: Darius Milhaud (1892-1974)
Libretista: Armand Lunel

O interesse pelo mito de Orfeu esmoreceu no século XIX mas reacendeu-se no início do século XX, tendo sido objecto de óperas de Malipiero, Krenek e Casella e de um ensaio abortado de Debussy. Milhaud não é muito lembrado como compositor de ópera, mas o seu catálogo neste género inclui nada menos de 15 obras, parte delas breves e sobre temas mitológicos, como acontece com Les Malheurs d’ Orphée, que dura pouco mais de meia hora.

O libreto de Lunel tem lugar não na Trácia mas na Camargue, Eurídice é uma cigana e Orfeu é um pastor com queda para as “mezinhas”, que usa para curar homens e animais. Como a família de Orfeu se opõe ao casamento com Eurídice, o par refugia-se nas profundezas dos bosques, onde Eurídice contrai uma doença misteriosa que Orfeu é incapaz de curar. O desconsolado Orfeu regressa à aldeia, onde as irmãs de Eurídice, crendo que esta foi assassinada pelo companheiro, tratam de o linchar e só percebem o erro demasiado tarde.

Les Malheurs d’ Orphée tem tido escassa visibilidade, mas talvez esteja na altura de a recuperar numa altura em que as medicinas alternativas, a discriminação racial e a violência doméstica são assuntos centrais na esfera mediática.

[“Grand Air d’Orphée”, por Jean Giraudeau (Orphée) e solistas do Teatro Nacional de Ópera de Paris, com direcção de Darius Milhaud, gravação de 1956 (Disques Véga, reedição Accord)
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The Mask of Orpheus, de Birtwistle

Data e local de estreia: 1986, English National Opera, Londres
Compositor: Harrison Birtwistle (n.1934)
Libretista: Peter Zinovieff

Entre as óperas sobre Orfeu surgidas em tempos mais recentes estão as de Hans Werner Henze (1978), Philip Glass (1991, a partir, não do mito original, mas do no filme Orphée, de Jean Cocteau), Jonathan Dove (2001, inspirado num conto de Italo Calvino) e Harrison Birtwistle, que tratou o tema por duas vezes, em The Mask of Orpheus e The Corridor (2009).

O libreto de The Mask of Orpheus é particularmente labiríntico, pois explora em simultâneo as várias versões do mito de Orfeu e não trata o tempo de forma linear. A componente musical também é assaz complexa, pois às partituras que Birtwistle compôs para vozes e instrumentos soma-se música electrónica, criada por Barry Anderson no laboratório do IRCAM, em Paris.

[“Third Immortal Dance”, pelos BBC Singers e BBC Symphony Orchestra, com direcção de Andrew Davis & Martyn Brabbins (NMC Records)]

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