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Igor Stravinsky
@DR Igor Stravinsky

Dez facetas do génio de Stravinsky

Está sem ideias para ocupar o tempo? A Time Out propõe a descoberta da obra dos mais prolíficos compositores da história

Por José Carlos Fernandes
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Igor Stravinsky nasceu em 1882 em Oranienbaum, um subúrbio de São Petersburgo, numa família aristocrática com raízes russo-polacas. Foi aluno particular de Nikolai Rimsky-Korsakov e as suas peças de juventude, que espelham o romantismo tardio, com rico colorido e pinceladas exóticas e folclóricas do seu mestre, não deixavam adivinhar os três bailados revolucionários que compôs para os Ballets Russes, de Sergei Diaghilev.

Esta “fase russa”, de ritmos selvagens e colorido deslumbrante, foi interrompida pela Revolução de Outubro de 1917, já que as origens de Stravinsky incluíam-no no que os “bolcheviques” designavam como a “gente do passado” e o compositor, que então costumava passar o Verão na herdade familiar na Ucrânia e o Inverno na Suíça, achou mais prudente ficar de vez no Ocidente. Em 1920 instalou-se em França, tendo vivido na Bretanha, em Paris e Nice, mudança que corresponde na sua música a uma fase neoclássica, pautada pela depuração e pela inspiração em música de outras épocas.

Em 1939 tomou um navio para Nova Iorque, a fim de fazer uma série de palestras em Harvard, e acabou por ficar pelos EUA. No ano seguinte comprou casa em Hollywood, onde ficaria quase até ao fim da vida (obteve cidadania americana em 1948). Assimilou influências de jazz e, embora tenha começado por tecer considerações pouco abonatórias sobre a dodecafonia da Segunda Escola de Viena, acabou, a partir de 1954, por incorporá-la em várias obras suas. Faleceu em Nova Iorque em 1971.

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Dez facetas do génio de Stravinsky

1. Bailado "O Pássaro de Fogo"

Ano e local de estreia: 1910, Palais Garnier, Paris

Sergei Diaghilev, o empresário dos Ballets Russes, assistiu em 1909, em São Petersburgo, a uma apresentação da fantasia orquestral Feu d’Artifice, de um jovem compositor quase desconhecido, e ficou tão bem impressionado que recrutou os seus serviços para compor um bailado para a sua recém-criada companhia de ballet.

O enredo de O Pássaro de Fogo (Zhar-ptitsa, em russo), foi delineado por Aleksandr Benois e Michel Fokine, a partir do cruzamento de duas lendas russas, a do Pássaro de Fogo e a de Koshchei o Imortal, e a coreografia foi confiada a Fokine. A música concebida para esta história de um príncipe que resgata 13 princesas que estavam prisioneiras do terrível mago Koshchei e da sua horda de monstros é de um colorido deslumbrante, está salpicada de melodias populares russas e desemboca num momento de vitalidade selvagem quando o príncipe força os monstruosos servos de Koshchei a entregar-se a uma dança de violência inaudita na história da música.

Quer a música quer a coreografia, os cenários e o guarda-roupa suscitaram o entusiasmo de público e crítica.

[“Dança Infernal”, pela Sinfónica da Cidade de Moscovo, com direcção de Dmitri Jurowski, ao vivo na Casa Internacional da Música de Moscovo, 2011]

2. Bailado "Petrushka"

Ano e local de estreia: 1911, Théâtre du Chatelet, Paris

O sucesso de O Pássaro de Fogo levou Diaghilev a encomendar novo bailado a Stravinsky. Fokine foi responsável pela coreografia e Benois pelo enredo, que voltou a usar temática russa: desta feita é uma história de amor e ciúme entre três fantoches num teatro de marionetas numa feira em São Petersburgo. A personagem que dá título ao bailado (a que Stravinsky deu o subtítulo de “Cenas burlescas em quatro quadros”) é Petrushka, o equivalente russo do Polichinelo (Pulcinella) da Commedia dell’Arte. Petrushka está apaixonado pela bailarina, mas este acha mais encanto ao Mouro, o que leva o despeitado Petrushka a, insensatamente, desafiar o Mouro, que o despacha com a sua cimitarra.

Stravinsky criou uma partitura ainda mais colorida e feérica do que a do Pássaro de Fogo e que atribuiu papel de relevo ao piano.

