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O edifício foi criado para fornecer energia ao Palácio da Ajuda, mas nunca chegou a funcionar. O Grupo Esporão e o Instituto Superior de Agronomia juntam-se para abrir as portas ao público em Julho, com cozinha do chef Manuel Liebaut, bar de cervejas e concertos.

O acesso faz-se pelo meio da floresta, com aroma a eucaliptos no ar e pavões que não se desviam para deixar passar os intrusos. Está sinalizado desde a entrada da Tapada da Ajuda que se situa junto da Faculdade de Arquitectura, tem pequenos degraus, iluminação e não demora mais de meia dúzia de minutos até desembocar num imponente edifício com cerca de dois mil metros quadrados. Estamos cara a cara com a Geradora e, apesar de ser possível lá chegar de carro – há estacionamento com cerca de 30 lugares –, o percurso a pé dá o mote para este lugar de aura mágica escondido em plena Lisboa.
Em Outubro, demos a notícia: numa parceria entre o Grupo Esporão (responsável pela Herdade do Esporão, no Alentejo, famosa pelos vinhos e azeites) e o ISA (Instituto Superior de Agronomia), sete hectares da Tapada da Ajuda iriam ganhar uma vida nova, oferecendo à cidade um escape. Agora chegou a hora. Ainda se ouve o ruído das escavadoras que terminam os trabalhos do jardim, mas a partir de Julho, quando as portas se abrirem aos clientes, só os pássaros têm permissão para perturbar o sossego que aqui reina.
“Esta é a casa do Esporão em Lisboa, vamos abrir as portas às pessoas para partilhar o nosso universo e o que fazemos”, explica António Roquette, director de turismo do grupo. O edifício terá, como contámos ainda em 2025, diversas valências: restaurante, museu, loja e até um bar de cervejas já no exterior, junto à esplanada. Além disso, o espaço terá uma vasta agenda cultural, com concertos e workshops. Para que tudo fique claro, vamos à visita guiada.
O plano inicial para o edifício era ser uma geradora a carvão capaz de produzir energia eléctrica para o Palácio Real da Ajuda. Acabou por nunca funcionar com esse propósito porque as obras atrasaram e entretanto ficou pronta a Central Tejo, que conseguia também alimentar esta zona da cidade. O nome foi ficando, mesmo depois de passar para as mãos do ISA e servir para dar aulas agrícolas ou simplesmente como armazém para os equipamentos.
Foi esse o seu propósito nas últimas décadas: ser um depósito. Um desperdício que o Grupo Esporão decidiu resolver. “Ganhámos o concurso público e temos a concessão durante 30 anos, mediante um investimento de recuperação e também de um protocolo de investigação que assinámos com o ISA”, explica Rui Falcão, responsável de comunicação e relações públicas do Esporão.
A entrada, feita através de uma porta enorme com recortes em ferro, replicados da peça original, divide o espaço em três zonas. Aqui, na zona de acesso, será a loja, com vinhos e azeites do Esporão que pode levar para casa. Do lado direito fica o restaurante e do esquerdo, que se vislumbra pelos espaços abertos da estante que exibe os produtos para venda, está o museu.
O edifício foi totalmente recuperado, mantendo a traça original e o estilo industrial, mas seria impossível falar de obras sem falar em percalços – e aqui houve um bem grande. “Descobrimos que o edifício não tinha fundações. Na prática, estava assente no terreno. Tivemos de começar a abrir o solo, o que implicou chamar a arqueologia, e foi necessário reforçar toda a estrutura”, conta Rui.
O mosaico hidráulico do chão é uma réplica do chão original, e o mesmo acontece com o mecanismo de abertura das janelas. O cuidado de recuperar e preservar os detalhes do edifício original vê-se por todo o lado, assim como o esforço de incluir pormenores que fazem a ligação com o Esporão. Na parede do fundo, oposta às janelas que iluminam o espaço, há armários antigos do ISA e aduelas de barricas nos balcões. Nas paredes e em cima das mesas há candeeiros cujo vidro foi soprado à mão – logo, são todos diferentes e únicos.
Algumas ardósias foram recuperadas e transformadas em tampos de mesas e um sofá comprido em U, de um verde um pouco mais escuro do que menta, faz a transição perfeita para a cor das árvores do lado de lá da janela, delimitando a zona do restaurante e oferecendo vista para a cozinha aberta. Há mesas quadradas e redondas e cadeiras de madeira e ferro que replicam as de um laboratório e da escola.
Em cima das mesas postas para o almoço vislumbram-se pequenos pratos de pão que têm um significado especial. “Boa é a vida, mas melhor é o vinho” ou “vinho pela cor, pão pelo sabor” garantem as frases neles gravadas. São feitos à mão e produzidos em plena Tapada da Ajuda, pela Associação Semear. A ideia é que também estejam à venda na loja, ao lado dos azeites e vinhos.
A sala tem 52 lugares e na esplanada vão sentar-se 25 pelo menos. No piso de baixo está uma garrafeira e sala de provas, mas o espaço também pode servir como sala privada para 24 pessoas.
Em Julho, a ideia é abrir para almoços, numa espécie de exercício de soft opening; os jantares só deverão começar a acontecer em Setembro. A Geradora estará encerrada dois dias por semana, à partida terças e quarta-feiras.
O menu, que ultima agora os testes, será curto e sazonal: seis entradas, seis pratos (além de alguns especiais) e quatro sobremesas. O chef Manuel Liebaut (que passou pelo Loco e pelo Fogo, de Alexandre Silva) comanda o malabarismo dos tachos. O convite para se juntar à equipa aconteceu há cerca de dois anos. Seguiu-se quase um ano a trabalhar no Alentejo, na Herdade do Esporão. “Foi importante para perceber melhor como funciona a marca e aquilo em que acredita. Foi uma fase de integração”, explica.
