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Oito temas jazz contra o racismo

O jazz, nascido como forma de expressão de uma minoria oprimida, tem algo a dizer sobre uma “doença” que teima em não desaparecer.

Por José Carlos Fernandes
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Estas oito faixas representam o jazz como música de protesto e combate ao racismo e cobrem mais de 80 anos de história. A mais antiga data do tempo em que ainda era corrente o linchamento (impune) de afro-americanos no Sul dos EUA, algumas foram banda sonora da luta dos direitos cívicos na década de 1960, outra celebra a eleição de Nelson Mandela como primeiro Presidente da África do Sul pós-apartheid. Infelizmente, nenhuma perdeu actualidade, como tem sido provado pelo tratamento dispensado aos afro-americanos pelas autoridades policias nos EUA, cujo caso mais recente foi o homicídio de George Floyd às mãos de quatro polícias de Minneapolis a 25 de Maio de 2020.

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Sete temas jazz contra o racismo

“Strange Fruit”, por Billie Holiday

Ano: 1939

“Nas árvores do Sul, amadurece um estranho fruto/ Sangue nas folhas, sangue nas raízes/ Corpos negros baloiçam na brisa meridional/ Estranhos frutos pendem dos álamos// Uma cena pastoral do galante sul/ Olhos esbugalhados e bocas contorcidas/ Aroma de magnólias, doce e fresco/ E depois, o súbito odor a carne queimada”. Não é difícil perceber que não se trata de uma balada romântica, antes de uma denúncia do linchamento de negros no Sul dos EUA, uma prática frequente nas primeiras décadas do “civilizado” século XX. Arthur Meeropol escreveu o poema em 1937, sob o pseudónimo de Lewis Allan, e musicou-o pouco depois, mas quem o celebrizou foi Billie Holiday, que o gravou pela primeira vez em 1939. A Columbia, editora a que Holiday estava vinculada, rejeitou a canção, mas permitiu que a cantora a registasse na Commodore. Holiday faria uma segunda gravação em 1944 e tornar-se-ia numa das suas canções mais conhecidas, tonande-se a associação tão forte que Holiday é até frequentemente creditada como co-autora, embora tudo indique que tal não seja verdade. Esta é a primeira versão.

“Fables of Faubus”, de Charles Mingus

Ano: 1959

Esta composição do contrabaixista Charles Mingus, surgida pela primeira vez no álbum Mingus Ah Um (1959, Columbia), tem por alvo a criatura baptizada com o improvável nome de Orval E. Faubus, que foi governador do Arkansas entre 1955 e 1967 e que, em 1957, decidiu desafiar a resolução do Supremo Tribunal dos EUA contra a segregação racial nos estabelecimentos de ensino, e deu ordens à Guarda Nacional para impedir o acesso de estudantes afro-americanos à Escola Secundária Central de Little Rock.

Os Faubus têm medrado na América de Trump, estimulados pelos discurso do presidente, e seria um sinal da vitalidade do jazz que os músicos de todas as cores e credos, da América e do mundo, os mimoseassem com peças comparáveis à de mestre Mingus.

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“Driva Man”, de Max Roach

Ano: 1960

We Insist! Freedom Now Suite (1960, Candid), do baterista Max Roach, é um álbum integral e explicitamente dedicado à causa do Movimento dos Direitos Cívicos, à denúncia dos séculos de escravidão e discriminação a que os afro-americanos estiveram submetidos e à celebração dos movimentos independentistas de África. O tom inflamado, o empenhamento político e a frontalidade dos textos das canções em nada comprometem a integridade estética do disco, que é um dos marcos da história do jazz. Entre os participantes em We Insist! há a destacar a voz de Abbey Lincoln (então esposa de Roach), a trompete de Booker Little e, surgindo apenas em “Driva Man”, o saxofone tenor do veterano Coleman Hawkins.

[Versão de estúdio, de 1960]

 

“Driva Man”, com letra de Oscar Brown, é um retrato do capataz branco das fazendas, que entendia possuir direitos sexuais sobre todas as mulheres afro-americanas. Não é preciso prestar muita atenção para ouvir estalar o chicote.

[Versão ao vivo na TV belga, em 1964]

“Alabama”, de John Coltrane

Ano: 1963

A 15 de Setembro de 1963, a explosão de 15 cartuchos de dinamite colocados pelo Ku Klux Klan numa Igreja Baptista frequentada pela comunidade afro-americana, em Birmingham, Alabama, matou quatro raparigas, com idades compreendidas entre 11 e 14 anos, e feriu mais 22 pessoas. O sermão que o pastor preparara para esse domingo tinha por tema “Um amor que perdoa”.

Foram estes eventos que inspiraram o saxofonista John Coltrane a compor “Alabama”, que surgiu pela primeira vez no álbum Live at Birdland (Impulse!), registado em Outubro-Novembro de 1963, com McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (contrabaixo) e Elvin Jones (bateria).

Embora as investigações realizadas na altura pelo FBI tenham apurado a identidades dos quatro autores do atentado, não foi feita qualquer acusação até 1977. Um dos homens foi condenado a prisão perpétua nesse ano e sentenças análogas foram proferidas em 2001 e 2002 contra outros dois terroristas; o quarto faleceu em 1994 sem ter sido acusado.