[excerto, pela Filarmónica de Berlim, com direcção de Simon Rattle, ao vivo na Berlin Philharmonie, 2010]
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3. Bailado "A Sagração da Primavera"

Ano e local de estreia: 1913, Théâtre des Champs-Élysées, Paris

No 3.º bailado que Igor Stravinsky compôs para os Ballets Russes, com o subtítulo “Quadro de Rússia pagã”, o ambiente de conto de fadas dos dois bailados dá lugar a uma perspectiva bem mais cruenta: nas desoladas estepes russas, homens e animais têm de suportar um Inverno tão inclemente que chegam a recear que o sol os tenha deixado para sempre – assim, quando, na Primavera, surgem os primeiros sinais de renascimento da natureza, as tribos sentem-se obrigadas a dar graças às divindades por ter sobrevivido a mais um período de gelo e trevas, sacrificando uma donzela num ritual cruel. A música corresponde à brutalidade do enredo delineado pelo etnógrafo e arqueólogo Nicholas Roerich (também responsável pela cenografia do bailado) a partir de uma ideia de Stravinsky.

A aspereza, a energia desabrida e os ritmos angulosos de A Sagração da Primavera (conhecida internacionalmente pelo título francês, Le Sacre du Printemps) e a ousadia da coreografia (de Vaslav Nijinsky) deixaram perplexo e indignado o público da estreia, gerando um tumulto que ficaria na História da Música.

[excerto, pela Orquestra Sinfónica de Minneapolis, com direcção de Antal Dorati, numa gravação de 1953 para a Mercury]

4. A História do Soldado

Ano e local de estreia: 1918, Lausanne, Suíça

A História do Soldado é obra de natureza difícil de definir e é por vezes classificada como “ópera de câmara”. O enredo, adaptado de um conto tradicional russo, tem ressonâncias faustianas: um soldado vende a sua rabeca (a sua alma) ao diabo em troca de um livro que, supostamente, permite conhecer o futuro.

Ainda que a temática seja russa, Stravinsky afasta-se radicalmente da sonoridade e orquestração dos bailados anteriores: os três actores (soldado, diabo e narrador) interagem com um septeto de violino, contrabaixo, clarinete, corneta, trombone e percussão.

Stravinsky extraiu desta ópera de câmara uma suíte instrumental que é tocada mais frequentemente do que a obra original.

[“Marche Royale”, pela Orquestra de Câmara de Zurique, com direcção de Roger Norrington (Sony Classical)]
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5. Sinfonias para instrumentos de sopro

Ano e local de estreia: 1921, Londres

O título “sinfonia” não remete aqui para a tradição sinfónica de Mozart, Beethoven e Brahms mas para a etimologia grega do termo: “sons produzidos em conjunto”. Apesar das citações de melodias de sabor russo, a obra é mais um passo no distanciamento em relação ao opulento universo sonoro dos primeiros três bailados. As Sinfonias foram dedicadas a Claude Debussy, falecido em 1918 e a cujas inovações harmónicas a música de Stravinsky muito deve.

[Pela London Sinfonietta, com direcção de Esa-Pekka Salonen (Sony Classical)]

6. Bailado "Les Noces"

Ano e local de estreia: 1923, Théâtre de la Gaîté, Paris

Les Noces (Svadebka, em russo), inspirada nos rituais populares do casamento na Rússia, foi a derradeira obra da “fase russa” de Stravinsky. Quando estreou, já Stravinsky deixara definitivamente o país natal e dera início à sua “fase neo-clássica”, mas Les Noces começara a ser esboçado em 1913 e ficara completamente delineado (mas não orquestrado) em 1917. A evolução que as concepções musicais de Stravinsky sofreram entre 1913 e 1923 ditaram que a grande orquestra que tinha planeado usar desse lugar a uma insólita formação com quatro solistas vocais, coro, quatro pianos e vasta panóplia de percussão.

