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Arcade Fire
©DRArcade Fire

Oito videoclips fora-de-série

O videoclip é uma “obra de arte total”, articulando música e imagens de forma criativa e desafiadora, como atestam estas obras-primas.

Escrito por
José Carlos Fernandes
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O videoclip pop sofreu uma tremenda evolução desde que Bob Dylan, os Beatles e os Rolling Stones deram os seus primeiros passos na modalidade, em meados da década de 1960 e a maior parte dessas experiências pioneiras parecem-nos, à distância, ingénuas, trapalhonas e amadoras. 38 anos após o início das emissões da MTV, o videoclip deixou de ser um mero dispositivo para publicitar canções e afirmou-se, no seu melhor, como “obra de arte total”, no sentido wagneriano do termo. Como atestam, aliás, estas obras-primas feitas para canções de Björk, Tom Waits, Arcade Fire, Bon Iver e Massive Attack.

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Oito videoclips fora-de-série

“All Is Full of Love”, de Björk

“All Is Full of Love”, de Björk

Ano: 1999
Realizador: Chris Cunningham
Álbum: Homogenic

O amor pode surgir quando menos se espera e de onde menos se espera, avisa-nos esta canção do terceiro álbum de Björk, surgido em 1997. É também uma canção sobre o renascimento da vida na Primavera, algo que está profundamente entranhado na mitologia e no imaginário dos islandeses e de outros povos nórdicos (e que aqui, neste cantinho soalheiro do mundo, poderá não ser devidamente valorizado).

O videoclip concebido dois anos depois pelo artista vídeo Chris Cunningham – que antes já realizara videoclips para os Aphex Twin – leva o conceito da omnipresença do amor mais longe do que estaríamos preparados para conceber, dando-nos a ver o amor robótico. E com tamanha sensibilidade e sofisticação o faz que não nos parece menos admirável do que o amor humano – foi com justiça que o videoclip foi premiado pelos Brit Awards 2000.

A versão de “All Is Full of Love” utilizada no videoclip é a primeira versão gravada por Björk, não a que surge no alinhamento de Homogenic, que é uma remix realizada por Howie B. e que suprime o groove trip hop. A recuperação da versão original para o videoclip sugere que Björk se terá arrependido de tal decisão – e com efeito, a versão original é bem mais encantatória.

“Downtown Train”, de Tom Waits
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“Downtown Train”, de Tom Waits

Ano: 1985
Realizador: Jean-Baptiste Mondino
Álbum: Rain Dogs

O oitavo álbum de estúdio de Tom Waits, Rain Dogs (1985), confirmou que Swordfish Trombones (1983) não tinha sido um acidente de percurso e que o músico estava pouco interessado em regressar à mescla de jazz ébrio e de música de cabaret decadente da sua primeira década de carreira e que pretendia continuar a desbravar novos caminhos. Na vasta latitude de registos de Rain Dogs, “Downtown Train” e “Hang Down Your Head” podem ser catalogadas como versões estropiadas das baladas épicas de Bruce Springsteen. “Downtown Train” tornou-se num dos maiores sucessos de Waits e teve o infortúnio de ser alvo de numerosas versões por estrelas pop (como Rod Stewart), que, não compreendendo a sua real natureza, rasparam a ferrugem, substituíram os rolamentos gripados, lubrificaram as juntas e a puseram a soar como uma... canção épica de Bruce Springsteen, matéria de que o mundo já estava bem servido.

Para o videoclip de “Downtown Train” foi convocado o realizador Jean-Baptiste Mondino, conhecido pelo trabalho com Bryan Ferry, Madonna, David Bowie ou Boy George e que deixou por momentos o universo do glamour e do glitter para mergulhar nas ruas lúgubres, nas escadarias sombrias e nos quartos esconsos do film noir dos anos 50. O velhote que, no princípio do videoclip, se alarma com a perspectiva de a noite de lua-cheia significar que “ele irá cantar toda a noite”, é Jake LaMotta, lendário pugilista dos anos 40-50, que inspirou o Raging Bull de Martin Scorcese.

