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Os fados da minha vida: o adeus de Carlos do Carmo aos palcos

Seis cantores associam-se à despedida de Carlos do Carmo dos grandes palcos. Cada um escolhe três fados que vão ficar para sempre.

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carlos do carmo
©DR Carlos do Carmo

O fado vai continuar. Carlos do Carmo diz adeus aos grandes palcos este sábado, no Coliseu dos Recreios, mas não é o fim de mais de meio século de carreira. O fadista, que em Dezembro completa 80 anos, entra numa nova fase – menos comprometida com a agenda e o bulício, mais diletante e descontraída. A próxima novidade chega em disco, que se espera para o início de 2020. Depois, talvez singles. Carlos do Carmo admite voltar a actuar ao vivo, mas só em ocasiões especiais. Para já, é hora de celebrar, agradecer (o título do concerto é “Obrigado!”) e ser ovacionado, de pé e várias vezes, como em Braga e no Porto. A sala está esgotada desde Fevereiro. O alinhamento, cheio de clássicos. Uma escolha difícil para um repertório tão vasto. Foi, aliás, o exercício que pedimos a cantores de estilos e gerações distintas: escolher três temas de Carlos do Carmo. As escolhas nem sempre são as mais óbvias. Os comentários são dos próprios.

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O melhor de Carlos do Carmo segundo...

1

José Mário Branco

“Vim para o fado e fiquei”
10 Fados Vividos, 1979
Assim que o Carlos começa a cantar, há uma “autoridade”, uma presença total, uma verdade total. O ouvinte é, de imediato, transportado para um nível superior.

“Não és tu”
Mais do Que Amor É Amar, 1986
Uma interpretação do Carlos é um casamento perfeito entre a linguagem poética e a linguagem musical. O swing, a justeza dos estilados. Como acontece com outros génios, parece que é “fácil” e é “normal”, mas foram eles que inventaram.

“Aprendamos o rito”
Mais do Que Amor É Amar, 1986
O Carlos canta o fado como quem conta uma história. A palavra chega-nos perfeita, com todo o seu sentido. Ouvi-lo, é como ver um filme, vê-se tudo, o interpretado torna-se mais real do que a realidade.

2

Camané

“Duas Lágrimas de Orvalho”
Duas Lágrimas de Orvalho, 1972
Primeira vez que ouvi o Carlos a cantar e de uma forma completamente singular e nova de cantar. Uma descoberta.

“Um Homem na Cidade”
Um Homem na Cidade, 1977
Elevar o fado para outros caminhos com muito bom gosto e uma maneira única de cantar.

“Canoas do Tejo”
Canoas do Tejo, 1972
Um dos maiores clássicos do fado. Uma inovação do fado tradicional, inovando, e é Lisboa.

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3

Ana Moura

“Duas Lágrimas de Orvalho”
Duas Lágrimas de Orvalho, 1972
É dos meus poemas favoritos, de uma profundidade inebriante, que fala do que sentimos, mas mantendo sempre a força da esperança. É, provavelmente, porque é difícil escolher, o meu tema favorito do Carlos.

“Estrela da Tarde”
Uma Canção Para a Europa, 1976
Para além das imagens belíssimas deste poema, destaco, essencialmente, a força da interpretação em cada palavra deste fado, fazendo com que ganhem uma dimensão imensurável.

“Por Morrer Uma Andorinha”
Por Morrer Uma Andorinha, 1973
É um tema que sempre me acompanhou e que é especial para mim, porque em diferentes momentos da minha vida me fez sentir identificada e reconfortada.

4

Márcia

“Júlia Florista”
Por Morrer Uma Andorinha, 1973
Um retrato bonito das fadistas espontâneas, que crescem fadistas por causa da vida nas ruas de Lisboa.

“Gracias a La Vida”
Carlos do Carmo/ Bernardo Sassetti, 2010
Uma canção lindíssima que celebra a vida e que, aqui, interpretada por Carlos do Carmo ao lado de Bernardo Sassetti, se torna quase transcendente.

“Fado Tropical”
À Noite, 2008
É uma interpretação deliciosa deste enorme tema que, cantado em português [de Portugal], assume uma ironia ainda maior.

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5

Stereossauro

“O Cacilheiro”
Um Homem na Cidade, 1977
Esta escolho porque fiz uma versão com o Tigerman e com o Ricardo Gordo. Foi uma experiência incrível estar com o Carlos do Carmo em estúdio, que é de uma simpatia e classe muito acima da média, e um contador de histórias. Foi mesmo altamente.

“Lisboa Menina e Moça”/ “Os Putos”
Uma Canção Para a Europa, 1976/ Os Putos, 1978
Escritas pelo Paulo de Carvalho e o Ary dos Santos. A Lisboa Menina e Moça tem o Fernando Tordo também. Talvez sejam as mais cliché, mas por serem muito populares são as que tenho mais presentes.

6

Joana Espadinha

“Canoas do Tejo”
Canoas do Tejo, 1972
A primeira vez que ouvi o Carlos do Carmo foi a cantar Canoas do Tejona televisão. Impressionou-me de imediato o timbre, a simplicidade e a intensidade da interpretação, o cuidado com cada palavra, e a facilidade com que se criavam imagens na cabeça do ouvinte. Um contador de histórias inigualável.

“Um Homem na Cidade”
Um Homem na Cidade, 1977
Oiço na voz a familiaridade com o compositor, com a cidade, com a vida, amarga e doce, e a maturidade que sempre lhe conhecemos. Também o respeito pelo silêncio, tão importante na música, é um dos seus traços interpretativos mais distintivos.

“Retrato”
Carlos do Carmo/ Bernardo Sassetti, 2010
A canção abre o disco, numa aura misteriosa construída por Sassetti, com a genialidade e sensibilidade que só ele tinha. O piano responde à melodia num diálogo absolutamente perfeito, como é um diálogo entre dois bons amigos. A voz maravilhosa de Carlos do Carmo, a trazer-nos memórias que também já são nossas.

Crítica: Carlos do Carmo

Oitenta (Universal)

★★★★★

Gaba-se de ter sido o primeiro artista português a editar em CD e em breve vai lançar o seu último. Carlos do Carmo programou ao pormenor a despedida de carreira e o cerimonial inclui uma série final de concertos e um derradeiro álbum a editar em Fevereiro, 35 anos depois de Um Homem no País, título pioneiro em compact disc. Inclui ainda esta colectânea homónima da sua idade, que reúne 80 canções escolhidas de um acervo de quase 300, espalhadas por mais de duas dezenas de álbuns e uma quadrilha de singles e EPs, e as arruma em quatro discos de vinte cada: As canções, Os fados, Os autores e Os compositores.

É uma selecção possível que, não sendo sua, faz justiça à extensa, consistente e vanguardista carreira de um dos mais notáveis intérpretes da música popular portuguesa. Não dispensa a discografia construída ao longo de meio século (mesmo que dez das 12 canções do superlativo Um Homem na Cidade estejam aqui), mas é um retrato em grande angular. Entre textos e composições, contam-se quase tantas assinaturas quantas canções, num currículo de poetas e compositores que apenas se compara à discografia de Amália e que sublinha a imensidão de estrada que pavimentou para o fado, ampliando horizontes estéticos e anulando fronteiras ideológicas. O resto é uma voz perfeita que, como bem diria José Mário Branco, pede meças a Sinatra e ecoa em Camané. A voz que nunca falhou um tempo e que entendeu que este era o tempo de sair de cena. Palmas. João Pedro Oliveira

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