Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Sete canções sobre cidades e vida urbana

Sete canções sobre cidades e vida urbana

A vida e as cidades têm muito que se lhes diga. Ou, neste caso, que se lhes cante. Eis sete canções sobre a vida urbana

Por José Carlos Fernandes |
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Seatle Skyline
©Wenkan Zhu Seatle Skyline

Poluição, especulação imobiliária, gentrificação, engarrafamentos, violência e desigualdades sociais podem ser assuntos mais estimulantes para compor canções do que a beleza radiosa de um amanhecer nos campos.

Ben Gibbard, dos Death Cab For Cutie, lamenta que a especulação imobiliária esteja a desfigurar o seu bairro em Seattle. Ian Curtis sente-se prisioneiro de uma Manchester decadente e mergulhada em sombras. Lou Reed contrasta o glamour e a sordidez de Nova Iorque. Tom Waits evoca uma parte de Minneapolis onde "todos os donuts têm nomes que soam como prostitutas". E David Byrne anda à procura de uma cidade perfeita onde instalar-se.

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Sete canções sobre cidades e vida urbana

Talking Heads - Cities

Ano: 1979
Álbum: Fear of Music

“Cities” dá a ouvir um David Byrne na busca obsessiva de uma cidade para viver, mas não parece, para já, considerar tornar-se vizinho de Madonna e Scarlett Johansson – há que atender a que, quando esta canção surgiu, no terceiro álbum dos Talking Heads, Lisboa estava longe de despertar a atenção das celebridades internacionais.

Byrne considera várias hipóteses: London, que talvez não seja a capital britânica, pois Byrne descreve-a como "uma pequena cidade/ Sombria, sombria durante o dia/ As pessoas dormem, dormem durante o dia" e há várias Londons nos EUA e outra no Canadá; Birmingham, que tanto pode ser a cidade das West Midlands como a cidade do Alabama ("Há muita gente rica em Birmingham/ E muitos fantasmas em muitas casas/ Olha ali! Uma fábrica de gelo seco/ Um bom lugar para meditar a sós"); e Memphis, que é apresentada como "home of Elvis and the ancient Greeks" – ora se Elvis Presley (natural de Tupelo) passou a juventude na cidade de Memphis, no Tennessee, já a menção aos gregos é indecifrável, já que a Mênfis da Antiguidade ficava no Egipto.

Seja como for, é duvidoso que a demanda de Byrne – que já tivera um primeiro episódio em "The Big Country", do álbum anterior dos Talking Heads, More Songs About Buildings and Food – chegue a uma conclusão, pois embora haja nela método – "Estou a compará-las, estou a compará-las/ Já tenho a resposta, já tenho a resposta/ Há pontos positivos e alguns pontos negativos" – é óbvio que a sua mente neurótica está cada vez mais confusa.

Joy Divison - Shadowplay

Ano: 1979
Álbum: Unknown Pleasures

As cidades moldam o imaginário dos escritores de canções e "Shadowplay" é um fruto da decadente Manchester do final da década de 70, cujo período áureo como dínamo da Revolução Industrial há muito dera lugar a um desconsolador cenário de fábricas abandonadas, bairros degradados, ruas escuras e imundas – viver lá é (era) "viver entre as ruínas do século passado", escreveu W.G. Sebald, que lá se fixou em 1966 e dela oferece pungente descrição em Os Emigrantes.

"Shadowplay" é uma canção claustrofóbica, sem horizontes ou possibilidade de fuga: "Rumo ao centro da cidade, onde todas as estradas confluem, esperando por ti/ Rumo às profundezas do oceano onde todas as esperanças naufragam, procurando por ti/ Movia-me através do silêncio sem me mover, esperando por ti/ Num quarto com uma janela, numa esquina, encontrei a verdade".

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Tom Waits - 9th & Hennepin

Ano: 1985
Álbum: Rain Dogs

O olhar de Tom Waits sempre privilegiou os freaks e os deserdados da vida e a tendência tornou-se mais óbvia no seu oitavo álbum, Rain Dogs, cujo tema unificador é a fauna das ruas de Nova Iorque: prostitutas, chulos, sem-abrigo, junkies, pequenos meliantes, madraços, inadaptados – são eles os "rain dogs" do título. Waits declarou numa entrevista que as imagens de "9th & Hennepin" provêm sobretudo da vida urbana nova-iorquina, mas o título alude a um ponto de Minneapolis (nos EUA as localizações urbanas são dadas como intersecções numa grelha) onde Waits conta ter tido uma experiência particularmente desagradável (com balas a assobiar-lhe aos ouvidos).

"9th & Hennepin" é um lugar onde "todos os donuts têm nomes que soam como prostitutas/ E há marcas dos dentes da lua no céu/ Que é como um oleado atirado para cima de tudo isto/ E guarda-chuvas partidos como pássaros mortos/ E o vapor que sai das grelhas como se toda a maldita cidade estivesse prestes a explodir/ E os tijolos estão gravados com tatuagens de presidiários/ E todos se comportam como cães/ [...] E todos os quartos fedem a gasóleo".

Dir-se-á que não é um lugar que obtenha boa pontuação no TripAdvisor, mas quem conhece Minneapolis diz que, desde 1985, 9th & Hennepin mudou muito.

Lou Reed - Dirty Blvd.

