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Franz Schubert
©Wilhelm August Rieder Franz Schubert (1825)

Sete sinfonias que ficaram por acabar

Muitos compositores não conseguiram terminar as suas obras. Mas há sinfonias que ficaram por acabar e hoje são tocadas e ouvidas

Por José Carlos Fernandes
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“Ars longa vita brevis” reza um aforismo latino (com origem grega) que costuma ser traduzido literalmente como “a arte é longa e a vida breve” e que chama a atenção para o facto de ser necessário muito tempo, disciplina e determinação para adquirir e dominar a “arte”, sendo esta entendida no sentido lato de “técnica, conhecimento” – quer diga respeito à composição musical, à ginástica nas barras paralelas ou à preparação de sushi.

Em tempos em que os cuidados de saúde e o poder da medicina eram incipientes, a esperança média de vida era mais breve e as doenças mais debilitantes, pelo que aconteceu que vários compositores partiram deste mundo sem conseguir concluir a obra que tinham em mãos. Mas também houve sinfonias que foram deixadas a meio por o compositor não conseguir dar-lhes concretização satisfatória, ou por se ter desavindo com quem as tinha encomendado ou simplesmente por se ter enfadado delas (há também sinfonias que nos chegaram incompletas por se terem perdido páginas da partitura, mas essas não fazem parte desta lista).

Consoante o estádio de acabamento das partituras e o critério dos maestros, algumas dessas sinfonias são hoje tocadas de forma truncada, outras são tocadas em versões reconstruídas a partir dos fragmentos e esboços (no caso de compositores famosos, até podem coexistir várias propostas de reconstrução), noutros ainda são usadas obras ou andamentos afins do compositor para remendar os trechos em falta.

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Sete sinfonias que ficaram por acabar

Sinfonia n.º 7 D.729, de Schubert

Ano: 1821
Estado: Os quatro andamentos estão delineados, mas apenas o início do I andamento foi orquestrado

Quando se menciona “a Sinfonia Incompleta de Schubert”, é da n.º 8 D.759 que se fala, mas a verdade é que, entre as muitas obras que Schubert deixou inacabadas, estão duas sinfonias e fragmentos de outra. É preciso dizer que Schubert não teve, no seu tempo, o reconhecimento que o seu génio mereceria e que muito do que compôs não foi apresentado em público durante a sua vida – foi o caso de todas as suas nove sinfonias. Talvez por saber que estava a compor para gaveta, era frequente que Schubert deixasse um projecto a meio para pegar noutro – foi o que aconteceu com a Sinfonia n.º 7, que pôs de parte para trabalhar na ópera Alfonso und Estrella (que só foi estreada em 1854, 26 anos após o falecimento de Schubert) e à qual não regressou. A partitura foi alvo de orquestrações por John Francis Barnett (1881), Felix Weingartner (1934) e Brian Newbould (1980).

[I andamento (Adagio-Allegro), na orquestração de Brian Newbould, pela Academy of St. Martin-in-the-Fields, com direcção de Neville Marriner (Philips)]

Sinfonia n.º 8 D.759, de Schubert

Ano: 1822
Estado: Andamentos I e II completos, duas páginas do III andamento, nem sombras de IV andamento

Quando, em 1823, a Sociedade Musical da Estíria, em Graz, lhe conferiu um diploma honorário, Schubert sentiu-se obrigado a retribuir, enviando a um dos seus membros mais destacados dois andamentos (e duas páginas do III andamento) de uma sinfonia composta no ano anterior. Após a morte de Schubert, em 1828, foi encontrada uma versão para piano de todo o III andamento, que seria orquestrada, no final do século XX, por Brian Newbould. Os dois primeiros andamentos foram estreados em 1865, em Viena, e publicados em 1867.

Do IV andamento não se encontraram vestígios, embora haja quem sugira que Schubert o terá usado como música de cena para a peça Rosamunde, em 1823. Embora alguns maestros tenham adoptado esta solução, a maioria costuma tocar apenas os dois primeiros andamentos.

