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Joseph Haydn
©DR Joseph Haydn

Nove sinfonias de Haydn que precisa de ouvir

Poucos foram os compositores de renome que compuseram uma dezena de sinfonias, mas Haydn ultrapassou a centena

Por José Carlos Fernandes
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“Embarras du choix”: é assim que em francês se designa a situação em que as opções são tantas e tão sedutoras que se fica desorientado e até angustiado quando chega o momento da escolha. Os anglófonos usam o termo “embarrassment of choices” e os lusófonos, embora não tenham expressão equivalente, ter-se-ão deparado certamente com este tipo de “embaraço”. Uma vez que nem todos têm tempo e perseverança para ouvir as 107 sinfonias compostas por Joseph Haydn (1732-1809), a Time Out seleccionou algumas das mais representativas. A quem estranhe o número 107, é devida uma explicação: sim, a numeração oficial das sinfonias de Haydn vai só até 104, mas é lícito somar-lhes duas obras de juventude (Sinfonias “A” e “B”, datadas de 1757-60) e uma Sinfonia Concertante para violino, violoncelo, oboé e fagote (1792). Há também que notar que a numeração das sinfonias não corresponde rigorosamente à cronologia.

Haydn, que compôs a maior parte das sinfonias para a corte da família Esterházy, explicava a quantidade e variedade da sua produção pelo facto de ter passado quase três décadas em “confinamento” nos domínios dos Esterházy: “Estava isolado do mundo. Ninguém em meu torno me punha em dúvida ou me atormentava e, assim, fui forçado a ser original”.

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Nove sinfonias de Haydn que precisa de ouvir

1. Sinfonia n.º 6 Le Matin

Ano: 1761

Haydn já tinha composto uma quinzena de sinfonias no seu primeiro cargo como Kapellmeister, na corte do Conde Moritz, mas a sua personalidade como sinfonista só começou a afirmar-se após a entrada ao serviço dos Esterházy, formalmente na qualidade de vice-mestre de capela, mas, na prática, com plena responsabilidade pela música na corte, pois o Kapellmeister titular, Gregor Werner, estava já muito debilitado.

A Sinfonia n.º 6 foi composta mal entrou ao serviço do príncipe Paul Anton Esterházy e foi este quem lhe sugeriu a ideia de uma trilogia que representasse as três partes do dia – e assim nasceram as sinfonias Le Matin, Le Midi e Le Soir.

O Adagio inicial da n.º 6 representa o nascer do sol.

[I andamento (Adagio – Allegro) pela Orquestra Barroca de Freiburg, em instrumentos de época, com direcção de Petra Müllejans (Harmonia Mundi)]

2. Sinfonia n.º 39 Tempesta di Mare

Ano: 1765

As sinfonias compostas por Haydn entre 1766 e 1774 estão imbuídas do espírito Sturm und Drang, uma corrente estética proto-romântica então em voga, que valorizava gestos eloquentes e imprevistos e a expressão de emoções extremadas. Uma das primeiras incursões de Haydn neste território foi a Sinfonia n.º 39, que ganhou posteriormente o título de “tempesta di mare”, devido à natureza impetuosa de alguns dos seus andamentos, sobretudo o IV.

[IV andamento (Finale: Allegro di molto) por Il Giardino Armonico, em instrumentos de época, com direcção de Giovanni Antonini (Alpha/Outhere)]

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3. Sinfonia n.º 45 Dos Adeuses

Ano: 1772

A Sinfonia n.º 45 nasceu como um apelo à sensatez e clemência do patrão de Haydn, o príncipe Nikolaus I, que, em 1762, sucedera ao seu falecido irmão, Paul Anton.