[“Chez le Marié”, pelo English Bach Festival Chorus & Percussion Ensemble, Martha Argerich, Krystian Zimerman, Cyprien Katsaris e Homero Francesch (pianos), com direcção de Leonard Bernstein (Deutsche Grammophon)]
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7. Ópera-Oratória "Oedipus Rex"

Ano e local de estreia: 1927, Théâtre Sarah Bernhardt, Paris

Oedipus Rex conta a terrível história de Édipo, filho de Laio e Jocasta, reis de Tebas, sem grandes desvios à essência da tragédia de Sófocles, mas o compositor decidiu retirar parte da fúria e do negrume do original, impondo que o libreto, redigido por Jean Cocteau em francês, fosse vertido em latim, uma língua incompreensível para a maioria dos espectadores, e fazendo intervir um narrador que esbate o dramatismo dos eventos. Porém, a música, na sua simplicidade e despojamento, acaba por veicular eficazmente a torrente de violência e horror da tragédia de Sófocles e Oedipus Rex acaba por ser – em particular nas intervenções do coro – uma peça de arrepiante intensidade emocional.

[“Respondit Deus”, por Bryn Terfel (Creonte, barítono) e Orquestra Saito Kinen, com direcção de Seiji Ozawa, em gravação de 1992 (Philips)]

8. Sinfonia dos Salmos

Ano e local de estreia: 1930, Bruxelas

Stravinsky compôs algumas obras a que deu o título “sinfonia”, mas nem todas se atêm ao modelo “canónico” da sinfonia. É o caso desta Symphonie des Psaumes, que musica excertos dos salmos 38, 39 e 150 e recorre a coro e orquestra de grandes dimensões. Stravinsky rompera com a religião ortodoxa quando tinha 14-15 anos e regressou a ela apenas em 1924, quando tinha 42 anos e passava por uma crise espiritual, tendo desde então observado as práticas da religião ortodoxa.

[I andamento (“Exaudi Orationem Mea”), pelos Festival Singers of Toronto e Columbia Symphony Orchestra, com direcção de Igor Stravinsky (Columbia/Sony)]

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9. Concerto para violino

Ano e local de estreia: 1931, Berlim

Stravinsky não mostrou muito interesse pelo formato “canónico” do concerto, embora tenha escrito várias obras para instrumentos solistas e orquestra. O Concerto para violino foi o que mais se aproximou dos moldes tradicionais do concerto para solista e orquestra e foi composto para o jovem violinista polaco Samuel Dushkin, por encomenda do mecenas deste, o diplomata (e compositor americano) Blair Fairchild. O compositor começou por mostrar-se relutante em aceitar o encargo, alegando não conhecer suficientemente bem o instrumento, mas Dushkin deu-lhe preciosa ajuda e a composição chegou a bom porto.

[IV andamento (Capriccio), por Hilary Hahn e Academy of St. Martin-in-the-Fields, com direcção de Neville Marriner (Sony Classical)]

10. Ópera "The Rake’s Progress"

Ano e local de estreia: 1951, Teatro La Fenice, Veneza

The Rake’s Progress tem a particularidade de ter origem na pintura: Stravinsky viu a famosa série homónima de oito pinturas realizadas em 1722-23 por William Hogarth (e que conheceu ampla difusão sob a forma de gravura) e solicitou um libreto nelas inspirado ao poeta W.H. Auden (que contou com a colaboração de Chester Kalman). A música combina influências de Mozart, da opera buffa do séc. XVIII (incluindo recitativos acompanhados por cravo) e neo-classicismo, tudo assimilado pelo estilo anguloso e sem excrescências típico do compositor russo.

Tom Rakewell, a personagem principal, deixa a mulher a quem jurara amor eterno e que o ama sinceramente – como pressupõe o seu nome, Anne Trulove – para levar uma vida dissoluta em Londres, acabando por casar-se, por capricho, com Baba the Turk, uma mulher barbada que ganha a vida como atracção de feira, e por dissipar a fortuna que lhe caiu nas mãos em luxos e tolices. Tom é preguiçoso, abúlico e não muito esperto e gasta boa parte da fortuna a tentar produzir em massa uma máquina que supostamente transformaria pedras em pão e não passa de um fantoche nas mãos de Nick Shadow, um compincha que acaba por revelar ser o Diabo. O pacto faustiano entre Tom e Nick só poderia ter desfecho funesto. Tom acaba punido, apesar da tentativa da devotada Anna para o salvar: enlouquece e é internado num asilo.

[“No Word from Tom”, por Julia Bullock (Anne) e Orquestra de Câmara Holandesa, com direcção de Ivor Bolton, numa produção da Nationale Opera holandesa, na temporada de 2017/18]

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