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Vera Holtz
© Arlei Lima

Vera Holtz: “O teatro é um espaço absurdo de arte”

Vera Holtz regressa a Portugal com a peça ‘Ficções’, uma adaptação do best-seller mundial ‘Sapiens’. Em entrevista à Time Out, a actriz brasileira fala sobre a mente humana, o seu lugar no teatro e os limites da idade.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
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Aos 71 anos, Vera Holtz desempenha um dos papéis da sua vida – “a segunda Pérola”, referência à personagem que levou a cena durante cinco anos, na década de 90, na peça homónima de Mauro Rasi. Em Ficções, adaptação improvável de Rodrigo Portella (escritor e encenador) a partir do filosófico Sapiens, de Yuval Noah Harari, toma conta do palco. Como narradora, segue em monólogo durante uma hora e meia, vestindo oportunamente a pele de pessoas, animais e coisas. Com ela, tem apenas o violoncelista Federico Puppi, além de uma equipa de produção que trabalha à vista.

Uma sessão de questionamento em torno da evolução humana e do rumo que toma. Sem respostas, só motivos de reflexão, Vera lida ela própria com e exigência do texto. É um “outro código”, como explica à Time Out, distante da dramaturgia convencional. Mas que outro espaço seria melhor para contornar o cânone do que o teatro? É por isso que hesita em chamar-lhe peça – chega a preferir “jam session”, até pela intimidade que mantém com o público.

Público esse que, a partir desta sexta-feira e até 3 de Março, será o do Tivoli BBVA, em Lisboa. O espectáculo segue depois para o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, onde fica de 7 a 17 do mesmo mês. Seguem-se Póvoa de Varzim, Figueira da Foz, Vila Real, Leiria e Famalicão. De volta ao Brasil, a agenda já está completa até ao final do ano. Sem perspectivas de sossegar, Holtz vislumbra uma longa vida para Ficções.

DR

É muito surpreendente que este espectáculo tenha sido construído a partir de um livro tão complexo, polémico e existencial. Qual a sua reacção, quando foi abordada pela primeira vez para este projecto?
Foi a mesma coisa que você sentiu. Quando recebi o convite, eu falei: mas aonde é que isso pode virar uma literatura criativa? Porque não é. É um livro filosófico, científico, histórico, poético. De onde é que isso vai sair? Mas com a ideia de falar sobre a humanidade, do ponto de vista da narradora – uma mulher, um sapiens fêmea, narrando a história da humanidade –, teve uma curiosidade, foi uma surpresa. E você fica meio no limbo, não é? Eu não tinha texto, não sabia o que era o texto. A Alessandra Reis, que é a nossa produtora, me convidou inicialmente. Depois, o Rodrigo Portella, que era o director e que não tinha lido o livro, foi convidado e topou fazer sem ler o livro. Eu não conhecia o Rodrigo, não conhecia a Alessandra, não conhecia nem o Felipe Heráclito, que é o idealizador do projecto. Eu só conhecia o livro.

Fiquei surpresa. Topei, não é? Foi um impulso, realmente. Como é que nós vamos falar isso no teatro? Era óbvio, porque o teatro é um espaço absurdo de arte, de imaginação. E o Rodrigo é um director que já fez não sei quantas peças, apesar de ser jovem. Ele nasceu praticamente fazendo teatro. Ele ficou seis meses trabalhando na adaptação, e os textos iam chegando. À medida que os textos iam chegando, nós íamos estudando e tentando transformar aquilo em alguma coisa. Então, a gente não sabe se é uma peça, se é uma jam session, não é bem um sketch, são várias personagens narrando a história da humanidade.

Mesmo havendo alguma confiança, dizer sim também envolveu uma dose de risco?
Total. Foi totalmente no escuro. A gente brinca que o espetáculo foi todo movido pela paixão. O que nos conduziu foi essa paixão cega por uma obra e pelo Homo sapiens. Mas todo o mundo que entrou nesse projecto, de alguma forma, entrou no escuro, sem saber como é que ia ser do outro lado do túnel.

