Oito obras-primas para um Natal barroco

O CCB e a Fundação Gulbenkian oferecem-nos, em três dias consecutivos, duas oratórias barrocas cujo assunto central é a vinda do Messias. São apenas uma ínfima fracção da colossal produção de temática natalícia desse período
Adoração dos Pastores
©Bartolomé Esteban Murillo Adoração dos Pastores
Por José Carlos Fernandes |
Publicidade

Esplendor barroco no Natal lisboeta

A oratória Messiah estará a cargo dos solistas Eduarda Melo (soprano), Carolina Figueiredo (mezzo-soprano), Marco Alves dos Santos (tenor), André Henriques (baixo), do Coro Sinfónico Lisboa Cantat e da Orquestra Metropolitana de Lisboa, com direcção de Leonardo García Alarcón, que tem vindo a afirmar-se com um dos expoentes na interpretação de música sacra barroca.

Da Oratória de Natal ouvir-se-ão as partes I, II, V e VI, por um elenco com algumas das mais renomadas vozes da música antiga: Maria Cristina Kiehr (soprano), Marianne Beate Kielland (mezzo-soprano), Tilman Lichdi (tenor), Peter Harvey (barítono). O Coro & Orquestra Gulbenkian terão direcção de Michel Corboz, maestro com vasta experiência na música coral de todas as épocas.

Oratória de Natal na Fundação Gulbenkian, sexta-feira 15, 20.00, e sábado 16, 19.00, 20-40€; Messiah no CCB, domingo 17, 17.00, 5-20€.

Recomendado: Natal em Lisboa

Oito obras-primas para um Natal barroco

Camera

Salvator Noster, de Gabrieli

O veneziano Giovanni Gabrieli (c.1554-1612) foi, com o seu tio Andrea Gabrieli e com Claudio Monteverdi, um dos obreiros da transição da Renascença para o Barroco. Giovanni Gabrieli assumiu em 1584 o posto de organista principal na basílica de S. Marcos, que acumularia mais tarde com a de organista na Scuola Grande di San Rocco, também em Veneza. As suas monumentais composições mesclam vozes e instrumentos numa densa trama polifónica que têm frequentemente 10, 12 e 16 vozes e influenciaram decisivamente não só os seus conterrâneos como os compositores da Europa do Norte, nomeadamente Michael Praetorius, Hans Leo Hassler e Heinrich Schütz (os dois últimos foram seus alunos em Veneza).

Salvator Noster é uma peça a 15 vozes que celebra o Natal: “O nosso Salvador/ nasceu neste dia dilecto/ Rejubilemos todos/ Que o santo exulte/ Porque o seu triunfo está próximo/ Que exulte o pecador/ Porque é convocado para o perdão/ E que exulte o pagão/ Porque é convocado para a vida”.

[Pelo Gabrieli Consort & Players, com direcção de Paul McCreesh, num registo de1998; incluídio no CD A Venetian Christmas (Archiv)]
Camera

Puer Natus in Bethlehem, de Praetorius

Ano: 1619

Michael Praetorius (1571-1621) nasceu na Turíngia, perto de Eisenach, não muito longe, portanto, do local onde pouco mais de um século depois, nasceria Johann Sebastian Bach. Foi dos compositores mais prolíficos de todos os tempos e entre os vários cargos que desempenhou (por vezes em acumulação) esteve o de Kapellmeister da corte de Dresden (a partir de 1613), onde colaborou com outro nome cimeiro da música germânica, Heinrich Schütz. Entre as numerosas colecções de música que publicou estão os nove volumes de Musae Sioniae, publicadas entre 1605 e 1610 e contendo 1200 corais arranjados para duplo coro de 8 a 12 vozes, e a Polyhymnia Caduceatrix et Panegirica (1619), uma colecção de 40 obras que inclui este Puer Natus in Bethlehem. A colecção Polyhymnia tem por subtítulo “Concerto solene de paz e júbilo”, mas quando foi publicada a Alemanha acabara de mergulhar na devastadora Guerra dos Trinta Anos.

