Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Seis obras inspiradas pela II Guerra Mundial
Shostakovich, Leningrado, 1941
©DR Shostakovich como bombeiro, Leningrado, 1941

Seis obras inspiradas pela II Guerra Mundial

A música deve ser sempre bela e agradável ou deve reflectir a angústia e o sofrimento dos períodos de crise?

Por José Carlos Fernandes
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Durante séculos, a música manteve-se numa esfera própria, dando poucos sinais de reagir aos tumultos do mundo: não se compuseram obras sobre a Guerra dos 100 Anos, a Peste Negra ou a Grande Fome de 1315-17, nem sobre a interminável sucessão de guerras, revoltas e epidemias, fomes que atormentaram a Europa e o mundo. Só a guerra era, por vezes, aludida, mas, ainda assim, de forma abstracta, distanciada e expurgada de brutalidade e sangue – e era frequente que os enfrentamentos bélicos servissem apenas de metáfora aos combates amorosos. No século XIX, alguns triunfos militares suscitaram a composição de obras que as comemoravam, como a Vitória de Wellington, de Beethoven, a pretexto da vitória do Duque de Wellington sobre os exércitos napoleónicos em Vitoria, no País Basco, ou a Abertura 1812, de Tchaikovsky, a pretexto da vitória russa sobre os exércitos napoleónicos (mais uma vez!).

Porém, a componente celebratória e patriótica costumava predominar nestas obras e só após a II Guerra Mundial surgiram obras que ousam retratar a guerra nos seus aspectos mais brutais e angustiantes. Enquanto não surge a primeira ópera sobre a pandemia de covid-19, eis seis obras inspiradas na II Guerra Mundial – uma delas com experiência directa.

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Seis obras inspiradas pela II Guerra Mundial

Sinfonia n.º 7 Leningrado, de Shostakovich

Ano: 1942

A II Guerra Mundial foi fértil em episódios cruentos e brutais, mas o cerco de Leninegrado conseguiu, ainda assim, destacar-se. Hitler levava a toponímia muito a peito e se Moscovo era um objectivo primordial por ser a capital da URSS e um nó de comunicações estratégico, as cidades baptizadas com os nomes dos dois vultos maiores do bolchevismo – Lenin e Stalin – representavam para o Führer alvos de prioridade comparável. O cerco de Leninegrado durou 872 dias e terá causado cerca de um milhão de mortos entre os seus defensores e habitantes. E os alemães não podem sequer alegar que os civis foram “danos colaterais”, já que o plano nazi visava expressamente aniquilar a população pelos bombardeamentos, pela fome e pela doença.

Entre os civis que ficaram encurralados na cidade contava-se Dmitri Shostakovich, cuja falta de vista o levara a ser rejeitado quando se oferecera como voluntário para o Exército Vermelho, mas que desempenhou galhardamente funções de bombeiro durante o cerco, ao mesmo tempo que iniciava a composição da Sinfonia n.º 7. Na verdade a sua experiência na cidade foi breve, já que o cerco foi fechado a 8 de Setembro e a 1 de Outubro Shostakovich foi evacuado para Moscovo e, depois, para Kuibyshev, onde completou a sinfonia. Foi nesta última cidade que a obra estreou, a 5 de Março de 1942.

A estreia em Leninegrado, onde as condições de vida se tinham tornado extremamente penosas, teria lugar a 9 de Agosto de 1942, por uma orquestra ad hoc reunida em torno dos poucos e cadavéricos sobreviventes da Orquestra da Rádio de Leninegrado, e o concerto foi difundido por altifalantes espalhados pela cidade, em jeito de proclamação de coragem e determinação em resistir. Mas antes já a sinfonia se difundira nos países aliados, com estreia em Londres a 19 de Junho e em Nova Iorque a 19 de Julho, com radiodifusão em directo à escala nacional. Shostakovich tornara-se num símbolo da resistência da cultura à barbárie nazi e a Time concedeu ao “bombeiro Shostakovich” a capa do seu n.º de 20 de Julho de 1942.