[I andamento (Allegro ma non troppo), pela Philharmonie Salzburg, com direcção de Elisabeth Fuchs]

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Sinfonia n.º 10, de Beethoven

Ano: 1827?
Estado: esboços soltos

A Sinfonia n.º 10 está muito mais longe do fim do que do início. Beethoven terá começado a ponderar uma nova sinfonia após ter completado e estreado a n.º 9, em 1824, mas a maior parte das suas energias foi investida nos magistrais quartetos de cordas n.º13 a 16, cuja composição tomou 1825-26 e foi interrompida por graves problemas de saúde, que acabaram por ficar expressos no Quarteto n.º 15 op.132, a cujo III andamento deu o título de “Canto sacro de acção de graças de um convalescente à divindade”. A sua saúde voltou a dar problemas em Dezembro de 1826 e o compositor acabou por passar na cama os meses seguintes, falecendo a 26 de Março de 1827.

Em 1988, o musicólogo britânico Barry Cooper, baseado numas páginas de vagas anotações, apresentou uma reconstrução hipotética do I andamento, estreada nesse mesmo ano na Royal Philharmonic Society. Foram realizadas duas gravações, em rápida sucessão, e depois, sensatamente, não voltou a falar-se da “Décima de Beethoven”.

[Reconstrução por Barry Cooper, na interpretação da City of Birmingham Symphony Orchestra, com direcção de Walter Weller (Chandos)]

Sinfonia n.º 9, de Bruckner

Ano: 1891-96
Estado: falta o IV andamento

Em 1891, Anton Bruckner começou a compor a Sinfonia n.º 9, mas por esta altura a sua saúde física e mental já estava muito desgastada e a obra progrediu muito lentamente; quando faleceu, em 1896, com 72 anos, a n.º 9 contava apenas com três andamentos completos. Consta que, tendo consciência de que não seria capaz de terminar o IV andamento, terá sugerido que este fosse substituído pelo Te Deum. Este, que terá sido concebido como acção de graças pelo sucesso obtido pela sua Sinfonia n.º 4, estreara 1886, em Viena e fora executado uma trintena de vezes durante a vida de Bruckner. Apesar de o compositor ver no Te Deum “o orgulho da sua vida”, a ideia não faz muito sentido e não tem sido seguida pelos maestros – embora tenha sido levada a cabo na estreia da Sinfonia n.º 9, que teve lugar em Viena em 1903, sob a batuta de Ferdinand Löwe. Na ocasião, Löwe introduziu alterações substanciais na partitura – “wagnerizando-a” – sendo esta versão tomada como sendo a original, até que o musicólogo Robert Haas a confrontou com os manuscritos de Bruckner – a versão original só estreou em 1932.

[2.ª e última parte do III andamento (Adagio: Langsam, feierlich), pela Filarmónica de Viena, com direcção de Herbert von Karajan]

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Sinfonia n.º 10, de Mahler

Ano: 1910
Estado: I andamento (Adagio) completo, esboços dos andamentos II-V (os primeiros 28 compassos do III andamento também estão orquestrados)

A intensa agenda de Mahler como maestro só lhe permitia compor nas férias de Verão e foi entre Julho e Setembro de 1910, em Toblach, no Tirol, que se lançou ao trabalho na Sinfonia n.º 10. Atendendo ao seu estado de perturbação emocional, após ter descoberto que a sua amada esposa, Alma, tinha um caso com o arquitecto Walter Gropius (futuro fundador da Bauhaus), e que é bem visível nas anotações desvairadas que semeiam o manuscrito, pode dizer-se que foram três meses produtivos. No Outono, Mahler regressou a Nova Iorque, onde dirigia a Orquestra Filarmónica, mas em Fevereiro de 1911 a doença forçou-a a cancelar os compromissos e a regressar à Europa; foi internado num sanatório em Viena, onde faleceu a 18 de Maio de 1911.

