Sete maravilhas da canção orquestral

O barítono Christian Gerhaher, acompanhado pela Orquestra Juvenil Gustav Mahler, traz à Fundação Gulbenkian dois ciclos de canções orquestrais, um de Berg e outro de Berlioz – é um género menos popular que a ópera mas onde não faltam obras-primas

©Alexander Baster/SonyChristian Gerhaher

Christian Gerhaher e a Orquestra Juvenil Gustav Mahler, com direcção de Daniel Harding, apresentam programas distintos, na Fundação Gulbenkian, em dias consecutivos.

Na sexta-feira 17 de Março, pelas 19.00: o ciclo de canções orquestrais Altenberg Lieder de Berg, terá a companhia da Sinfonia n.º5 de Bruckner, e de duas árias da ópera Alfonso und Estrella, de Schubert.

No sábado 18, pelas 21.00: o ciclo de canções Les Nuits d’Été, de Berlioz, terá a companhia das Cinco Peças para Orquestra de Schoenberg e da Sinfonia n.º2 de Schumann.

Bilhetes: 30-60€.

Sete maravilhas da canção orquestral

Berlioz: Les Nuits d’Été

Por temperamento e por não ter tido uma educação musical formal, Hector Berlioz (1803-1869) tinha espírito pioneiro e não receava desafiar convenções e entre as inovações que trouxe ao mundo da música esteve o formato de canção para voz solista e orquestra, estreado com Les Nuits d’Été. As seis canções foram concebidas originalmente para voz e piano, tendo Berlioz procedido à orquestração de uma em 1843 e das restantes em 1856.

Os poemas das seis canções – “Villanelle”, “Le Spectre de la Rose”, “Sur les Lagunes: Lamento”, “Absence”, “Au Cimitière: Clair de Lune” e “L’Île Inconnue” – provêm de La Comédie de la Mort (1838) de Téophille Gautier.

[“Le Spectre de la Rose”, pela mezzo-soprano Joyce DiDonato, com a Orquestra do Festival de Verbier, direcção de Esa-Pekka Salonen, no Festival de Verbier, 2015]

Mahler: Kindertotenlieder

Em 1833-34 Friedrich Rückert escreveu 428 poemas como forma de reacção à enfermidade e morte (com escarlatina) das suas duas filhas. Embora haja arroubos de revolta e momentos em que sonha ver as filhas ressuscitadas, o tom geral é de resignação perante o destino. Rückert não pensara publicá-los, mas os poemas acabaram por ser dados à estampa em 1871, cinco anos após a sua morte.

Mahler seleccionou cinco desses poema e compôs o ciclo Kindertotenlieder (Canções das Crianças Mortas) em 1901-4, que foi, paradoxalmente, um dos períodos mais felizes da sua vida. A esposa, Alma, ficou, naturalmente perturbada com o facto de o marido ter escolhido tal tema e fez-lhe ver que estava a tentar o destino. Em 1909, Maria, a filha mais velha do casal, morreu com escarlatina, aos quatro anos de idade – Mahler escreveu a um amigo dizendo “Coloquei-me na posição em que sofria a perda de um filho. Agora que essa perda se tornou real, não seria capaz de escrever estas canções”. É uma matéria para reflexão para os que crêem que as obras espelham as biografias dos artistas e os seus estados de espírito e desprezam o poder da imaginação.

A quinta canção, “In Diesem Wetter, in Diesem Braus”, é um dos mais vívidos retratos do remorso jamais realizados: os primeiros versos de cada estrofe são variações em torno de um pensamento obsessivo – “Com este tempo, com esta tormenta, não deveria ter deixado sair as crianças” – enquanto na orquestra sopra uma tempestade que ecoa a tormenta interior. No final da quarta estrofe ouve-se um sino, a tempestade amaina e desce um inquietante apaziguamento – “Eles repousam como que na casa materna, não temendo tempestade alguma, protegidas pela mão de Deus” – e a orquestra desintegra-se numa luminosidade imóvel.

[“In Diesem Wetter, in Diesem Braus”, pelo barítono Thomas Hampson e pelo maestro Leonard Bernstein]

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Ravel: Shéhérazade

A mais famosa peça do repertório clássico inspirada pelas Mil e Uma Noites é o poema sinfónico Scheherazade (1888), de Rimsky-Korsakov. Este inspirou Tristan Klingsor a escrever uma colecção de poemas a que deu o título Shéhérazade e quando os leu ao seu círculo de amigos, onde se encontrava Ravel, este ficou imediatamente cativado e dispôs-se a musicá-los. O fascínio de Ravel com as Mil e Uma Noites vinha de trás, pois em 1898 estreara-se na composição orquestral com uma “ouverture de féerie” com o título Shéhérazade, que fora mal recebida pela crítica e Ravel tratou de olvidar. O ciclo de canções orquestrais com o mesmo nome composto em 1903 musica os poemas “Asie”, “La Flûte Enchantée” e “L’Indifférent”. O texto da primeira é uma fantasia orientalista – a paixão pelo Oriente estava então no auge na Europa – feita de imagens de bilhete-postal (que incluem “mandarins barrigudos sob sombrinhas” e decapitações com um “grande sabre recurvo”), mas a opulenta e colorida música de Ravel torna a sensibilidade mórbida e a atmosfera febril do poema enfeitiçantes.