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“Nonsense Speaker”, dos Sasanomaly
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“Nonsense Speaker”, dos Sasanomaly

Ano: 2014
Realizador & ilustrador: Atsushi Makino
Álbum: Shinonimu to Hipokurito [Synonym and Hypocrite]

Sasanomaly, que também exerce actividade como produtor, sob o nome de Nekobolo, pratica uma pop electrónica melodiosa, rendilhada e intimista, em que assume responsabilidade por todos os instrumentos, produção e engenharia de som. Os videoclips ficam a cargo do ilustrador e realizador Atsushi Makino, que recorre a uma original mescla de técnicas de animação, que atesta uma sensibilidade requintada e uma meticulosa atenção aos mais ínfimos detalhes, que justifica que alguns dos videoclips para canções de Sasanomaly tenham sido premiados em festivais internacionais de cinema de animação.

“Tawagoto Supika” é a canção de abertura do disco de estreia de Sasanomaly, que é fechado por uma versão cantada em inglês da mesma canção – uma excepção numa produção integralmente em japonês. A atmosfera distendida da música, o grafismo elegante e a paleta de cores pastel poderá dar outra ideia, mas quem preste atenção Às letras em inglês que surgem nalgumas caixas de fósforos perceberá que “Tawagoto Supika” é uma dolorosa e amarga breakup song.

“Afterlife”, dos Arcade Fire
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“Afterlife”, dos Arcade Fire

Ano: 2013
Realizador: Emily Kay Bock
Álbum: Reflektor

Ao quarto álbum, Reflektor (2013), os canadianos Arcade Fire fizeram uma (não muito bem sucedida) inflexão para um som mais dançável e electrónico, mas, apesar do groove dançável, a canção “Afterlife” ainda mantém vínculos com a anterior sonoridade e denota o invulgar talento da banda para criar hinos arrebatadores.

Poderá perguntar-se se a “afterlife” a que a canção alude pode ser interpretada no sentido usual, da vida além-túmulo, ou se se refere à vida após o término de um grande amor – “Quando o amor acaba/ Para onde vai?”, pergunta o refrão. Nada impede que a resposta possa ser múltipla, até porque Reflektor tem na capa a escultura Orfeu e Eurídice, de Rodin, e duas das suas canções – “Awful Sound (Oh Eurydice)” e “It’s Never Over (Hey Orpheus)” – aludem a este famoso par da mitologia clássica. A sua trágica lenda pode ser assim resumida: Orfeu e Eurídice estão profundamente apaixonados, mas no dia do casamento uma serpente morde Eurídice e ela sucumbe; Orfeu desesperado, desce ao Inferno para a resgatar e consegue, com o seu canto, convencer os deuses do submundo a libertar a sua amada; estes impõe, porém, uma condição, a de que Orfeu fará o caminho de regresso à superfície à frente de Eurídice e que, em caso algum, poderá voltar os olhos para a sua amada enquanto não sair dos domínios infernais; Eurídice, que desconhece esta imposição, não percebe a razão de Orfeu não a encarar e tanto insiste que Orfeu volta a cabeça – e Eurídice tomba novamente nas profundezas, desta vez sem remissão.

O videoclip da realizadora canadiana Emily Kay Bock (que tem trabalhado com Grizzly Bear e Lorde) dá-nos a ver um prosaico Orfeu do nosso tempo, um imigrante mexicano nos EUA e que não parece ser um “bad hombre”, apenas um homem atormentado pela recordação da falecida esposa.

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“Holocene”, de Bon Iver
D.L. Anderson

“Holocene”, de Bon Iver

Ano: 2011
Realizador: Nabil Elderkin
Álbum: Bon Iver, Bon Iver

Após a bem acolhida estreia, com a folk intimista e delicada de For Emma, Forever Ago (2007), Justin Vernon (que se apresenta sob o nome artístico de Bon Iver) pretendeu expandir a sua sonoridade, recorrendo a vários músicos convidados e a incursões noutras áreas musicais. Ironicamente, no opus 2, Bon Iver, Bon Iver (2011), a canção mais conseguida é a que está mais próxima da linha do álbum de estreia: “Holocene”. A sua letra é uma meditação sobre o lugar que ocupamos no mundo – segundo Vernon, é sobre “compreendermos que cada um de nós tem algum valor, que, ao mesmo tempo, somos especiais e não somos”.

