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Escapadinhas gastronómicas que valem a viagem

De Braga a Portalegre, passando pelo Purgatório e pelo Porto, estas escapadinhas gastronómicas valem muito a pena

Evoramonte - Estremoz
AX
Por Nelma Viana |
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Lisboa importou restaurantes de todo o país, sobretudo (mas não só) do Norte e do Alentejo. Nada se compara, contudo, à experiência de ir comer à terra de origem. O caminho pode ser longo e demorado, mas estas escapadinhas gastronómicas valem muito a pena. Passámos o país a garfo fino para lhe dizer quais são as dez mesas que justificam cada quilómetro. Tem paragens para todos os gostos, até na Veneza de Paderne (não diga que nunca ouviu falar). Se gostar de um joguinho antes de encher a barriga, também se arranjam umas casas de pasto escondidas na paisagem.

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Escapadinhas Gastronómicas

1
Arcoense
DR
Restaurantes, Português

Arcoense

São cerca de 341 os quilómetros que separam Lisboa do melhor arroz de salpicão do país. No Arcoense, instituição gastronómica em Braga há mais de 30 anos, leva-se a comida tradicional portuguesa muito a sério, mais ainda quando se trata das especialidades minhotas. Em região de bom comer, é aqui que encontra um bocadinho de tudo o que consta do receituário local, apostado nos pratos de carne, como se espera, mas que não esquece os peixes e mariscos (e a lampreia, quando é época dela). A saber: o polvo grelhado com molho verde e o arroz de lavagante são boas opções para dar entrada à refeição, mesmo antes de se lançar nas papas de sarrabulho com rojões ou, se for dia de festa ou de muita, muita fome, no churrasco de boi, grelhado no momento e temperado só com sal. Para terminar não vale a pena vacilar, vá pela encharcada de pinhões e peça o café ao mesmo tempo.

Especialidades: Cabrito à padeiro, arroz de cabidela, caldeirada de peixe.

2
castas e pratos
© DR
Restaurantes, Português

Castas e Pratos

Peso da Régua

Local de passagem para quem vai em direcção ao Douro profundo, no Peso da Régua, encontra-se um dos segredos mais bem guardados do Norte de Portugal: o restaurante Castas e Pratos, camuflado no antigo armazém ferroviário, mesmo ao lado da estação de comboios. Na verdade não se pode dizer que seja “só” um restaurante quando, de facto, partilha o espaço com um wine bar e uma loja de vinhos. A ideia é começar logo à entrada com um copo de branco do Douro (há centenas de referências desta e de outras regiões demarcadas) e aproveitar para dar uma espreitadela à ementa antes de subir à sala de jantar, no piso de cima. Cozinha contemporânea e criativa que se serve dos produtos locais para construir uma ementa tradicional que vai buscar inspiração a outros sabores do mundo. Prova disso a canja de línguas de bacalhau salpicada com tobiko (as mesmas ovas de peixe-voador que se encontram no sushi), óptima para abrir o apetite para o arroz de carabineiros, eleito em 2015 o “Melhor Arroz de Portugal”. Se ainda tiver espaço e coragem, aproveite para partilhar o supremo de pintada em crosta de ervas, cevadinha e molho de cerveja preta.

Especialidades: Bacalhau em crosta de amêndoa, costeleta de vitela maturada.

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3
Casa Aleixo
Fotografia: João Saramago
Restaurantes, Português

Casa Aleixo

Porto

Não será exagero dizer que na Casa Aleixo se comem os melhores filetes de polvo de que há memória. Pode parecer que é fácil, que os filetes de polvo são matéria de pouca ciência na cozinha, mas só quem nunca andou às voltas com o tempo de cozedura do polvo, só quem nunca acreditou que metendo uma rolha na água se chegaria a um polvo tenro e suculento, é que lançaria tal boato. Os filetes que chegam à mesa da Casa Aleixo em travessa de alumínio, passaram por muito antes de atingirem a perfeição, desde logo esse tal ponto de cozedura que os prepara para mergulharem num polme bem carregado de ovos que depois resulta numa crosta que não se quer crocante mas macia e sem vestígios do óleo de fritura. Chegam acompanhados de uma dose generosa de arroz de polvo e, apesar de serem um dos pratos estrela da casa, encontram concorrência à altura nas tripas à moda do Porto e no cabrito assado.