O que nunca vai faltar nas mesas da Geradora é o pão de massa mãe, com 5% de trigo de dois tipos. A broa de milho estaladiça também é feita aqui e chega acompanhada por azeite Esporão, azeitonas de Murças e manteiga de alho e ervas.
Na contagem decrescente até Julho, pode já começar a salivar pelas entradas. Há rabanada de sarrajão com toucinho que tem camadas, texturas e sabores distintos. “A ideia era usar o pão velho, mas de alguma forma fazer uma versão salgada. É pingado num caldo de sarrajão e frito em azeite. Por cima, leva uma salada avinagrada”, explica o chef.
A tempura de choco, com azeite e alho, tem molho de salsa por baixo e é acompanhada por limão, para refrescar, e o tártaro de vaca maturada é finalizado com um molho de pica-pau. São sabores portugueses que nos correm nas veias e de que é muito difícil não gostar. Mas há mais.
À mesa chega agora um linguado inteiro grelhado. É um exemplo dos pratos do dia que estarão anunciados numa ardósia na parede. O objectivo é que sejam uma peça de carne e um peixe inteiro, para partilhar. Haverá também uma sopa – para já, ainda não é possível recorrer à produção da Tapada da Ajuda, mas a ideia é mesmo essa, usar produtos da horta local.
“Já definimos os espaços, estamos a fazer análises ao solo. Além disso, a escola produz algumas coisas, como grão. Queremos usar os cereais, as uvas e as azeitonas daqui, por exemplo”, diz Rui Falcão.
Linguado selvagem “era o que estava disponível e com boa qualidade”, diz Manuel Liebaut, que quer basear as escolhas diárias exactamente nestes termos. É acompanhado por molho de azeite e alho e salada e um xerém cremoso que revela pequenos pedaços de nabo no interior.
Nas carnes destaca-se o panado de cachaço de porco – zero gordura e uma finíssima capa crocante –, acompanhado por salada de vagens com maionese verde e um ovo cremoso que é o elemento que liga todos os sabores do prato.
Nas sobremesas há também uma opção inteira, ideal para uma mesa com várias pessoas: o pão de ló de alfarroba, azeite e flor de sal. A época dá morangos e é com eles que Liebaut faz a proposta de morangos, flor de sabugueiro (directamente da Tapada) e gelado de leite com uma pequena placa de suspiro no topo que se desfaz na boca.
Se há pratos (principais) de conforto, esta é a sobremesa de conforto. Porém, discreta no menu, está aquela que, para já, tem de ser descrita como a estrela: sorvete de amêndoa, caramelo de amarguinha e limão. Na teoria não tem nada de entusiasmante, mas é casamento surpreendente: doce, fresco, cremoso e irreverente com o toque de limão. Pode ou não acontecer batermos à porta da Geradora antes de Julho a implorar por mais. Nesta fase não é possível dar garantias.
O Grupo Esporão tinha uma marca de cerveja artesanal, a Sovina, que no ano passado vendeu à Musa. Ainda assim, como fazia parte do projecto inicial, ao lado do edifício principal fica um mais pequeno que será um bar de cervejas. “A única diferença é que vai ser explorado pela Musa, de forma independente. A ideia é que eles possam também usar ingredientes de cá”, diz Rui Falcão.
Quando o ISA foi criado, em 1910, o espaço da Geradora estava vazio e o objectivo era fazer dele um museu. Porém, a concretização só acontece agora, 116 anos mais tarde.
Três mesas que já aqui estavam foram recuperadas e exibem agora o acervo do ISA, a universidade de agronomia mais antiga de Portugal que tem uma imensidão de peças e documentação que suportou o ensino da agricultura durante mais de 100 anos. “Há modelos em gesso coloridos e pormenorizados de flores, amostras de insectos, minerais, microscópios e livros.”
A ideia é que esta zona seja “auto-visitável”, ou seja, que qualquer pessoa possa circular pelo espaço livremente. Além disso, tem um potencial sem fim. “O espaço é bastante versátil. Podemos ter aqui uma mesa corrida e fazer uma refeição, podemos fazer um concerto intimista...”, exemplifica Rui Falcão.
Numa das paredes está uma instalação de um grupo de designers chamado Macheia que faz lembrar pedaços de cestos de vime. “São uma série de obras de arte ligadas à natureza e ao material, materiais importantes para o ISA”, diz Rui.
Ao fundo estão umas escadas que dão acesso ao piso inferior, onde também haverá uma galeria de arte instalada no corredor que faz a ligação com a outra extremidade (e as segundas escadas por onde é possível regressar ao piso de cima, em pleno restaurante). As paredes estão a descoberto, com os tijolos à vista, e também é possível ver a abertura por onde era descarregado o carvão que vinha do exterior, directamente para a cave.
As colunas são originais e o espaço é naturalmente fresco, perfeito para fugir ao calor que se aproxima.
Cerca de 70 eventos estão já definidos e, quando o espaço abrir, terá programação pelo menos ao fim-de-semana. “No final do Verão o objectivo é alargar para os finais de tarde talvez, com concertos, workshops, temas obviamente ligados ao que nos é próximo”, afirma Rui Falcão.
Com coisas a acontecer ou não, a Geradora vale por si. O edifício está envolvido na natureza e fará a diferença na cidade, chegando lá a pé ou de carro – há também uma parceria com as empresas de TVDE para que deixem os clientes mesmo à porta.
Tapada da Ajuda. Abre em Julho
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