Seis óperas do Classicismo com enredo mitológico

Apresenta-se no Teatro Nacional de S. Carlos "Idomeneo", de Mozart, uma das muitas óperas dos alvores do Classicismo cujo libreto recorre à mitologia greco-romana
Christian Curnyn
©Phil Poynter Christian Curnyn
Por José Carlos Fernandes |
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Idomeneo em Lisboa

Com Richard Croft (Idomeneo), Caitlin Hulcup (Idamante), Ana Quintans (Ilia), Sophie Gordeladze (Elettra), Marco Alves dos Santos (Arbace), Bruno Almeida (Grande Sacerdote), Coro do TNSC, Orquestra Sinfónica Portuguesa, direcção de Christian Curnyn, encenação de Yaron Lifschitz

Teatro Nacional S. Carlos, sábado 10, segunda-feira 12, quarta-feira 14 e sexta-feira 16, às 20.00, e domingo 18, às 16.00, 20-70€

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Seis óperas do Classicismo com enredo mitológico

Camera

Orfeo ed Euridice, de Gluck

Estreia: 1762, Viena
Música: Christoph Willibald von Gluck (1714-1787)
Libreto: Ranieri de’ Calzabigi

É vista como a primeira ópera do Classicismo e nela Gluck tentou operar uma “reforma” na opera seria que dominou o período barroco e que ele via como prejudicada por enredos inverosímeis e retorcidos e por música sobrecarregada de ornamentações, ao serviço da exibição gratuita de virtuosismo vocal. Curiosamente, Gluck escolheu iniciar esta reforma no sentido da “nobre simplicidade” com o mito de Orfeu e Eurídice, o mesmo que serviu de base ao nascimento da ópera no dealbar do século XVII, com a Euridice de Peri (1600), a Euridice de Caccini (1600), L’Orfeo de Monteverdi (1607) ou La Morte d’Orfeo de Landi (1619).

A história é bem conhecida: Orfeu, cujo canto e lira exercem um sortilégio sobre todas as criaturas, a ponto de amansar as feras, desfruta da felicidade de partilhar os seus dias com a ninfa Eurídice. Porém, o idílio é de curta duração, pois Eurídice é mordida por uma serpente e morre. Inconformado, Orfeu desce ao Inferno para resgatar a sua amada e consegue, com a sua música e as suas súplicas, convencer os poderes do submundo a libertar Eurídice. Estes impõem apenas uma condição: que Orfeo não dirija a palavra a Eurídice nem volte a fitar o seu rosto enquanto não chegar à superfície. Eurídice, incapaz de compreender esta atitude assedia-o durante a lenta ascensão com perguntas e recriminações, o leva Orfeu, num acto irreflectido, a voltar-se para ela - e Eurídice é de imediato levada para as profundezas. O libreto introduz um final feliz completamente alheio ao mito original: Orfeu, desesperado, considera suicidar-se, mas, no último instante, Cupido intervém e entrega-lhe Eurídice.

Gluck preparou uma versão revista, cantada em francês, estreada em Paris em 1774, com o título Orphée et Eurydice.

[Ária “Che Puro Ciel”, pelo contratenor Bejun Mehta (Orfeo) e a Akademie für Alte Musik Berlin, em instrumentos de época, com direcção de René Jacobs (Harmonia Mundi): “Che Puro Ciel” corresponde ao momento em que Orfeu se regozija por as potências infernais lhe terem concedido levar Eurídice consigo para a superfície]
Camera

Il Bellerofonte, de Myslivecek

Estreia: 1767, Nápoles
Música: Josef Myslivecek (1737-1781)
Libreto: Giuseppe Bonecchi

Belerofonte, filho do rei de Corinto, está apaixonado por Argene, filha do rei Ariobate, mas este entende que o herói não tem estatuto para merecer a mão de Argene, uma vez que o seu reino caiu nas mãos do usurpador Clearco. O reino de Ariobate é atormentado por um monstro que exige a entrega anual de uma virgem e Belerofonte tenta cair nas boas graças de Ariobate matando o monstro – mas este ainda manifesta reticências em conceder-lhe a mão da filha, que se dissipam quando chega a providencial notícia de que o usurpador Clearco foi derrubado e Belerofonte é de novo rei de Corinto.

