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Música, Pauta, Páginas do caderno de anotações musicais de Mozart
©British Library Páginas do caderno de anotações musicais de Mozart

Nove sinfonias de Mozart que precisa de ouvir

As últimas sete sinfonias de Mozart são imprescindíveis, mas vale também a pena ouvir a que compôs com oito anos de idade

Por José Carlos Fernandes
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A numeração tradicional das sinfonias de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) detém-se no 41 e segue os critérios estabelecidos por Ludwig von Köchel, o autor do primeiro catálogo sistemático das obras do compositor (o “K” que identifica as obras de Mozart remete para o seu nome). Porém, desde a publicação do catálogo Köchel, em 1862, a investigação musicológica apurou que: nem todas as 41 sinfonias “oficiais” são de Mozart; existem sinfonias de juventude que não tinham sido contempladas no catálogo Köchel; quer nas sinfonias “oficiais” quer nas partituras entretanto descobertas há várias obras cuja atribuição é incerta.

A contagem total é hoje de 68 sinfonias, mas as sinfonias de juventude entretanto descobertas não vieram alterar a percepção da produção sinfónica de Mozart, nem a numeração tradicional de 1 a 41. As sinfonias de juventude fazem figura de peso-pluma quando comparadas com as obras tardias: são obras breves, ligeiras e aprazíveis, por vezes com a função de introduzir ou encerrar peças musicais ou teatrais e não com carácter autónomo – é bom lembrar que no tempo em que Mozart as compôs, o termo “sinfonia” tinha ainda contornos vagos e só “cristalizaria” quando Mozart já era adulto.

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Nove sinfonias de Mozart que precisa de ouvir

1. Sinfonia n.º 1 K.16

Ano: 1764

Em Junho de 1763, quando Mozart tinha sete anos de idade, o pai, Leopold, levou-o, com a irmã Nannerl, numa tournée europeia destinada a exibir os dotes musicais extraordinariamente precoces dos dois petizes. Em 1764, os Mozart chegaram a Londres, onde vivia o mais novo dos filhos de Bach, Johann Christian, que se tornaria em alvo de admiração e modelo para o jovem salzburguês. Não admira pois que a sua primeira incursão no domínio sinfónico siga de perto o modelo favorecido por J.C. Bach e pelo amigo e sócio deste, Carl Ferdinand Abel – Mozart copiaria mesmo uma sinfonia deste último, que, foi, por equívoco, inserida no catálogo Köchel como Sinfonia n.º 3 K.18.

O catálogo Köchel contabiliza 13 “sinfonias de infância” de Mozart, compostas entre 1764 e 1771, a que se somam outras tantas de atribuição incerta.

[I andamento (Molto allegro), por The English Concert, em instrumentos de época, com direcção de Trevor Pinnock (Archiv)]

2. Sinfonia n.º 28 K.200

Ano: 1774

Após uma infância e primeira adolescência passada em tournées, em Dezembro de 1771, Mozart e a família regressaram a Salzburg, onde o pai era violinista na orquestra da corte do Príncipe-Arcebispo de Salzburg. O detentor deste título, Siegmund von Schrattenbach, faleceria poucos dias depois da chegada dos Mozart, sendo sucedido pelo bem mais azedo e menos permissivo Hieronymus Colloredo. Em 1773, com 15 anos, Mozart entrou ao serviço da orquestra da corte de Colloredo, para a qual produziu grande quantidade de música sacra e orquestral. As sinfonias compostas entre 1771 e 1774 são conhecidas como “sinfonias de Salzburg” e têm os números 14 a 30, a que se somam oito sinfonias que se limitam a reciclar material de outras obras do compositor.

A Sinfonia n.º 28 marca uma evolução decisiva na produção sinfónica de Mozart, sendo considerada por alguns musicólogos como “o nascimento da sinfonia moderna”.

[III andamento (Menuetto: Allegro), pela Orchestra of the 18th Century, em instrumentos de época, com direcção de Frans Brüggen (Philips)]

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3. Sinfonia n.º 31 K.297 Paris

Ano: 1779

Em 1778, aos 22 anos, insatisfeito com a atmosfera castradora e as fracas perspectivas de carreira na corte de Salzburg, Mozart despediu-se do seu cargo e empreendeu nova digressão, agora acompanhado apenas pela mãe, com o fito de encontrar um posto mais consentâneo com o que julgava serem as suas capacidades. A viagem levou-o a Augsburg, Mannheim e Paris, onde apresentou a Sinfonia n.º 31 (que costuma ser catalogada nas sinfonias “tardias”, compostas a partir de 1778), marcada por uma colorida e exuberante instrumentação, que, pela primeira vez na obra de Mozart, inclui clarinetes. A obra teve estreia privada a 12 de Junho de 1779 e seis dias depois foi apresentada no prestigiado Concert Spirituel. Apesar de a sinfonia ter sido bem acolhida, Mozart não logrou obter nenhuma encomenda ou posto em Paris e, poucas semanas, depois teve o infortúnio de ver falecer a mãe. Acabaria por resignar-se a regressar à corte de Salzburg, onde o pai lhe conseguira obter o posto de organista.