Ano: 1988
Álbum: New York

Lou Reed foi outro notável cronista do universo dos freaks e inadaptados da selva urbana e New York, o seu 15.º álbum, que marcou um regresso à sua melhor forma após uma dúzia de anos de discos irregulares, tem por tema a vida da sua cidade natal e lança ataques vitriólicos ao establishment norte-americano. "Dirty Blvd." é uma das canções mais fortes do álbum e também uma das mais corrosivas: Pedro, a personagem central, é um miúdo, com nove irmãos e irmãs, cuja "casa" não tem vidros nas janelas, tem paredes feitas de cartão e jornais a cobrir o chão e cujo pai "lhe bate por ele estar demasiado cansado para mendigar". "Pedro sonha em crescer e matar o velho" e em deixar aquela vida infecta, mas o mais provável é que, como todos os outros acabe na miserável vida nas ruas sujas. "Este quarto custa 2000 dólares por mês/ Acredita, meu, é verdade/ Algures, um senhorio ri-se até se mijar/ Ninguém aqui sonha em ser médico ou advogado ou seja o que for/ Sonham em ser dealers nas ruas sujas". Reed faz o contraste com cidade glamorosa dos ricos: "Lá fora está uma noite esplendorosa/ Há uma ópera no Lincoln Center/ Estrelas de cinema chegam de limusine/ Clarões feéricos brilham sobre Manhattan/ Mas não há luz nas ruas sórdidas".

Uma canção que mantém a pertinência e a acutilância passados 30 anos merece uma vénia. Mas é também um sinal de que o tempo nem sempre traz progresso e que a América de 2018 quer fazer marcha-atrás em muitos domínios.

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The Blue Nile - The Downtown Lights

Ano: 1989
Álbum: Hats

A mundividência do duo de Glasgow é melancólica e melancólica é também a sua visão da cidade: as ruas podem regurgitar de gente, mas isso não impede a solidão, há bulício nas avenidas, mas não afasta a lassidão, há luzes por todo o lado, mas não são capazes de iluminar os recantos da alma humana. Paul Buchanan canta "Às vezes afasto-me/ Quando o que quero mesmo/ É amor e abraçar-te [...] Ruas vazias, noites vazias/ As luzes da baixa [...]/ Os néons e os cigarros/ Quartos alugados e carros alugados/ Ruas cheias de gente e bares vazios/ Chaminés e trompetes/ A luz dourada [...]/ Os sapatos coloridos, os comboios vazios/ Estou farto de estar sentado nestes degraus a chorar/ As luzes da baixa".

Moonshake - City Poison

Ano: 1992
Álbum: Eva Luna

Os britânicos Moonshake tiveram uma breve mas frutífera existência no dealbar dos anos 90 e praticaram um noise-rock tingido de psicadelismo, dub e electrónica e assente em métricas não-convencionais, umas vezes mais agreste (nas canções cantadas por David Callahan), outras mais atmosférico (nas canções cantadas por Margaret Fiedler – que deixaria o grupo para fundar os Laika). Sendo cantada por Callahan, "City Poison" faz parte do lote ácido: esta é uma cidade envenenada, quer do ponto de vista ambiental ("a chuva cheira a gases de escape") quer das relações humanas. "Não és capaz de ver a porcaria que deixas para trás/ O teu progresso é vazio mas sincero".

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Death Cab For Cutie - Gold Rush

Ano: 2018
Álbum: Thank You For Today

"Gold Rush" é o single que anuncia o nono álbum dos Death Cab For Cutie, lançado a 17 de Agosto, e retrata num misto de nostalgia e ironia a forma como a gentrificação e a especulação imobiliária estão a mudar as cidades. Ben Gibbard escreveu "Gold Rush" inspirado pelas mudanças sofridas no bairro de Capitol Hill, em Seattle, onde vive há duas décadas, como resultado do influxo de novos residentes atraídos pelo facto de algumas das maiores e mais pujantes empresas americanas (boa parte delas ligadas à chamada nova economia) terem sede nela (Amazon, Starbucks) ou nos arredores (Microsoft, Nintendo, Boeing).

Sabendo disto, é fácil perceber o lamento de Gibbard: "Escava-se em busca de ouro no meu bairro/ Onde estavam os antigos prédios/ E continuam a cavar cada vez mais fundo/ De forma que os carros possam viver sob a terra/ O impacto de uma bola de demolição/ Rompe as paredes frágeis/ Liberta todas as sombras/ Aquelas que eu queria que me seguissem para sempre// Muda, mas por favor não mudes/ Fica na mesma// [...] Agora que as coisas que nos assombravam debandaram/ E foram substituídas por estaleiros de obras/ Sinto-me como um estranho aqui/ Buscando algo que desapareceu// Escava-se em busca de ouro no meu bairro/ Dizem que é para um bem maior/ Mas tudo o que vejo é um longo adeus/ Um requiem por uma paisagem urbana// Atribuí a estes monumentos/ Uma falsa sensação de permanência/ Depositei a minha fé na geografia/ Para te preservar na memória/ Ziguezagueio entre os escombros/ Através de tijolos e arames/ Buscando algo que nunca irei encontrar".

O teledisco acrescenta novos aspectos ao lamento de Gibbard: as pessoas com quem se cruza são cada vez mais frias e indiferentes e, no final, caminham em massas cada vez mais compactas, mas completamente alheadas de quem as rodeia, pois estão completamente absortas na tecno-bolha gerada pelos seus smartphones.

Também é fácil transpor a desolação e nostalgia de "Gold Rush" de Seattle para outras cidades.

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