© Flávia Canavarro

Uma das características do livro é a imparcialidade com que o autor aborda episódios da História como o esclavagismo ou a ascensão da Alemanha nazi. A peça mantém esta neutralidade?
Sim, é um espectáculo para levantar questões. Não dá respostas. Vai jogando perguntas. Você está satisfeita? Você está satisfeito? A gente conduz você a pensar. É uma reflexão pessoal, individual. Não tem julgamento, não tem solução.

A própria Vera veste essa pele de entidade externa?
É uma narradora, né? Eu tenho algumas personagens que falam. Eu não sou o asno, mas eu convido vocês a imaginar que eu sou um asno. Agora eu sou um fóssil e convido vocês a imaginar que eu sou um fóssil. Então, trabalho com essa questão da imaginação. E solicito, às vezes, à plateia para a reagir. Há um jogo. E trago ela, às vezes, para cantar comigo. Então, tenho esse sentido de cooperação. Isso é um tempo de reflexão, nós todos juntos ali. Não tem, talvez, forma melhor de você estar num teatro – com uma plateia, todo mundo ali na mesma condição, a gente refletindo sobre questões. Todos no mesmo plano, sem julgamento. A expansão de consciência passa um pouco por isso. Não tem que ter julgamento. Ali você está tendo um insight sobre tudo – sobre a narrativa, sobre o que o autor propõe no livro, sobre essa extraordinária capacidade que o Homem tem de criar histórias, de inventar histórias.

Daí 'Ficções'.
Daí as Ficções. E além de ele acreditar, ele passa para o outro e o outro passa a acreditar junto. E essa capacidade que ele tem de criar, né? Falo também da fofoca. Porque a fofoca é uma capacidade importantíssima para o Homem viver em grupo, para saber quem está com quem, quem gosta e quem não gosta, quem está contra e quem está a favor. Essa é a primeira rede de interligações.

Que reflexões é que o texto lhe tem suscitado?
Eu falo que é uma mão dupla. É inacreditável, porque já são cento e poucas apresentações, e todo dia penso: meu Deus, eu estou falando sobre isso. Eu tenho um insight de alguma coisa que eu não tinha pensado, sabe? Essa questão de que tudo é inventado, isso eu já tinha estudado um pouco com o sistema de crença do Homem. Você inventa. E se você inventa, você pode criar e pode descriar. Mas você só descria criando uma nova crença. Então, para mim, é bacana poder dividir isso com as pessoas. Que as pessoas também expandam um pouquinho a consciência nesse sentido.

Essa questão já tinha surgido quando leu o livro pela primeira vez?
A gente fez alguns cursos de expansão de consciência também. Falam muito sobre crença – o que você está acreditando, crença transparente, crenças obstrutivas. Você nem imagina que aquilo é uma coisa que você inventou e que você continua acreditando, mas que está só impedindo o seu desenvolvimento, o seu seguir em frente. E esse é um recorte bem presente na obra.

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DR

E de todos os aspectos da trajectória da humanidade, há algum que lhe suscite especial preocupação?
Acho que é a continuidade da humanidade. Você ter fé na humanidade. Porque esses conflitos todos, se você pega a História, eles são permanentes. É um ciclo comportamental. Tem uma hora até que eu falo sobre isso: está tudo com problema – o ecossistema está com problema, a economia está com problema. Mas eu acredito na humanidade, ela tem continuidade. E a personagem é uma mulher que quer ter filho. Ela fala: “eu quero ter um filho para que novos mundos sejam inaugurados.” Isso é um problema que nós estamos vivendo sério hoje, com as guerras. Não sabemos o que pode acontecer, mas também pode não acontecer. E para isso a gente tem que ter fé nessa continuidade.

O texto apresenta ele próprio essa bifurcação, com a angústia de um lado e a esperança do outro.
Tanto é que o nosso director foi para a angústia. Ele chegou uma hora que não aguentava mais esse pessimismo. Esse lugar que o autor estava levando ele. Porque, ao mesmo tempo que ele foi descobrindo a obra, ele tinha uma urgência de escrever o texto. Então, essa emoção foi passando para o teatro, foi indo para o texto. E aí ele deu uma transbordada, sabe.