O libreto inspira-se vagamente em episódios da vida do herói Belerofonte, embora as fontes gregas nada digam quanto a Argene e Ariobate. Tal não impediu a ópera – a segunda do boémio Myslivecek – de ser entusiasticamente acolhida. Foi o ponto de partida para a sua ascensão a um lugar proeminente no panorama operático italiano. Quando o adolescente Mozart, acompanhado pelo pai, andou por Itália, visitou Myslivecek em Bolonha em 1770. Não só os dois compositores se tornaram amigos como Myslivecek serviu de modelo para muitas das composições do seu colega mais novo.

[Coro “Rendi Alle Selve”, com direcção de Zoltan Pesko, 1987]
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Antigona, de Traetta

Estreia: 1772, São Petersburgo
Música: Tommaso Traetta (1727-1779)
Libreto: Marco Coltellini, segundo Sófocles

Édipo, rei de Tebas, foi expulso da cidade quando se descobriu que matara o pai e se casara com a mãe. Creonte, o seu cunhado, decreta que o trono vago será partilhado pelos seus filhos Etéocles e Polinices. Porém, como estes se desavêm, Creonte, para evitar uma guerra civil, decide que os dois irmãos deverão enfrentar-se em combate singular e que o trono ficará para o vencedor. Acontece que ambos acabam por perecer e o trono reverte para Creonte. Este decreta que Etéocles seja alvo de um funeral de Estado, mas que Polinices, que vê como o iniciador da luta fratricida, não terá direito a ser sepultado. Desafiando as ordens de Creonte, a irmã Antígona procede à cremação de Polinices pela calada da noite. A cremação está quase consumada quando Hemon, filho de Creonte, que está apaixonado por Antígona, adverte esta que Creonte soube da desobediência e vem a caminho. Antígona foge e as culpas acabam por recair sobre Hemon, que ficou com a urna funerária. Creonte condena o filho à morte, mas Antígona intervém e explica que a cremação foi obra sua. Creonte condena Antígona a ser emparedada viva e, sem que Creonte saiba, Hemon decide juntar-se à amada nesse terrível destino. Porém, Creonte acaba por mudar de ideias e não só liberta os dois amantes como autoriza o seu casamento.

Tal como Myslivecek, Traetta está hoje muito esquecido, mas foi um dos mais prestigiados compositores de opera seria da segunda metade do século XVIII e dirigiu, entre 1768 e 1775, a música na corte de Catarina II da Rússia.

[Excertos da versão com a Akademie für Alte Musik Berlin, em instrumentos de época, com direcção de René Jacobs e encenação de Vera Nemirova, na Staatsoper de Berlim, 2011]
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Atys, de Piccinni

Estreia: 1780, Paris
Música: Niccolò Piccinni (1728-1800)
Libreto: Jean-François Marmontel, a partir de Philippe Quinault, segundo Ovídio

Atys e a ninfa Sangaride estão mutuamente apaixonados. O problema é que Sangaride está noiva do rei Célénus, amigo de Atys. Inevitavelmente, Atys tem dentro de si sentimentos contraditórios: ama Sangaride mas também tenta tranquilizar o amigo Célénus, assegurando-lhe que Sangaride será uma boa esposa. Como se o imbróglio não fosse já grande, Cybèle, a mãe dos deuses, também se apaixona por Atys e anuncia-o a este através de Morphée, deus do sono, que lhe aparece num sonho e o intima a trocar Sangaride por Cybèle. Após vários equívocos e peripécias, Cybèle lança um feitiço sobre Atys, fazendo-o perder o juízo e ver Sangaride como um monstro. Atys liquida Sangaride e a malévola Cybèle devolve-lhe a razão: ao tomar consciência do que fez, Atys, desesperado, suicida-se (embora na versão que subiu à cena em 1783 Piccinni e Marmontel tenham convertido este desfecho macabro num final feliz).

Piccinni foi outra estrela de primeira grandeza da ópera da segunda metade do século XVIII que hoje raramente é ouvido e só costuma ser mencionado a propósito de uma rivalidade com Gluck, alimentada artificialmente e que dividiu o público parisiense entre “piccinnistes” e “gluckistes” (na altura não havia o futebol para polarizar as massas).

