Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Dez tigres asiáticos do math rock

Dez tigres asiáticos do math rock

O math rock nasceu nos EUA na viragem dos anos 80-90, mas é no Extremo Oriente que tem hoje o seu terreno mais fértil

Prune Deer
©DR Prune Deer
Por José Carlos Fernandes |
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Nos rankings do PISA (Program for International Student Assessment) relativos a competências matemáticas, os sete países/regiões da Ásia Oriental que participam no estudo abarbatam os sete primeiros lugares: 1.º Xangai, 2.º Singapura, 3.º Hong Kong, 4. Taiwan, 5.º Coreia do Sul, 6.º Macau, 7.º Japão. Esta inclinação dos adolescentes asiáticos para a matemática parece ter tradução na facilidade com que se apropriaram dos códigos do math rock, um género musical nascido nos EUA, dominantemente instrumental, assente em padrões rítmicos irregulares e pouco usuais, em elaboradas malhas contrapontísticas de guitarras, em acordes dissonantes e harmonias bizarras, que por vezes se confundem com algumas franjas do jazz actual.

O Japão é o país onde o math rock primeiro lançou raízes (ver dez bandas japonesas de math rock) mas no resto do Sudeste Asiático não faltam praticantes do género. Os membros de um desses grupos, os taiwaneses Elephant Gym, sugerem uma explicação alternativa para a desproporcionada proliferação de bandas de math rock no Extremo Oriente: as métricas complexas e irregulares fazem parte das tradições musicais ancestrais daquela região. Com efeito, o segredo não parece estar no número de horas semanais de aulas, de estudo acompanhado e de explicações particulares dedicadas à matemática, senão em Portugal haveria uma banda de math rock em cada cave ou garagem.

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Dez bandas imbatíveis a fazer contas de cabeça

GriffO

Origem: Hangzhou, China

Hangzhou, capital da província de Zhejiang, é uma megalópole de 9 milhões de habitantes (22 milhões, se considerarmos toda a área metropolitana), é um dos principais centros tecnológicos do mundo e alberga a sede da Alibaba, o colosso do comércio electrónico (a 7.ª empresa mais valiosa do mundo). O seu PIB é o 10.º maior entre as cidades chinesas.

Banda: Resultou do encontro entre alunos universitários de belas-artes, moda e design gráfico. Como tantos outro math rockers asiáticos, começaram por ouvir os japoneses Toe e Lite, mas desde então foram diversificando as influências

Discos: The Queen of Trance EP (2014), Cosmos Egg EP.

[“Afflatus”]

Chinese Football

Origem: Wuhan, China

Wuhan, capital da província de Hubei, no centro da China, é uma megalópole de 8 milhões de habitantes (19 milhões, se considerarmos toda a área metropolitana) que é frequentemente designada como a “Chicago chinesa”, por ser um importante nó na rede de transportes nacional e por possuir uma apreciável quantidade de arranha-céus. O seu PIB é o 9.º maior entre as cidades chinesas

Banda: Embora a China desafie hoje o Ocidente no que diz respeito à produção industrial e aos arranha-céus, o seu futebol e o seu pop-rock não têm ainda projecção internacional. Mas as coisas estão a mudar, como mostra este quarteto de veteranos da cena musical de Wuhan – cidade afamada pelas suas bandas punk – e que se diz influenciado por Death Cab For Cutie e American Football e bandas emo, como Jimmy Eat World e The Get Up Kids.

Discos: Chinese Football (2015), Here Comes a New Challenger EP (2017), Continue EP (2019)

[“Awaking Daydream”, de Here Comes a New Challenger]
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Prune Deer

Origem: 2013, Hong Kong, China

A Região Administrativa Especial de Hong Kong tem 7.5 milhões de habitantes (6.777 por Km2, o que faz dela a 4.ª região mais densamente povoada do mundo) e um PIB de 360.000 milhões de dólares (uma vez e meia o PIB de Portugal). Ocupa o 16.º lugar no ranking do rendimento per capita (48.000 dólares/ano) e o 7.º no índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas e é a cidade do mundo com maior número de arranha-céus, com larga vantagem sobre Nova Iorque.