[O quarteto de John Coltrane toca “Alabama” no programa Jazz Casual, 1963]
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“We Shall Overcome”, pela Liberation Music Orchestra de Charlie Haden

Ano: 1969

A Liberation Music Orchestra foi criada pelo contrabaixista Charlie Haden (1937-2014) e pela pianista e arranjadora Carla Bley em 1969 e durou até quase ao fim da vida de Haden. Apesar da natureza intermitente e das substanciais mudanças de formação, manteve duas características: a excelência dos músicos (a orquestra foi sempre “um exército de generais”) e o espírito de combate. O primeiro álbum, homónimo (1969, Impulse!) combinava composições de Haden, Bley e Ornette Coleman com canções da Guerra Civil Espanhola – do lado republicano, claro – e uma canção de Hanns Eisler e Bertolt Brecht. O álbum fechava com “We Shall Overcome”, uma canção gospel que fora convertida em hino (oficioso) do Movimento dos Direitos Cívicos dos afro-americanos (e foi objecto de versões por Pete Seeger e Joan Baez).

“Standing Ovation (for Mandela)”, de Romano/Sclavis/Texier

Ano: 1995

Em 1990, por sugestão do fotógrafo Guy Le Querrec, da agência Magnum, três nomes maiores do jazz francês, Aldo Romano (bateria), Louis Sclavis (clarinete e saxofone) e Henri Texier (contrabaixo), empreenderam uma digressão pela África Central. Não foi uma digressão “em ar condicionado”, actuando nos imaculados átrios dos hotéis de cinco estrelas para turistas endinheirados e para a elite local, mas uma exploração que aceitou o suor, a lama e a poeira e entrou por pequenas aldeias e trocou ideias, notas e ritmos com músicos e dançarinos locais. Esta experiência foi reeditada em 1993 e as impressões recolhidas em viagem foram cristalizadas em estúdio após o regresso a França, naquele que seria o primeiro disco, homónimo, do projecto Carnet de Routes (1994-95, Label Bleu).

Quando o trio estava no estúdio da Casa da Cultura de Amiens a registar Carnet de Routes, Nelson Mandela estava, após um percurso de extraordinária determinação e tenacidade, a ser eleito presidente da África do Sul, nas primeiras eleições neste país que foram abertas a cidadãos de todas as raças – o “aplauso em pé” era mais que merecido.

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“Peace Is Not For Us”, dos Angles

Ano: 2007

O saxofonista norueguês Martin Küchen divide-se por vários projectos, mas todos vibram com a indignação que lhe despertam as iniquidades que grassam pelo mundo que fica fora dos redutos murados de conforto do Ocidente. Um deles são os Angles, uma coligação de músicos escandinavos que varia entre o sexteto e o noneto e que pode ser vista como herdeira dos grupos de Charles Mingus nos anos 50-60: estão cá a militância, a paixão, os arranques em tom lamentoso e elegíaco e que, através de combustão lenta, se agigantam em turbilhões de revolta e fúria. Os discos dos Angles têm vindo a ser editados regularmente pela portuguesa Clean Feed e “Peace Is Not For Us” é a faixa de abertura do álbum de estreia.

Nas notas de capa, Küchen explica o título e sentimento da peça: “O racismo está aqui. Olhando-te com o seu rosto mortífero, pronto a exterminar-te. Basta que aconteça tu estares do lado errado”.

“My Queen Is Harriet Tubman”, dos Sons of Kemet

Ano: 2018

Quando os britânicos Sons of Kemet escolheram para título do seu 3.º álbum Your Queen Is a Reptile (Impulse!) não estavam a faer uma provocação inconsequente. Nas notas de capa, o líder do grupo, o saxofonista Shabaka Hutchings, nascido em Londres e com raízes em Barbados, está a falar a sério quando invectiva a Rainha de Inglaterra e, com ela, o establishment britânico: “A vossa Rainha não é a nossa Rainha. Ela não nos vê como humanos”. As denúncias e a veemência das notas evocam o discurso dos jazzmen da New Thing no auge da luta dos afro-americanos pelos Direitos Cívicos, nos EUA de meados da década de 1960: “Nós sabíamos que o sistema estava armadilhado e que a única via para a liberdade era a destruição do sistema”.

Hutchings proclama que “as nossas rainhas são como nós e nós somos humanos. Precisamos de uma nova Realeza” e dedica cada faixa do CD a uma activista dos direitos dos africanos e seus descendentes, como Angela Davis, Anna Julia Cooper, ou, neste caso, Harriet Tubman.

Tubman (1822-1913) nasceu como escrava na Maryland, foi vítima, na juventude, de maus tratos dispensados pelos seus amos e capatazes que lhe deixaram sequelas para a vida, evadiu-se da plantação aos 27 anos, teve papel activo na libertação de outros escravos, participando numa dúzia de missões de resgate, e desempenhou papel pioneiro na luta pela abolição da escravatura e pelo sufrágio feminino.

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