Naquele ano de 1772, o príncipe estava a prolongar a estadia no palácio de Verão de Esterháza para lá do previsto e do razoável e os músicos estavam ansiosos por ter férias e rever as suas famílias, que costumavam ficar em Eisenstadt, a cidade que funcionava como capital administrativa dos domínios dos Esterházy. Haydn concebeu uma forma subtil e humorística de fazer passar ao seu patrão as reivindicações dos músicos: no final da sinfonia, os instrumentos vão calando-se um após o outro, e os músicos saindo da sala, até só restarem dois violinos (um deles tocado pelo próprio compositor). O príncipe terá percebido a mensagem e no dia seguinte ordenou o regresso da corte a Eisenstadt.

[IV andamento (Finale: Presto – Adagio) pelo Mercury Baroque Ensemble, em instrumentos de época, ao vivo em Houston, Texas, 2012]

4. Sinfonia n.º 60 Il Distrato

Ano: c.1774-75

A Sinfonia n.º 60, conhecida como Il Distrato (O Distraído) não segue a estrutura em quatro andamentos usual no formato sinfónico, pois resulta da reciclagem de material que Haydn compuser como música de cena para a peça Le Distrait, de Jean-François Regnard, que estreara em 1697 e caíra no esquecimento e que, em 1774, fora retomada, agora em versão alemã e em prosa, como Der Zersteute, pela companhia itinerante de Karl Wahr, que passou algum tempo ao serviço da família Esterházy. A comicidade da peça encontra eco na música, nomeadamente no último andamento, em que uma entrada impetuosa (Prestissimo) da orquestra se desfaz em caos sonoro, quando os violinos fingem parar para afinar as cordas.

[VI andamento (Finale: Prestissimo), por The Academy of Ancient Music, em instrumentos de época, com direcção de Christopher Hogwood (L’Oiseau-Lyre/Decca)]
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5. Sinfonia nº85 La Reine

Ano: c.1785-86

Na década de 1780, os interesses musicais do príncipe Nikolaus I reorientaram-se para a ópera, o que significou que Haydn foi menos solicitado a produzir sinfonias para a corte dos Esterházy. Mas como a sua fama já alastrara pela Europa, apesar de estar confinado aos palácios de Eisenstadt e Esterháza, de Paris, um dos faróis da música orquestral da época, chegou a encomenda de seis sinfonias, efectuada pelo Conde de Ogny, um dos organizadores das concorridas temporadas de concertos da Loge Olympique. Daqui resultaram as Sinfonias n.º 82 a 87, estreadas em Paris na temporada de 1878, numa série de concertos que tiveram o patrocínio da casa real. Consta que a rainha Maria Antonieta teria em grande apreço a Sinfonia n.º 85, o que levou a que esta ficasse conhecida por La Reine.

[II andamento (Romance: Allegretto), pela Orchestra of the 18th Century, em instrumentos de época, com direcção de Frans Brüggen (Philips)]

6. Sinfonia n.º 94 Surpresa

Ano: 1791

1790 marcou uma viragem na vida de Haydn: o melómano Nikolaus I, faleceu e foi sucedido pelo seu filho Anton, que pouco se interessava por música e viu na magnífica orquestra da corte um sorvedouro de dinheiro, pelo que tratou de a extinguir. Haydn manteve o título de Kapellmeister, um salário (com corte substancial) e a pensão concedida por Nikolaus I, mas uma vez que Anton não tinha uso a dar aos seus talentos, acedeu ao convite de Peter Salomon, empresário e violinista alemão radicado em Londres, para uma tournée na Grã-Bretanha, onde a música de Haydn era conhecida e muito apreciada. A tournée de 1791-92 decorreu em ambiente triunfal, de forma que Haydn foi convidado a regressar em 1794-95. Foi em Londres que foram compostas e estrearam as suas derradeiras 12 sinfonias, com os n.º 93-104 (só a n.º 99 foi composta em Viena).

A n.º 94, estreada em 1792, deve o nome a um inesperado acorde fortissimo que irrompe no final da tranquila abertura do II andamento.