[I andamento (Allegretto), pela Orquestra Sinfónica do Ministério da Cultura da URSS, com direcção de Gennady Rozhdestvensky]

Sonata para piano n.º 7 op.83, de Prokofiev

Ano: 1942

Sergei Prokofiev (1891-1953) compôs a sua quinta sonata para piano em 1923 e depois esteve 16 anos sem abordar este formato. E quando regressou foi para criar três peças que são as mais tumultuosas, rugosas e dissonantes da sua obra e que ficaram conhecidas como “Sonatas da Guerra” – a n.º6 op.82, a n.º 7 op. 83 e a n.º 8 op.84. Estas sonatas têm sido vistas como uma reacção do compositor às convulsões e horrores da II Guerra Mundial, mas começaram a ser compostas em 1940, ainda antes da invasão da URSS pela Alemanha, e é possível que também espelhem o clima opressivo do regime estalinista, que em Junho de 1939 prendera o encenador Vsevolod Meherhold, seu amigo e colaborador, com o qual se preparava para iniciar os ensaios da sua ópera Semyon Kotko, e que acabaria por ser fuzilado em Fevereiro de 1940.

A Sonata n.º 7 é a mais famosa deste tríptico e foi estreada em Moscovo a 18 de Janeiro de 1943 por Sviatoslav Richter.

[III andamento (Precipitato), por Valentina Lisitsa]

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Spitfire Prelude & Fugue, de Walton

Ano: 1942

Entre a vasta obra do britânico William Walton (1902-1983) contam-se 13 bandas sonoras para filmes estreados entre 1934 e 1969. Um desses filmes foi The First of the Few (1942), uma biografia de R.J. Mitchell (1895-1937), o engenheiro aeronáutico que concebeu o caça Spitfire, cujas superiores capacidades de voo jogaram papel fulcral na derrota da Luftwaffe na Batalha de Inglaterra, que se travara nos céus da Inglaterra e do Canal da Mancha entre Julho e Outubro de 1940. The First of the Few tem, naturalmente, uma forte componente de propaganda e foi produzido, realizado e protagonizado pelo actor Leslie Howard, que, num acaso do destino, encontraria o seu fim pouco depois, em Junho de 1943, a bordo de um avião de passageiros que fazia a ligação Lisboa-Londres, que foi derrubado pela Luftwaffe sobre o Golfo de Biscaia. A banda sonora do filme está longe de ser uma obra-prima, mas tornou-se tão popular que, ainda em 1942, Walton rearranjou dois excertos, sob a forma do Spitfire Prelude & Fugue.

[Pela Hallé Orchestra, dirigida pelo próprio compositor, em 1943]

Treno para as Vítimas de Hiroshima, de Penderecki

Ano: 1960

A guerra na Europa terminou a 8 de Maio de 1945, mas o Japão continuou a resistir de forma obstinada e fanática. Perante a perspectiva de um desembarque no Japão custar pesadas baixas às forças americanas (e também para intimidar Stalin, que se tornava mais ameaçador de dia para dia), o presidente Truman ordenou o recurso à bomba atómica, que acabara de atingir o estádio operacional, após um colossal e frenético programa secreto de desenvolvimento – o Projecto Manhattan. As duas primeiras vítimas – e, até hoje, as únicas – deste novo tipo de engenhos foram as cidades de Hiroshima e Nagasaki, a 6 e 9 de Agosto, respectivamente.

A devastação causada foi inaudita em ambos os casos, e fez com que o Japão aceitasse negociar a rendição, mas foi Hiroshima – onde 70.000 a 80.000 pessoas morreram com a deflagração e muitos milhares acabariam por perecer nos dias e anos seguintes, em resultado da radioactividade – que acabou por ficar como símbolo da entrada da humanidade na era nuclear.

O terrível evento inspirou o polaco Krzysztof Penderecki (n. 1933) a compor o Treno à Memória das Vítimas de Hiroshima (Tren ofiarom Hiroszimy), uma obra dilacerada, lúgubre e angustiante (“treno”, do grego “threnoidia”, é uma peça musical ou poema em homenagem aos mortos), destinada a 52 instrumentos de cordas, que se agrupam das mais diversas formas e produzem sonoridades nada convencionais – algumas extremamente cortantes e adstringentes – ao longo dos cerca de oito minutos e meio de duração da peça.

[Pela Orquestra Sinónica da Rádio Nacional Polaca, dirigida por Antoni Wit]

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War Requiem, de Britten

Ano: 1962

A cidade britânica de Coventry foi alvo de vários ataques da Luftwaffe durante a II Guerra Mundial, mas o mais devastador – a que os alemães deram o sarcástico nome de código “Sonata ao Luar” (Mondscheinsonate), em alusão à Sonata para piano n.º 14 de Beethoven – teve lugar na noite de 14 de Novembro de 1940, envolveu 513 bombardeiros e matou 568 pessoas, destruiu 4300 habitações e danificou 2/3 dos edifícios da cidade.