[Excertos da versão por Les Solistes du Cercle de l’Invention, em instrumentos de época, com direcção de Julien Chauvin]
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Idomeneo, de Mozart

Estreia: 1781, Munique
Música: Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Libreto: Giambattista Varesco, a partir do libreto de Antoine Danchet (musicado por André Campra)

A princesa Ilia, filha do rei Príamo, foi levada, com outros prisioneiros troianos, pelo rei Idomeneo para Creta. Lá, Ilia apaixonou-se por Idamante, filho de Idomeneo, que também a ama, o que suscita o ciúme de Electra, filha do rei Agamemnon, que está refugiada na corte cretense. Para tornar tudo ainda mais ensarilhado, quando Idomeneo regressa a Creta com a sua frota é surpreendido por uma terrível tempestade – prestes a naufragar, faz um acordo com Neptuno: se se salvar, sacrificará a primeira pessoa que lhe aparecer pela frente quando chegar a terra. Neptuno aceita e a primeira pessoa que Idomeneo encontra é o filho, Idamante. Idomeneo e o seu conselheiro Arbace concebem um esquema para ludibriar Neptuno: enviar Idamante para o exílio, a pretexto de escoltar Electra na viagem de regresso ao seu reino, e sacrificar outrem em seu lugar. Neptuno é que não cai na artimanha e dá largas à sua fúria por o acordo não estar a ser respeitado: faz estalar uma tempestade que impede o navio de Idamante e Electra de zarpar e faz surgir um monstro que semeia o terror entre os cretenses. O povo e os sacerdotes intuem que estas manifestações de ira divina resultam da quebra de um acordo entre Idomeneo e Neptuno e exigem que o primeiro revele o nome da pessoa que deveria ser sacrificada. Idomeneo admite que é o filho e Idamante, mostrando abnegação e nobreza, apresenta-se para ser sacrificado. Dá-se então mais um golpe de teatro: Ilia oferece-se para morrer no lugar do seu amado. E outro ainda: Neptuno (que nunca surge em cena, manifestando-se apenas como uma voz) ordena a Idomeneo que abdique e ceda o trono a Idamante e Ilia. É um final feliz para todos excepto Electra, que fica roída de ciúmes.

Mozart, que, à data, ainda não perfizera 25 anos, já tinha nove óperas no curriculum, mas nunca desfrutara (nem viria a desfrutar) de condições tão favoráveis como as que rodearam a produção de Idomeneo, uma encomenda do Príncipe Eleitor da Baviera, Karl Theodor, que providenciou cantores e uma orquestra de luxo, bem como cenografia e a coreografia de primeira qualidade.

[“Fuor del Mar”, por Ramón Vargas (Idomeneo) e Camerata Salzburgo, com direcção de Roger Norrington, encenação de Ursel & Karl-Ernst Herrmann, Festival de Salzburgo, 2006; a ária exprime a angústia de Idomeneo por, tendo escapado à fúria das ondas, enfrentar em terra uma tempestade de emoções não menos temível, ao ver-se forçado a enviar o filho para o exílio a fim de o poupar ao sacrifício acordado com Neptuno]
Camera

Oedipe à Colone, de Sacchini

Estreia: 1786, Versailles
Música: Antonio Sacchini (1730-1786)
Libreto: Nicolas-François Guillard, segundo Sófocles

Trata-se de um spin off (como se diria hoje) do mito de Édipo (ver a Antigona de Traetta): Édipo, expulso de Tebas, vagueia pela Grécia tendo a filha Antígona por única companhia, enquanto os seus filhos Etéocles e Polinices disputam o torno de Tebas. Polinices, que se aliou a Teseu para conquistar o torno de Tebas, encontra o pai e a irmã e acaba por arrepender-se de ter expulso o pai de Tebas e tenta a reconciliação, usando Antígona como intermediária. Édipo não está disposto a perdoar a Polinices, mas quando este lhe roga que o mate, acaba por comover-se e aceder ao seu pedido, para regozijo de todos.

A estreia da ópera, que contou com a presença de Luis XVI e Maria Antonieta, foi um fiasco, mas Maria Antonieta prometeu ao compositor que seria feita uma nova encenação no ano seguinte, no Palácio de Fontainebleu, em condições mais favoráveis. Porém, os imbróglios dos últimos anos da monarquia francesa retiraram margem de manobra à rainha e a produção foi cancelada. Quando Maria Antonieta comunicou o cancelamento ao compositor este mergulhou numa profunda depressão, de que não voltaria a erguer-se, morrendo umas semanas depois. Ironicamente, a reposição da ópera em Paris, em 1787, seria um sucesso estrondoso, conhecendo 583 récitas entre esse ano e 1830. O que não impede que seja hoje raramente ouvida.

[Recitativo “Barbares! Arrêtez!” e ária/trio “Du Malheur Auguste Victime”, por François Loup (Oedipe), Nathalie Paulin (Antigone), Tony Boutté (Thésée) e Opera Lafayette Chorus & Orchestra, em instrumentos de época, com direcção de Ryan Brown (Naxos)]

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