Banda: O math-rock é uma corrente popular em Hong Kong e os Prune Deer contam-se entre os seus mais destacados cultores. A banda fez apreciáveis progressos entre o primeiro e o segundo álbum e em 2018 actuou em Tóquio – o que, no universo do math rock, equivale a uma consagração.

Discos: Solid Transparency (2015), Chemistry (2018).

[“Heatdeath”, de Solid Transparency]

Elephant Gym

Origem: Kaohsiung, Taiwan

Kaohsiung cresceu rapidamente na segunda metade do século XX, atingindo hoje 2.5 milhões de habitantes (2.7 milhões na área metropolitana), o que faz dela a 2.ª mais populosa de Taiwan. É também um importante centro de artes e cultura e, a fim de consolidar a posição da cidade como uma das capitais da música pop na Ásia-Pacífico, a autarquia lançou em 2010 um concurso internacional de arquitectura visando a construção, numa zona portuária a precisar de rejuvenescimento, do colossal Marine Culture and Pop Music Center, que foi ganho pelo atelier espanhol Made In e está em construção.

Banda: O math rock costuma ser conduzido pelas malhas das guitarras, mas os taiwaneses Elephant Gym, que evidenciam uma proficiência instrumental e uma sofisticação composicional surpreendente em gente tão nova, confiam tal missão ao baixo, um instrumento que pode ter o seu quê de elefantino, mas que, nas mãos de Tif Chang Kai-hsiung, soa tão ágil e flexível como se passasse os dias no ginásio.

Discos: Balance EP (2013), Angle (2014), Work EP (2016), Underwater (2019)

[”Games”, ao vivo no estúdio HereThere]
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Tide/Edit

Origem: 2011, Manila, Filipinas

No início do século XX, Manila tinha pouco mais de 200.000 habitantes. Hoje, dentro dos limites originais da cidade, vivem 1.8 milhões de habitantes, o que faz dela a cidade com maior densidade populacional do planeta: 71.000 pessoas por Km2. Quando se considera toda a área metropolitana de Manila, a população atinge os 22 milhões. Quem veja hoje esta megalópole terá dificuldade em acreditar que a cidade foi quase inteiramente reduzida a escombros durante os combates entre forças japonesas e norte-americanas, naquela que foi a mais sangrenta batalha da II Guerra Mundial na frente Ásia-Pacífico.

Banda: Os Tide/Edit apresentam-se no seu site como “tocando música feliz”, mas isso é só metade da história, pois há sempre um travo dolente mesmo quanto a música é luminosa à superfície. O que não é de estranhar numa banda que assume como referência principal os japoneses Toe.

Discos: Ideas EP (2012), Foreign Languages (2104), Lightfoot (2015)

[“Always Right, Never Left”, de Foreign Languages, numa versão ao vivo, 06.04.14]

Tom’s Story

Origem: 2011, Manila, Filipinas

Banda: Tal como os Chinese Football, os Tom’s Story cresceram a ouvir bandas punk e emo norte-americanas, mas foram sofrendo uma apreciável inflexão na trajectória e acabaram por desembocar no math rock, partilhando com os conterrâneos Tide/Edit uma inclinação para composições luminosas mas com um veio central de melancolia.

Discos: Tom’s Story (2016)

[“Dream/Catcher”, do álbum de estreia, homónimo]
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Sphaeras

Origem: Singapura

A cidade-estado de Singapura não podia destoar mais do estereótipo do Sudeste Asiático como “destino exótico”, onde o turista ocidental espera encontrar “praias paradisíacas e quase desertas”, “tradições pitorescas” e monges embrulhados em lençóis cor-de-laranja a tocar gongo. Possui o 3.º PIB per capita mais elevado do mundo, a 3.ª maior densidade populacional do mundo (5.6 milhões de habitantes em 722 Km2) e uma vida cultural intensa (não é por acaso que existe uma Time Out Singapura).