Durante alguns anos foi aceite que a Sinfonia n.º 9 era a sua derradeira obra, mas em 1924 Alma entregou os esboços da n.º 10 a Ernst Krenek (que acabara de se tornar seu genro), pedindo-lhe que a completasse. Krenek pouco fez e Schoenberg, Shostakovich e Britten declinaram a proposta, pelo que a iniciativa passou do lado dos compositores para o dos musicólogos. O mais persistente (e que tem tido maior eco) foi Deryck Cooke, que apresentou uma versão em 1960, mas, insatisfeito, voltou à carga em 1972 e 1976 (a n.º 10 de Mahler parece despertar uma irreprimível pulsão para a completar). Sendo fastidioso enumerar todas as propostas surgidas até à data, apenas se indicam as mais recentes: Rudolf Barshai (2000), Nicola Samale & Giuseppe Mazzucca (2001) e Yoel Gamzou (2010). Muitos maestros não reconhecem legitimidade a nenhuma das reconstruções e só executam o Adagio.

[IV andamento (Scherzo), na 2.ª versão de Deryck Cooke, pela Filarmónica de Berlim, com direcção de Simon Rattle]

Sinfonia n.º 9, de Glazunov

Ano: 1910-36
Estado: só existe o I andamento, numa versão para piano

O russo Aleksandr Glazunov (1865-1936) manteve uma produção regular de sinfonias entre a n.º 1 (composta em 1881-84) e a n.º 8 (1905-06). Porém, o seu ritmo de produção, que fora particularmente intenso na viragem dos séculos XIX/XX, teve uma quebra quando, em 1905, foi nomeado director do Conservatório de São Petersburgo e tornou-se ainda mais rarefeito após o início da I Guerra Mundial. Em 1928, Glazunov deixou a URSS para fazer uma tournée pelo Ocidente como maestro e acabou por instalar-se em Paris, alegando problema de saúde para justificar o não regresso ao seu país. A sua produção nos últimos anos de vida foi escassa e a Sinfonia n.º 9 nunca foi terminada. Os esboços do I andamento foram orquestrados por Gavril Yudin.

[I andamento, orquestrado por Gavril Yudin, pela Sinfónica de Moscovo, com direcção de Aleksandr Anissimov]

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Universe Symphony, de Ives

Ano: 1911-28
Estado: uma massa de fragmentos em diferentes estádios de desenvolvimento

Uma sinfonia com um título tão ambicioso tem boas hipóteses de nunca vir a ser completada, sobretudo se o autor tiver em mente uma obra tão grandiloquente quanto o título. Charles Ives (1874-1954) previra uma obra em três andamentos, com os títulos “Passado: Formação das águas e das montanhas”, “Presente: Terra, evolução da natureza e da humanidade” e “Futuro: O Paraíso e a ascensão de tudo o que é Espiritual”, cuja execução envolveria várias orquestras, espalhadas por vales e montanhas. A sua intenção era “pintar a Criação, os misteriosos começos de todas as coisas conhecidas de Deus e dos homens, esboçar através de impressões tonais a vastidão, a evolução de toda a vida, da natureza, da humanidade, das grandes raízes da vida até às eternidades espirituais” (o que sugere que poderia dar uma boa banda sonora para A Árvore da Vida, de Terrence Malick).

[Apresentação da reconstrução realizada por Larry Austin e executada pela Nashville Symphony (e que requer cinco maestros em simultâneo)]

Mesmo que os seus desígnios fossem bem mais modestos, Ives teria sempre boas justificações para não ter terminado a Universe Symphony: por um lado, era um “compositor de fim-de-semana”, já que a sua actividade principal se desenrolou no ramo dos seguros de vida, onde teve carreira de sucesso e obteve reconhecimento com a publicação do livro Life Insurance with Relation to Inheritance Tax (sobre os seguros de vida na perspectiva do imposto sucessório); por outro, a partir de 1918 foi vítima de vários ataques cardíacos que levaram a uma séria redução do trabalho de composição; em 1930 reformou-se do ramo dos seguros, mas não só a sua saúde física se degradara ainda mais como, desde 1927, um bloqueio psicológico pusera termo à produção de novas obras.

Na década de 1990 surgiram várias propostas de reconstrução deste brontossauro sinfónico, da autoria de David Gray Porter (1993), Larry Austin (1994) e Johnny Reinhard (1996).

[Reconstrução de Johnny Reinhard, em interpretação dirigida pelo próprio]

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