[I andamento (Allegro assai), pela Orchestra of the 18th Century, em instrumentos de época, com direcção de Frans Brüggen (Philips)]

4. Sinfonia n.º 35 K.425 Haffner

Ano: 1782

O relacionamento de Mozart com Colloredo não melhorou e em 1781 as tensões laborais fizeram com que Mozart fosse despedido com um pontapé no traseiro, ministrado pelo mordomo de Colloredo, levando o compositor a tentar a sorte em Viena. Em contraste com as 34 sinfonias “oficiais” (mais vinte e muitas de atribuição incerta ou feitas de material reciclado) que compôs até ser despedido de Salzburg, os anos de Viena (1782-96) apenas viram nascer sete. Mas quantidade não é qualidade e não é por acaso que as sete últimas sinfonias são mais tocadas do que as seis dezenas que as precederam.

O facto de Mozart se ter estabelecido em Viena não cortou os laços com Salzburg, onde o pai e a irmã continuaram a viver, e no Verão de 1782 recebeu a encomenda de uma serenata para festejar a elevação à nobreza de Siegmund Haffner, filho do antigo burgomestre de Salzburg (seis anos antes, Mozart já compusera para o casamento da filha do burgomestre a Serenata K.250). Mozart compôs a nova serenata à pressa, pois estava sobrecarregado de trabalho, mas em Dezembro entendeu que o material era suficientemente válido para ser reaproveitado numa sinfonia, a n.º 35, que estreou a 23 de Março de 1783, em Viena.

[I andamento (Allegro con spirito), pelos English Baroque Soloists, em instrumentos de época, com direcção de John Eliot Gardiner (Philips)]

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5. Sinfonia n.º 36 K.425 Linz

Ano: 1783

Em 1783, Mozart visitou Salzburg com a esposa, Constanze, e no caminho de regresso passou por Linz, onde se hospedou na palácio do Conde Thun. Para agradecer a hospitalidade, ofereceu-se para dar um concerto e como não trazia consigo a partitura de uma sinfonia, dispôs-se a compor uma – em apenas quatro dias. Como é usual em Mozart, a qualidade da obra não se ressente da velocidade vertiginosa com que foi composta.

[III andamento (Menuetto), pelos English Baroque Soloists, em instrumentos de época, com direcção de John Eliot Gardiner (Philips)]

6. Sinfonia n.º 38 K.504 Praga

Ano: 1787

Que ninguém estranhe por a Sinfonia n.º 37 K.444 não figurar em programas de concertos e registos discográficos: apurou-se que a obra é afinal de Michael Haydn, irmão mais novo de Joseph e também ele com cargo na corte de Salzburg.

A sinfonia seguinte de Mozart, após a n.º36, é, portanto, a n.º 38, estreada em Praga a 19 de Janeiro de 1787, quando da primeira visita do compositor à cidade, motivada pelo acolhimento entusiástico que As Bodas de Fígaro ali tiveram e que levou os melómanos locais a custear a deslocação e estadia do compositor. Há quem sugira que o papel de relevo dado nesta sinfonia aos instrumentos de sopro teria sido instigado pela (justa) fama de que gozavam os músicos de sopro boémios.

[III andamento (Finale: Presto), pela Orquestra Barroca de Freiburg, em instrumentos de época, com direcção de René Jacobs (Harmonia Mundi)]
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7. Sinfonia n.º 39 K.543

Ano: 1788

Apesar das suas qualidades, nenhuma das sinfonias de Mozart é comparável às derradeiras três – n.º 39-41 – o que deixa muita gente a magicar naquilo de que Mozart seria capaz neste domínio se não tivesse falecido tão jovem.

Foram terminadas, em fulgurante sucessão, no Verão de 1788 (a n.º 39 em Junho, a n.º40 em Julho e a n.º41 em Agosto) e não se conhecem as circunstâncias a que se destinaram, não sendo sequer certo que tenham sido tocadas em vida do compositor.

O maestro e musicólogo Nikolaus Harnoncourt defende que as três terão sido concebidas como se fossem uma só obra e investigações recentes sugerem que terão sido compostas para uma série de três concertos num casino recentemente aberto em Viena. Porém, apenas o primeiro se terá realizado, talvez devido a uma execução desastrosa da orquestra, que terá mesmo levado Mozart a abandonar a sala a meio.

[I andamento (Adagio – Allegro), pelo Concentus Musicus Wien, em instrumentos de época, com direcção de Nikolaus Harnoncourt (Sony Classical)]

8. Sinfonia n.º 40 K.550

Ano: 1788

[II andamento (Andante), pelo Concentus Musicus Wien, em instrumentos de época, com direcção de Nikolaus Harnoncourt (Sony Classical)]
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9. Sinfonia n.º 41 K.551 Júpiter

Ano: 1788

[I andamento (Allegro vivace), pela Orquestra Barroca de Freiburg, em instrumentos de época, com direcção de René Jacobs (Harmonia Mundi)]

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