[Por La Capella Ducale e Musica Fiata, com direcção de Roland Wilson (Sony): “Nasceu em Belém uma criança/ Que enche Jerusalém de júbilo/ Aleluia/ Cantai, regozijai-vos, louvai o Senhor/ O Rei de Glória”]
Publicidade
Camera

História de Natal, de Schütz

Ano: 1660

Heinrich Schütz (1585-1672), o mais importante compositor alemão das gerações anteriores a Johann Sebastian Bach, entrou ao serviço da corte de Dresden em 1615, aos 30 anos, e a ela ficou ligado até à morte, em 1672, aos 87 anos. A sua História do Jubiloso e Abençoado Nascimento de Jesus Cristo , Filho de Deus e Maria (Historia der Freuden- und Gnadenreichen Geburt Gottes und Marien Sohnes Jesu Christi), que costuma ser conhecida, mais sucintamente, como História de Natal (Weihnachthistorie), estreou no Natal de 1660, na corte de Dresden. Foi composta com a provecta idade (para os padrões do século XVII) de 75 anos, mas é uma obra de impressionante frescura e vitalidade, que recorre a um caleidoscópio de combinações de vozes e instrumentos. Schütz designou a obra como “Historia”, termo que já empregara 37 anos antes, na História da Ressurreição (1623), e pode ver-se nela a precursora das oratórias do barroco maduro na Alemanha.

[“Ziehet hin und Forschet Fleissig”, ária de Herodes, parte VII da Weihnachthistorie, por Felix Schwandke (baixo) e Orquestra Barroca de Dresden, com direcção de Hans-Christoph Rademann (Carus): “Ide e buscai afanosamente a criança e quando a encontrardes, dai-me notícia, de forma que também eu possa ir e prestar-lhe adoração”]
Camera

Messe de Minuit, de Charpentier

Ano: c.1690-93

Marc-Antoine Charpentier (1643-1704) tem uma copiosa e inspirada produção de música sacra, entre a qual se contam uma dúzia de missas. A Messe de Minuit H.9 segue a tradição do barroco francês de fazer as Missas de Natal citarem melodias de canções natalícias populares (ou “noëls”) – o Kyrie, por exemplo, recorre à canção “Joseph Est Bien Marié”.

[Kyrie, pelo Choeur des Musiciens du Louvre & Les Musiciens du Louvre, com direcção de Marc Minkowski (Archiv)]
Publicidade
Camera

Das Neugeborne Kindelein BuxWV13, de Buxtehude

Ano: desconhecido

O germano-dinamarquês Dietrich Buxtehude (c.1637-1707) foi um dos mais importantes compositores do período entre Schütz e Bach e exerceu forte influência sobre o segundo, que, em 1705 (tinha então 20 anos), se escapuliu do seu posto como organista em Arnstadt e fez 400 quilómetros a pé para ir até Lübeck ouvir o velho mestre, que era um superlativo organista e compositor de música sacra. Buxtehude assumira o cargo de organista da Marienkirche de Lübeck em 1668, sucedendo a Franz Tunder e casando-se com a filha deste, e aí ficaria até ao fim da vida. Espíritos maliciosos sugerem que Handel e Mattheson (e também Bach) terão considerado suceder ao já idoso Buxtehude, mas que o casamento com a filha mais velha deste faria parte das condições contratuais e que a rapariga deveria tanto à beleza que afugentou os candidatos.

[Por Emma Kirkby (soprano), Michael Chance (contratenor), Charles Daniels (tenor), Peter Harvey (baixo) e The Purcell Quartet (Chandos): “Uma criança recém-nascida/ O querido Jesuszinho/ Traz o novo ano/ Aos eleitos da Cristandade”]
Camera

Oratória de Natal, de Bach

Ano: 1734-35

A Oratória de Natal (Weinachtsoratorium) BWV 248 foi estreada em 1734-5, em Leipzig, repartida entre as igrejas de S. Tomé (Thomaskirche) e S. Nicolau (Nikolaikirche), com cada uma das suas seis partes a ser apresentada ao longo de seis dias da quadra natalícia: 25, 26 e 27 de Dezembro e 1, 2 e 6 de Janeiro, correspondendo respectivamente a 1) nascimento de Jesus, 2) anunciação aos pastores, 3) adoração dos pastores, 4) circuncisão de Jesus, 5) chegada dos Reis Magos e 6) adoração dos Reis Magos.

