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Calma, “Larry vai ter sempre graça”

Vinte e quatro anos depois, a icónica série ‘Calma, Larry!’ chega ao fim. Criada e protagonizada por Larry David, no papel dele próprio, fez escola e deixará saudades. Salvador Martinha e Filipe Melo juntam-se à despedida, na qualidade de fãs.

Renata Lima Lobo
Escrito por
Renata Lima Lobo
Jornalista
Larry David
©DRCalma, Larry!
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Calma, Larry! começou em 2000, ainda as emissões de televisão funcionavam no formato 4:3. Mais de duas décadas depois, embora com interregnos pelo meio, a série que apresenta uma versão ficcionalizada de Larry David chega ao fim. A 12.ª e última temporada estreia nesta segunda-feira, 5 de Fevereiro, na HBO Max. Ou melhor, o primeiro de dez episódios: os restantes estreiam nas segundas-feiras seguintes, até ao grande final, a 8 de Abril.

Larry David é, antes de mais, o criador de Seinfeld, série de comédia e de culto, famosa por falar sobre nada em particular e, talvez esticando a corda, sobre tudo no geral. Larry começou nos palcos do stand-up, e passou pelas cadeiras giratórias dos argumentistas de Saturday Night Live (o mais popular programa norte-americano de sketches), mas foi Seinfeld que o tornou num dos grandes nomes da comédia – e lançou Jerry Seinfeld, outro comediante que durante largos anos interpretou uma versão ficcionalizada dele próprio.

Ora, foi esse o ponto de partida para Calma, Larry! (Curb Your Enthusiasm, no original), produção que segue os dias de Larry David, na companhia de personagens fictícios e de pessoas bem reais – Richard Lewis, Wanda Sykes, Ted Danson –, que também assumem versões alternativas delas próprias. A diferença é que, neste universo paralelo, a consciência e a sensibilidade social, em particular do protagonista, podem ser postas na beira do prato.

Num comunicado da HBO, Larry começa a despedida a brincar precisamente com isso. “Agora que Calma, Larry! está a chegar ao fim, terei finalmente a oportunidade de abandonar esta personagem de ‘Larry David’ e tornar-me na pessoa que Deus queria que eu fosse: o ser humano atencioso, gentil, amoroso e atencioso que eu era até sair dos trilhos ao interpretar esta personagem maligna”, diz. “Larry David, despeço-me de ti. Não vamos sentir falta da tua misantropia. E para quem quiser entrar em contacto comigo, pode fazê-lo nos Médicos Sem Fronteiras.”

Os fãs Salvador Martinha e Filipe Melo

Criada sem um guião convencional, deixando espaço para a improvisação, Calma, Larry! também demonstra como pequenos detalhes da vida podem originar uma cadeia catastrófica de eventos, qual efeito borboleta que se desenrola em pequenos episódios de meia hora. Salvador Martinha – actor, comediante e autor das peças de teatro em torno da sua personagem PLIM – explica melhor à Time Out isto da construção narrativa em comédia. “Isso de não haver guião não é bem assim. Há um guião com princípio, meio e fim. Parece-me que os diálogos, isso sim, são improvisados, o que torna tudo mais real e ajuda a maquilhar as fragilidades de Larry enquanto actor. Eu sei porque é uma coisa de humorista. Regra geral, temos mais jeito para improvisar diálogos do que a interpretar textos. Se resulta, é aproveitar e não seguir fórmulas”.

Salvador Martinha, para quem “Larry vai ter sempre graça”, faz ainda uma ligação extra a Seinfeld: “Com o tempo percebemos que Larry David era a força criativa de Seinfeld. Com a série, percebemos que Larry David era na realidade George Constanza [personagem de Seinfeld]. O meu personagem preferido e o de muita gente. Calma, Larry! é uma continuação da vida de George, mas agora interpretado pelo verdadeiro George”.

Larry David
©DRCalma, Larry! (temporada 12)

Em Portugal, temos alguns exemplos de comediantes que desenham histórias nas quais participam em nome próprio. Bruno Nogueira (com Frederico Pombares e João Quadros) fez isso e foi mais longe em O Último a Sair, uma sátira aos reality shows em que um considerável grupo de famosos se tranca na mesma casa (a fingir, a fingir). Mais recentemente, o comediante Guilherme Geirinhas abriu o livro da sua saúde mental na websérie semi-biográfica Vai Correr Tudo Bem, disponível no YouTube. E há muito, muito tempo, no ano de 2007, Filipe Melo e Jorge Leitão escreveram e realizaram Um Mundo Catita, minissérie em formato mockumentary (emitido então pela RTP2) sobre Manuel João Vieira, artista plástico e criador de bandas como Irmãos Catita e Ena Pá 2000. Que ele próprio, no mundo real, vai vestindo alter-egos.

À Time Out, Melo confessa ter uma relação bastante próxima com Calma, Larry!, que acompanha desde o início, um “ritual” que não falha “há duas décadas”. “É talvez a única coisa no mundo que nunca me desapontou”, começa por escrever numa mensagem. “Aliás, estou a escrever isto a despachar, porque estou ansioso para ver o novo episódio. O Larry David é a pessoa a quem devo mais gargalhadas e a série encontra sempre novas formas de mostrar o quão absurda é a nossa sociedade. Precisávamos de um guia, de alguém que nos ajudasse a perceber como agir neste mundo estranho. Essa pessoa é o Larry David. Acho incrível que o próprio tenha exactamente a mesma energia (e aspecto físico) desde o início da série, é quase um milagre, uma lição de vida. Posso dizer que a minha maior relutância em relação à morte tem a ver exactamente com a inevitabilidade do fim desta série, que devia continuar para todo o sempre.”

HBO Max. Estreia a 5 de Fevereiro (T12)

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