Banda: Entre os vários grupos de rock instrumental da cidade estão os Sphaeras, que praticam uma mescla de math rock e prog rock. E como as fronteiras e as distâncias têm cada vez menos significado, o seu álbum Sun Seeker é uma colaboração com os Odradek, de Piracicaba, Brasil.

Discos: Moirai (2015), Sun Seeker (2016)

[“DeLorean” de Moirai, ao vivo em estúdio, nas sessões Audiotree Live, 2018]

Dirgahayu

Origem: 2013, Kuala Lumpur, Malásia

Kuala Lumpur possui 1.7 milhões de habitantes (7.2 milhões na área metropolitana), três dos dez maiores centros comerciais do mundo e é a 10.ª cidade mais visitada do mundo.

Banda: Formados no rescaldo da dissolução dos Akta Angkasa e dos Custom Daisy, os Dirgahayu, que já mereceram entrevista e elogios da nossa irmã Time Out Kuala Lumpur, praticam um math rock musculado e de constantes mutações rítmicas.

Discos: Commemorate! (2015)

[“Istinggar”, ao vivo nas Wknd Sessions, 2015]
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Nao

Origem: 2004, Kuala Lumpur, Malásia

Banda: Os Nao fogem à tendência dominante no math rock asiático, ao incorporarem influências psicadélicas e privilegiarem atmosferas inquietantes. Indicam como bandas de referência, além dos incontornáveis Toe, os Mars Volta, os Primus e os Tool.

Discos: Nao (2015)

[“Dark Side of the Noon”, ao vivo]

Murphy Radio

Origem: Samarinda, Bornéu, Indonésia

Samarinda, que foi até meados do século XX, uma vilória sonolenta, tem hoje 840.000 habitantes e é a cidade mais populosa de ilha de Bornéu. A Indonésia, como a Malásia, não faz parte dos países cujo nome ocorre espontaneamente aos europeus quando se fala de pop-rock, mas isso só mostra como a Europa é lenta a interiorizar que já não está no centro do mundo e que, no que à criação artística diz respeito, a globalização nivelou boa parte das assimetrias ao dotar toda a gente com as mesmas ferramentas e o mesmo acesso à informação.

Banda: O nome dos Murphy Radio vem de uma marca de aparelhos de rádio fundada em 1929 na Grã-Bretanha e que desfrutou de grande popularidade nos anos 30 e 40, mas as suas referências musicais estão perfeitamente actualizadas.

Discos: Naftalena EP (2016)

[“Sports Between Trenches”]

Rock para dar e vender

Deep Purple
©DR
Música, Pop

Dez concertos pop-rock ao vivo com orquestra

O pop-rock sofre de algum complexo de inferioridade face à música dita “erudita” e é por essa razão que alguns grupos vêem na actuação com uma orquestra clássica uma forma de ganhar respeitabilidade. Quem pensa assim está equivocado, pois o pop-rock não precisa de envergar traje de cerimónia para ser digno, fica muito bem de calças de ganga rasgadas e t-shirt desbotada. 

Russian Circles
©Paul Blau
Música, Rock e indie

Dez bandas para fazer o funeral do rock

A taxonomia rock é fértil em denominações inadequadas ou tolas, mas poucas são tão infelizes como “post-rock”. Quem não esteja familiarizado com a expressão, pode, legitimamente, pensar que se trata de rock feito por gente que trabalha nos Correios. Porém, o “post” é aqui usado no sentido de “pós”, “o que vem depois”. 

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The Rolling Stones
Photograph: Courtesy The Rolling Stones
Música

Dez clássicos rock reinventados pelo jazz

Em tempos, julgou-se que o jazz só se alimentava de standards, mas tem vindo a descobrir-se que o seu estômago é capaz de digerir todo o tipo de música, como é o caso destas canções, maioritariamente dos anos 70.

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