[II andamento (Andante), por The Academy of Ancient Music, em instrumentos de época, com direcção de Christopher Hogwood (L’Oiseau-Lyre/Decca)]

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7. Sinfonia n.º 96 O Milagre

Ano: 1791

O milagre a que o título da Sinfonia n.º 96 alude teve lugar no King’s Theatre, em Londres, em Fevereiro de 1795, quando o público presente na sala deixou os seus lugares e se acotovelou junto da orquestra para ver de perto o célebre Haydn, que se aprestava para dirigir uma das suas sinfonias a partir do pianoforte. Foi então que um gigantesco candelabro se despenhou no meio da sala, sobre os assentos vazios dos que se aglomeravam lá à frente. Como é frequente quando uma tragédia em potencial acaba por não causar vítimas, falou-se em “milagre” e, embora a sinfonia no programa dessa noite fosse a n.º 102, um equívoco fez com que a designação “O Milagre” ficasse colada à n.º 96, que tinha estreado em Hanover Square a 11 de Março de 1791.

[IV andamento (Finale: Vivace assai), por La Petite Bande, em instrumentos de época, com direcção de Sigiswald Kuijken (Deutsche Harmonia Mundi)]

8. Sinfonia nº103 Rufo de Timbales

Ano: 1795

O “classicismo” não pode ser entendido como um conceito monolítico ou um padrão rigorosamente vigiado, caso contrário, a Sinfonia n.º 103 seria dele excluída, já que se inicia com um rufo de timbales, algo nunca ouvido até então. Mas Haydn possuía inesgotável inventividade e não hesitava em aplicar soluções pouco ortodoxas.

[I andamento (Adagio – Allegro con spirito), por La Petite Bande, em instrumentos de época, com direcção de Sigiswald Kuijken (Deutsche Harmonia Mundi)]
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9. Sinfonia n.º 104 Londres

Ano: 1795

O título atribuído a esta sinfonia não faz muito sentido, pois não é mais londrina do que as 11 que a antecederam, mas os nomes dados às sinfonias de Haydn não são da responsabilidade do compositor e devem muito à fantasia.

A n.º 104 estreou a 4 de Maio de 1795, no último concerto londrino de Haydn e as receitas deste – 4000 florins – reverteram para o compositor, que certamente ficou feliz por receber uma soma que representava quatro vezes a pensão anual paga pelos Esterházy.

[IV andamento (Finale: Spiritoso), por The Academy of Ancient Music, em instrumentos de época, com direcção de Christopher Hogwood (L’Oiseau-Lyre/Decca)]

Clássicos da clássica

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Em 1792, o Conde Ferdinand von Waldstein, um dos principais mecenas de Beethoven, despediu-se deste, que tinha então 22 anos e deixava a sua cidade natal Bona para ir estudar em Viena, com uma recomendação: “Através de inabalável diligência, recebereis o espírito de Mozart das mãos de Haydn”. Mozart terá sido o modelo de Beethoven na juventude. Já as aulas que teve com Haydn parecem ter sido pouco profícuas. Mas se Beethoven começou por ter Mozart como modelo, em breve desenvolveu uma voz própria.

Wolfgang Amadeus Mozart
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Wolfgang Amadeus Mozart legou-nos abundante produção para solista e orquestra, antes de mais para o seu instrumento de eleição, o piano, para o qual compôs 27 concertos, a maior parte destinados a servir de veículo ao seu virtuosismo no instrumento. Mas a criatividade de Mozart foi também posta ao serviço de instrumentos como o violino, o clarinete, a trompa, o oboé ou o fagote, e até mesmo a flauta, um instrumento com o qual embirrava.

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Franz Liszt, Março 1886
©Nadar

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Franz Liszt começou a aprender piano aos sete anos, aos nove já se apresentava em concertos públicos e aos 12 publicou a sua primeira obra, numa colecção em que surgia ao lado de Beethoven e Schubert. Tornou-se num dos maiores virtuosos do piano de todos os tempos e percorreu a Europa em frenéticas tournées, suscitando uma idolatria similar à das estrelas rock de hoje e fazendo palpitar muitos corações femininos com as longas melenas e a pose estudada para causar sensação.

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