Especialidade: Filetes de polvo.

4
Casa de Mattos - Sala
DR
Restaurantes, Português

Casa Mattos

Estarreja

Mesmo dominando com perícia a geografia do país, encontrar Salreu (ao pé de Estarreja) vai sempre depender da boa-vontade do seu GPS. Há uma altura do caminho em que é preciso abandonar as indicações de satélite e regressar à velha maneira portuguesa de perguntar pela Casa Mattos a quem passa. O edifício passa despercebido porque se trata de uma casa residencial e, para ajudar, não tem letreiros nem indicação de espécie alguma de que se trata de um restaurante. Isto para dizer que, sabendo que se tem à espera uma travessa simpática de pataniscas de milho ou de cogumelos e uma panelinha fumegante de arroz de buchos de bacalhau, vale bem a pena andar às voltas. A ementa do restaurante dedica-se maioritariamente a petiscos pouco convencionais, divididos entre pratos frios e quentes, e com espaço de destaque para os vinhos da Bairrada. Pergunte pelas lulas recheadas com alheira e pela orelha de porco grelhada e deixe-se guiar nas sugestões de harmonização. O espaço é escuro, numa espécie de cave, mas muito bem frequentado – basta atentar no parque automóvel do estacionamento.

Especialidades: Arroz de buchos de bacalhau e pataniscas várias.

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5
Restaurantes, Português

Quim dos Ossos

Coimbra

A julgar pelo nome da casa pode haver quem comece já a torcer o nariz e a dizer coisas como “ossos, dou-os aos cães”. Ora quem o diz é quem não sabe o que são os Ossos do Quim, nacos generosos e carnudos de osso de porco cozidos lenta e demoradamente numa água temperada com louro, malagueta, sal e azeite e que chegam à mesa acompanhados de batata e couve cozidas. Sendo uma tasca de ambiente familiar, as doses nunca são certas, ajeitando-se quase sempre a quantidade à vontade dos comensais. No fim, depois de roer os ossos até ao tutano, de limpar o queixo do fio de molho que teima em escorrer, salte directamente para o café com cheirinho e peça a conta, que geralmente é despachada logo ali com um valor estimado da refeição. O espaço é pequeno, com uma dúzia de mesas, pelo que a reserva é sempre obrigatória, tanto ao almoço como ao jantar.

Especialidade: Ossos cozidos.

6
Chico Elias
DR
Restaurantes, Português

Chico Elias

icon-location-pin Grande Lisboa

Tomar

Começou como tasca, à volta da mesa e do vinho, há 70 anos. Desde então, Maria do Céu toma conta da cozinha e o marido empresta o nome à casa. Tudo o que chega à mesa – e já lá vamos – é cozinhado em forno a lenha e, portanto, demora o tempo que demorar, pelo que uma reserva de mesa no Chico Elias deve ser feita com, pelo menos, 24h de antecedência e obriga imediatamente a escolher o que vai ser o jantar. Essa experiência, infelizmente, priva o cliente de ter na mão a ementa fotografada da cerca de meia dúzia de pratos que constam da oferta. Sem nomes, referências ou preços. Entre o coelho na abóbora, a cacholada e o cabrito no forno é o bacalhau com carne de porco que realmente faz valer a viagem. Sim, percebeu bem: na mesma travessa vão ao forno bacalhau, carne de porco e batatas que no fim são salpicados com ovo cozido e é tudo para comer em simultâneo e sem esquisitices. Termina-se à boa maneira local com as Fatias de Tomar. Como as doses são familiares, sugere-se que leve reforços. No fim, o que sobra é carinhosamente embalado por Maria do Céu e entregue para levar para casa.

Especialidade: Bacalhau com carne de porco no forno.