Entre os edifícios reduzidos a escombros estava a catedral gótica erguida no século XIV. Esta foi reconstruída no pós-guerra e para a cerimónia de consagração, a 30 de Maio de 1962, foi encomendado um Requiem a Benjamin Britten (1913-76). Este era um convicto pacifista, tendo assumido o estatuto de objector de consciência durante a II Guerra Mundial, pelo que aproveitou o ensejo para criar um pungente manifesto contra a guerra – não apenas a guerra que destruira catedral de Coventry mas todas as guerras.

Britten confiou o usual texto latino da Missa de Defuntos sobretudo ao coro e intercalou-o com trechos da poesia anti-belicista de Wilfred Owen (1893-1918), cantados por tenor ou barítono solistas. Owen escreveu os seus poemas como reacção à carnificina que foi a guerra de trincheiras durante a I Guerra Mundial, que conheceu bem de perto, pois combateu nela e acabou por nela perecer, poucos dias antes do Armistício.

[“Be Slowly Lifted Up”, do II andamento (Dies Irae), pelo barítono Dietrich Fischer-Dieskau, The Bach Choir e a London Symphony Orchestra, com direcção do próprio compositor, no primeiro registo discográfico da obra, realizado em 1963 para a Decca]

Different Trains, de Reich

Ano: 1988

Os pais de Steve Reich (n.1936) separaram-se quando ele tinha um ano de idade: o pai continuou a viver em Nova Iorque e a mãe mudou-se para Los Angeles, o que levou a que, em resultado da custódia partilhada, o jovem Reich atravessasse regularmente os EUA de uma ponta à outra, de comboio, acompanhado pela ama. Muitas décadas depois, ocorreu a Reich que, pela mesma altura – a viragem dos anos 30-40 – em que ele andava entre Nova Iorque e Los Angeles, do outro lado do Atlântico, outros rapazes e raparigas da mesma idade e etnia – judaica – tinham uma experiência de viagem ferroviária bem diversa, empilhados em vagões de gado, sem água nem comida, a caminho de campos de concentração ou de extermínio.

Reich plasmou esta reflexão em Different Trains, uma hipnótica construção para quarteto de cordas (tocando sobre uma gravação de si mesmo) e registos de testemunhos de sobreviventes do Holocausto, da sua ama, de um funcionário dos caminhos de ferro norte-americanos e de sons das ferrovias americanas e europeias dos anos 30 e 40.

[II andamento (Europe During the War), pelo Kronos Quartet]

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Em 1792, o Conde Ferdinand von Waldstein, um dos principais mecenas de Beethoven, despediu-se deste, que tinha então 22 anos e deixava a sua cidade natal Bona para ir estudar em Viena, com uma recomendação: “Através de inabalável diligência, recebereis o espírito de Mozart das mãos de Haydn”. Mozart terá sido o modelo de Beethoven na juventude. Já as aulas que teve com Haydn parecem ter sido pouco profícuas. Mas se Beethoven começou por ter Mozart como modelo, em breve desenvolveu uma voz própria.

Wolfgang Amadeus Mozart
©DR

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Wolfgang Amadeus Mozart legou-nos abundante produção para solista e orquestra, antes de mais para o seu instrumento de eleição, o piano, para o qual compôs 27 concertos, a maior parte destinados a servir de veículo ao seu virtuosismo no instrumento. Mas a criatividade de Mozart foi também posta ao serviço de instrumentos como o violino, o clarinete, a trompa, o oboé ou o fagote, e até mesmo a flauta, um instrumento com o qual embirrava.

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Franz Liszt, Março 1886
©Nadar

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Franz Liszt começou a aprender piano aos sete anos, aos nove já se apresentava em concertos públicos e aos 12 publicou a sua primeira obra, numa colecção em que surgia ao lado de Beethoven e Schubert. Tornou-se num dos maiores virtuosos do piano de todos os tempos e percorreu a Europa em frenéticas tournées, suscitando uma idolatria similar à das estrelas rock de hoje e fazendo palpitar muitos corações femininos com as longas melenas e a pose estudada para causar sensação.

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