[“Asie”, por Régine Crespin e a Orquestra da Suisse Romande, dirigida por Ernest Ansermet, 1963]

Britten: Les Illuminations

Entre a notável produção de canções de Benjamin Britten (1913-1976), o ciclo que compôs a partir de 10 poemas em prosa extraídos de Les Illuminations, de Arthur Rimbaud, é um dos momentos mais intensos, sensuais e ricos. Britten compôs o ciclo em 1939 e destinou-o originalmente a uma soprano, mas logo em 1942 o tenor Peter Pears, o companheiro da vida de Britten, se apropriaria da obra, numa récita dirigida pelo próprio compositor – viriam ambos a gravá-la para a Decca, com a English Chamber Orchestra, em 1963.

[“Parade”, a oitava Illumination, pela soprano Lisa Larsson, com a Kammerakademie Potsdam, dirigida por Antonello Manacorda, Nikolai Saal, Potsdam, 2013]

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Strauss: Quatro Últimas Canções

Em 1948, vivendo exilado na Suíça, o compositor alemão Richard Strauss (1864-1949) via aproximar-se não só o fim da vida como o do seu mundo. Tinha 84 anos e sérios problemas de saúde, estivera do lado errado (isto é, com o regime nazi) durante a II Guerra Mundial e assistira à destruição de quase tudo o que lhe era caro. A evolução das tendências musicais também não era do seu agrado: a vaga triunfante de Schoenberg e seus discípulos pouco dizia a um compositor firmemente enraizado no mundo oitocentista e em Mozart. Foi desta perspectiva crepuscular que compôs as Quatro Últimas Canções (Vier Letzte Lieder), a derradeira obra que terminou. As canções, três com poemas de Hermann Hesse (“Frühling”, “September” e “Beim Schlafengehen”), uma com poema de Joseph von Eichendorf (“Im Abendrot”) – são frutos tardios do romantismo opulento e luxuriante de Strauss e exalam o aroma pesado e inebriante dos frutos demasiado maduros. A última estrofe de “Im Abendrot” (“Ao Crepúsculo”) reza assim: “Oh vasta e tranquila paz, tão profunda no crepúsculo. Estamos tão cansados de vaguear – será isto talvez a morte?”

[“Im Abendrot” (Ao Crepúsculo), pela soprano Renée Fleming, com a Philharmonia Orchestra, dirigida por Christoph von Eschenbach, nos Proms 2001, numa versão de uma lentidão sumptuosa]

Shostakovich: Sinfonia n.º 14

Dmitri Shostakovich classificou-a como sinfonia, mas a obra não tem as características formais de uma sinfonia e pode ser vista como um ciclo de 11 canções orquestrais. Foi, aliás, de um ciclo de canções, As Canções e Danças da Morte, de Mussorgsky, que Shostakovich orquestrara em 1962, que veio a inspiração para a Sinfonia n.º 14, que estreou em 1969. Os poemas seleccionados por Shostakovich (e vertidos para russo) provêm de diversos autores – Federico García Lorca, Guillaume Apollinaire, Rainer Maria Rilke e Wilhelm Küchelbecker – mas têm um tema comum: a morte. Shostakovich fez questão de afastar a ideia de se tratar de uma obra de natureza mórbida – tratar-se-ia antes de um grito de revolta contra a morte e uma afirmação de vida. Todavia, não é certamente essa a impressão produzida no ouvinte.

[“De Profundis”, I andamento da Sinfonia n.º 14, sobre poema de Federico García Lorca, pela soprano Galina Vishnevskaya e pelo baixo Mark Reshetin, com a Orquestra de Câmara da Moscovo, dirigida por Rudolf Barshai, no concerto de estreia, a 6 de Outubro de 1969, em Moscovo]

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Adams: The Wound-Dresser

Em 1862, durante a Guerra Civil Americana, Walt Whitman ofereceu-se como enfermeiro nos hospitais militares e essa experiência acabaria por dar origem a vários poemas da colecção Drum-Taps, publicada em 1865. Um dos mais tocantes momentos dessa colecção é The Wound-Dresser, que é narrado do ponto de vista de um veterano de guerra e transmite, de forma vívida e realista, a experiência de Whitman na prestação de cuidados aos feridos: “Carregando as ligaduras, a água e a esponja/ Lesto e sem demora, para os meus feridos vou/ Lá onde jazem, no rescaldo da batalha/ Onde o seu sangue sem preço avermelha a erva e o solo”. O poema não desvia o olhar das visões mais terríveis – os rostos azulados, os membros amputados, as feridas gangrenadas – mas é dominado por uma estranha serenidade, resultante da compreensão de que dar assistência a quem dela necessita desesperadamente é das mais nobres tarefas a que um ser humano pode consagrar-se: “Os combalidos e os feridos alivio com mão mitigadora/ Sento-me, pela escura noite dentro, ao lado dos febris, alguns deles tão novos,/ Alguns sofrendo tanto, e disto guardo uma memória doce e triste”.

John Adams (n. 1947), compositor por vezes associado à corrente minimal-repetitiva, pela omnipresença de uma pulsação regular, mas cuja escrita, elaborada e de rico colorido, tem afinidades com Wagner e Mahler, tomou parte de The Wound-Dresser para construir uma peça para barítono e orquestra de câmara, que estreou sob a sua direcção em 1989, com o barítono Sanford Sylvan – Adams e Sylvan registaram a obra para a Nonesuch, nesse mesmo ano. É pena que seja pouco conhecida, pois é uma das mais pungentes obras do nosso tempo. [Excertos de The Wound-Dresser, pelo barítono Thomas Hampson e a Filarmónica de Colónia, com direcção de Alan Gilbert, ao vivo em Colónia, 28 de Janeiro de 2010]

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