A música é brilhante e jubilante, perfeitamente adequada à quadra e confeccionada com a habitual combinação de complexidade e elegância típica de Bach. Do que o público de Leipzig não terá suspeitado é que pouca da música que ouvia era original. Na verdade, as notas que serviam para evocar a anunciação aos pastores e a adoração dos Magos, tinham, em tempos, servido para ilustrar a indecisão de Hércules na encruzilhada entre a virtude e os prazeres, numa cantata profana (BWV213, de 1733) destinada a assinalar o 11º aniversário do Príncipe Frederico Cristiano da Saxónia, ou tinham animado o aniversário de Maria Josefa, Eleitora da Saxónia e rainha da Polónia (BWV 214, de 1733) e o aniversário da coroação de Frederico Augusto II, Eleitor da Saxónia, como Rei da Polónia (BWV215, de 1734). Mas a arte superior de Bach converteu o material destas três cantatas profanas e de uma cantata sacra entretanto perdida e os fragmentos provenientes de outras obras suas num todo coerente e homogéneo.

[Coro de abertura da Parte I, “Jauchzet, Frohlocket, Auf, Preise die Tage”, pelo Thomannerchor de Leipzig. É verdade que a orquestra usa instrumentos modernos, mas o coro não só é um coro de rapazes, como no tempo de Bach, como é o descendente do coro de rapazes que Bach adestrou, ensaiou e dirigiu nos seus anos em Leipzig. “Regozijai-vos! Exultai! Louvai os dias! [...] Afastai o medo, bani os lamentos! Cantai com alegria e júbilo!”]
Publicidade
Camera

“Unto Us a Child Is Born”, de Handel

Ano: 1742

Por não possuir personagens nem um enredo propriamente dito, a oratória Messiah é diferente das restantes oratórias de Handel e das oratórias barrocas em geral e tem afinidades com a Oratória de Natal de Bach. Messiah é um comentário sobre o nascimento, paixão, ressurreição e ascensão de Cristo, através das profecias sobre a sua vinda e da reflexão sobre as consequências dessa vinda (ou seja, a anulação da condenação associada ao pecado original). Noutras mãos podia ter resultado num maçudo tratado de teologia, nas mãos de Handel é uma obra arrebatadora.

A Natividade é o assunto das cenas 3 e 4 da Parte I e “Unto Us a Child Is Born” é o coro que conclui a cena 3 e que anuncia o nascimento do Messias, através das palavras do profeta Isaías: “Para nós nasceu uma Criança, um Filho nos foi ofertado, e o governo do mundo recairá sobre os seus ombros; e o seu nome será Magnífico Conselheiro, Deus Todo-Poderoso, pai Eterno, Príncipe da Paz”.

[Pelo Coro do King’s College (Cambridge) e The Brandenburg Consort, com direcção de Stephen Cleobury]
Camera

Oratória de Natal, de Telemann

Ano: 1759

A produção musical de Georg Philipp Telemann (1681-1767) desafia a capacidade inventiva e a tenacidade – só na música sacra há a contabilizar 1500 cantatas, uma quarentena de Paixões e uma dezena de oratórias, entre as quais está Die Hirten Bei der Krippe zu Bethlehem (Os pastores junto à manjedoura de Belém) TWV 1: 797, mais conhecida como Oratória de Natal, estreada em 1759 em Hamburgo, cidade de que foi director musical durante 46 anos. Claro que não se trata da única peça de Telemann para esta quadra, pois muitas das suas cantatas também são de temática natalícia.

[Coral “Wir Christenleut”, accompagnato “Ach Senht! das Kind Erwacht” e coro “Ehre Sei Gott in der Hohe”, por Mechthild Georg (mezzosoprano), Klaus Mertens (baixo), Kammerchor Michaelstein e Telemann-Kammerorcheser, com direcção de Ludger Rémy (CPO)]

Natal clássico

a adoração de magi de  rogier van der weyden
©DR
Música, Clássica e ópera

10 discos para celebrar o Natal sem Jingle Bells

Sim, a música natalícia que costuma assaltar-nos os ouvidos tende a ser adocicada, simplória e monótona, o que é tanto mais incompreensível por não faltarem excelentes alternativas. Seguem-se 10 sugestões, colhidas ao longo de sete séculos.

Publicidade
Publicidade
Esta página foi migrada de forma automatizada para o nosso novo visual. Informe-nos caso algo aparente estar errado através do endereço feedback@timeout.com