É um conceito magnificamente ilustrado e ampliado pelo videoclip de “Holocene” filmado nas majestosas, glaciais e austeras paisagens da Islândia, pelas quais deambula uma ínfima (mas insubstituível) centelha de humanidade.

“Come Near Me”, dos Massive Attack & Ghostpoet

“Come Near Me”, dos Massive Attack & Ghostpoet

Ano: 2016
Realizador: Ed Morris
Disco: lado B do single digital “The Spoils”

Um videoclip inquietante e enigmático, assente na expressividade dos olhos da actriz Arta Dobroshi e num conceito sumamente simples, levado até ao limite (ou melhor, para lá do limite).

Quem tenha apego aos discos físicos, lamentará saber que os Massive Attack, que não editam nenhum álbum desde Heligoland (2010), apenas disponibilizam o single “The Spoils” (cantada por Hope Sandoval) + “Come Near Me” (cantada por Ghostpoet) sob a forma de download, como aliás tem acontecido com as suas restante (e esparsas) edições surgidas após Heligoland.

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“Love Lost”, dos The Temper Trap

“Love Lost”, dos The Temper Trap

Ano: 2010
Realizador: Dougal Wilson
Álbum: Conditions

Os The Temper Trap nasceram em Melbourne, na soalheira Austrália, em 2005, mas como em 2008 fixaram residência em Londres, não é de estranhar que este videoclip para o 3.º single do seu álbum de estreia, Conditions (2009), tenha entre os seus protagonistas o deprimente clima britânico. Os The Temper Trap praticam uma indie pop polida, com propensões épicas e não muito original (os U2 serão talvez a referência mais óbvia), mas “Love Lost” não só é um dos melhores momentos da banda como teve a fortuna de ser servida por um videoclip de concepção original e coreografia meticulosa (ainda que pouco asseada).

“Crow”, de Forest Swords
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“Crow”, de Forest Swords

Ano: 2018
Realizador: Liam Young
Álbum: compilação DJ-Kicks

Blade Runner (1982), de Ridley Scott, tinha por cenário uma Los Angeles de 2019 que se diria uma mescla de Hong Kong futurista, da Metropolis de Fritz Lang e de uma antiga cidade industrial inglesa em franca decadência. A Los Angeles de 2019, sabemo-lo hoje, não tem semelhanças com a que foi imaginada por Scott e pelo designer de produção Lawrence Paull, e é provável que a Los Angeles de daqui a 30 anos que é mostrada na sequela Blade Runner 2049 (2017) tampouco seja confirmada pela marcha do tempo. Mas se alguém quisesse criar um cenário para uma franchise de Blade Runner a ter lugar numa Atenas distópica poderia recorrer às imagens concebidas para “Crow”: nada de gadgets futuristas, néons ou arquitectura monumental, apenas a replicação monótona de um urbanismo abrutalhado, pardacento e anónimo, vagamente stalinista, onde não se detecta, ao longo de 3’36, o mais pequeno vestígio de vida humana (estarão todos em frente aos écrans, a viver uma vida virtual mediada por avatares? onde estenderão a roupa?).

Matthew Barnes, produtor e músico britânico que usa Forest Swords como nome artístico, tem feito equipa em projectos audiovisuais com o realizador Liam Young, a que se junta, neste videoclip, na qualidade de coordenador de efeitos especiais, Alexey Marfin, um artista cuja biografia parece encerrar a essência da paisagem urbana de “Crow”: nasceu em Leningrado e vive entre Hong Kong e Los Angeles.

Forest Swords lançou dois álbuns de música electrónica soturna e inquietante, que combina elementos industriais e étnicos – Engravings (2013) e Compassion (2017) –, mas “Crow” não faz parte de nenhum deles e apenas está disponível no álbum colectivo DJ-Kicks.

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