Este espectáculo deixa-a muito exposta. É um monólogo, o cenário e os figurinos são despojados e até a equipa de bastidores trabalha à vista do público. Foi também isso um desafio, mesmo ao fim de todas estas décadas de carreira?
Difícil foi entrar nesse trabalho. Porque não é uma obra de dramaturgia, foi feita a partir de uma obra científica, com filosofia, história. Então, é um outro código. Inclusive tem os verbos científicos, não são verbos de acção, não são verbos de emoção. Tem esse rigor no texto e não tem como você mudar o verbo de ciência. Tudo isso foi para mim bastante desafiante. E as limitações também da idade. Eu tenho hoje 71 anos de idade. Memória, né? É um instrumento de trabalho e, de repente, você tem que afiná-lo de forma diferente. Voz, memória, corpo, agilidade gestual. De repente, você fala e o tempo físico é outro, a memória vai para outro lugar, a voz para outro lugar. Essa foi uma surpresa. Aprendi a conviver com isso e a me adaptar. Como afinar esse corpo com o maior cuidado para que ele resista a quatro sessões por semana? E fique bem?

© Arlei Lima

Como é que se preparou para isso?
Para entrar em cena, você tem que fazer meia hora de corpo. Tem preparador de voz também. Aquecer a voz. Então, eu chego umas duas horas antes só para fazer todo o aquecimento, me integrar com a companhia.

O espetáculo exige também uma hipersensibilidade em relação ao público.
Sim, o tempo todo. Cada público é de um jeito. Nós fizemos esse espectáculo no Brasil e cada estado brasileiro tem um comportamento distinto. E cada lugar trouxe uma coisa nova para a gente. De olhar, reacção, conversa após o espetáculo. O ponto de vista de cada região é distinto. Eu já fiz Intimidade Indecente aqui, era uma história da longevidade de um casal. No caso, a peça se completa com a participação da plateia – aonde ela riu, aonde ela não riu, aonde ficou em silêncio. Isso é impressionante. A cada dia, é uma pulsação nova.

Pela experiência que já tem em Portugal, o que é que espera do público?
Eu não crio muita expectativa, mas estou super motivada. Pelo que eu vi na última vez, é espectacular o público daqui. Ele vem junto com a gente. Eles são muito amorosos e generosos no final, nos aplausos. Nós vamos chegar juntos no final do espectáculo, não tenho dúvida disso.

Estreou o espectáculo em Setembro de 2022. Acha que 'Ficções' pode vir a ser o papel da sua carreira, o que melhor sintetiza o percurso de Vera Holtz como actriz?
Sim. Eu tive um grande papel chamado Pérola, que eu fiquei cinco anos. Essa peça foi muito importante na década de 90. Fiquei muito tempo em cartaz, fiz 800 apresentações. Eu acho que Ficções já é para mim esse lugar. Já é um segundo movimento, já numa outra fase da vida. Nós ganhámos já vários prémios, o que foi uma resposta muito feliz e muito interessante da crítica, do pessoal especializado. Não tenho dúvida nenhuma – Ficções é a segunda Pérola, a segunda jóia na minha vida.

Por ser também a confirmação da sua vitalidade enquanto atriz?
E sentir isso aí também. Como a gente pode ser longeva, desde que você respeite os seus limites. E como o teatro é generoso com a gente nesse sentido. Depende dos papéis também. Cada suporte é um suporte, são distintos, O teatro depende de você e da sua equipe. É diferente, é outro lugar. Acontece naquele tempo ali e acaba. É bem mais íntimo. Eu acho que essa peça tem um tempo ainda. Vai para São Paulo, depois faz Norte, Nordeste. E aí, de acordo com a resposta do público, ela pode avançar mais um, dois anos.

Tivoli BBVA (Lisboa). Qui-Sáb 21.00, Dom 17.00. 9 Fev-3 Mar. Teatro Sá da Bandeira (Porto). 7-17 Mar. 15€-25€

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