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7
Restaurantes, Português

O Túlio

Santana

Ali para os lados de Nisa, na pequeníssima localidade de Santana, o café da aldeia esconde um dos melhores pitéus do distrito de Portalegre. Túlio Pinto, que é o dono, chefe de sala, empregado de balcão e cozinheiro, recebe com a simpatia de quem está em casa – e está, de facto. Para chegar à sala de jantar é preciso atravessar o café, cumprimentar quem está, subir ao terraço e passar pela cozinha, onde se ouve a fritadeira em ebulição. Lá dentro, postas finíssimas de sável envolvidas num polme crocante, que dali a minutos aterram na mesa acompanhadas de uma açorda de ovas de sável e tomatada, um cesto de pão caseiro e uma taça de azeitonas. No fim, com direito a café e um copo de vinho, a refeição não deverá ficar muito longe dos 8€. Na época certa, vale a pena trocar o peixe por enguias.

Especialidade: Sável frito com ovas de tomatada.

8
A Cadeia Quinhentista
DR
Restaurantes, Português

A Cadeia Quinhentista

Estremoz

No espaço que foi em tempos a cadeia da cidade – hoje convertido em restaurante e wine bar – existe um elogio ao receituário tradicional alentejano que pouca gente conhece: o bacalhau dourado, um prato semelhante ao bacalhau à Brás mas que não leva ovos nem azeitona e que rejeita com veemência o uso de batata que não seja a cortada na hora. Reza a lenda que o bacalhau à Brás terá sido uma adaptação tosca e algo preguiçosa do bacalhau dourado e quem conta esta história é precisamente o dono da casa, também proprietário da Pousada de Santa Luzia, em Elvas, em cuja cozinha terá nascido a receita original de bacalhau dourado para safar um jantar fora de horas a um grupo de espanhóis, corria o ano de 1947. Aproveitando a viagem, suba ao terraço panorâmico d’ A Cadeia Quinhentista e acompanhe o pôr-do-sol com um copo de tinto alentejano. Belíssima carta de vinhos.

Especialidade: Bacalhau dourado.

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Restaurantes, Português

Taberna do Arrufa

Cuba

Vera e Pedro tinham o sonho de devolver à terra a tradição taberneira de outros tempos. Arranjaram o espaço, uma antiga taberna que ainda conserva as talhas de vinho na sala principal, recolheram alguns móveis da rua, pediram outros à família e de repente tinham em funcionamento um dos espaços de convívio mais movimentados de Cuba. A ementa é tipicamente alentejana, com grande destaque para o cozido de grão, a feijoada de porco preto e de vez em quando as petingas fritas com açorda de tomate. No Verão aproveita-se o quintal das traseiras para espectáculos de Cante Alentejano e outras variedades de artistas locais. No fundo, a animação tende a ser espontânea, bastando haver alguém que toque qualquer coisa e outra pessoa que não desafine muito para a festa se estender até altas horas.

10
Restaurantes, Português

Veneza

Paderne

Bem perto do Purgatório algarvio, numa localidade que se esconde entre o mar de Albufeira e a serra de Monchique, está o restaurante com a maior garrafeira de Portugal. Não contámos, uma a uma, todas as garrafas de vinho em exposição mas podemos garantir que são mais de duas centenas. Na cave haverá outras 800, o que perfaz uma colecção de mais de mil referências entre títulos nacionais e estrangeiros. Se isto não for motivo suficiente para se pôr a caminho do Algarve, saiba então que a casar com o néctar de baco há uma oferta generosa de pratos típicos da gastronomia serrana, qualquer coisa que viaja entre uma farta sopa de feijão à montanheira, o cozido de grão, as iscas de cebolada e os lombos de porco fritos em alho. Também é possível ficar-se só pelas tábuas de queijo e enchidos e deixar que a equipa de sala vá harmonizando os sabores entre os tintos, brancos, espumantes e colheitas tardias. Para terminar, a selecção de whiskeys e Portos pode tornar a refeição ligeiramente mais demorada mas muito mais fácil de digerir.

Especialidade: Cozido de grão.

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