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'The Butterfly’s Burden' de RAFI die Erste
Fotografia de Joze Far'The Butterfly’s Burden' de RAFI die Erste

As novas intervenções de arte urbana no Porto

Não faltam artistas a fazer das ruas do Porto a sua galeria e a mostrar trabalhos com qualidade e consistência em diferentes partes da cidade. Conheça os mais recentes.

Escrito por
Ana Patrícia Silva
e
Maria Monteiro
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Em 2014, arrancou o programa municipal de arte urbana, que veio dar um novo alento aos artistas urbanos e writers do Porto, que durante anos viram o seu trabalho bloqueado pelas brigadas anti-graffiti camarárias. Desde então, surgiram várias paredes legais e iniciativas municipais para promover a realização de intervenções públicas, mas actualmente a força da arte urbana portuense deve-se à vontade dos artistas em embelezar as paredes da cidade. Continuam a faltar espaços designados para o efeito, por isso muitas destas obras são feitas em entaipados de edifícios abandonados ou degradados ou em prédios onde é dada autorização pelos proprietários para tal. Ainda assim, surgem obras novas praticamente todos os meses, por isso é bem provável que dê com uma ao virar da esquina. Tome nota das novas intervenções de arte urbana no Porto.

Recomendado: Roteiro da arte urbana no Porto

 

Novas intervenções de arte urbana no Porto

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Em Março de 2022, MrDheo pintou uma homenagem à resistência do povo ucraniano. Numa parede da Rua Roberto Ivens, em Matosinhos, pode ver-se uma figura com as cores da bandeira da Ucrânia e um símbolo alusivo à paz, rodeado pela destruição da guerra. "Esta é a minha homenagem a todos os que perderam a vida, aos que tiveram de fugir do seu país e sobretudo a quem continua no terreno a desafiar o destino. À união de um povo, à defesa da sua honra e à sua resiliência em prol da bandeira. Um apelo para que os valores humanos falem mais alto e para que a paz prevaleça", diz o autor.

Rua Roberto Ivens, Matosinhos

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Se as paredes do Porto falassem, teriam muito para contar sobre a cidade. E há paredes que parece mesmo que falam, graças ao talento e à sensibilidade dos artistas que as pintam. Na Foz do Douro, uma das zonas mais nobres do Porto, MrDheo chama a atenção para o flagelo dos sem-abrigo. "Tanta gente sem casa, tanta casa sem gente" é a frase que se lê na parede que pintou, em que está retratado um homem a dormir, deitado num banco. Quando divulgou este mural, MrDheo citou notícias que dão conta de que Portugal terá cerca de 7100 pessoas na condição de sem-abrigo, acrescentando que a pandemia poderá ter agravado a situação.

Foz do Douro

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A praça actualmente conhecida como Campo 24 de Agosto chamou-se, em tempos, Campo de Mijavelhas. Ali existia um reservatório, construído no século XVI, que fornecia água às fontes e chafarizes da cidade, para servir os portuenses que não tinham poço. Era aí que se abasteciam também as aguadeiras, mulheres que transportavam e vendiam água pelo Porto e que estão agora homenageadas num mural de arte urbana. A obra foi criada pelo artista portuense Tiago Gomes, conhecido nas paredes como Godmess. "Nesta poesia visual através de uma linguagem pictórica contemporânea, o artista reencontra o passado e o presente de um mesmo lugar. Na cor da cidade e dos seus espaços, um percurso circular dos mananciais de outro tempo que correm nos corpos até ao mar, numa simbiose entre a natureza e a mulher", diz o texto descritivo do mural. 

Campo 24 de Agosto

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Teresa Rafael, mais conhecida como RAFI die Erste, anda há vários anos a dar mais cor e poesia às paredes do Porto. Este mural pode ser visto no cruzamento entre a Rua de Vilar e a Rua de D. Pedro V, num dos postos de transformação da EDP. A obra foi inspirada no livro The Butterfly’s Burden, do poeta e escritor palestiniano Mahmoud Darwish, e, segundo a artista, pretende ser um "poema visual", criando uma ponte entre o observador e “um raio de luz” que é revelado quando paramos para a contemplar. Na lateral da parede, estão representados dois elementos importantes da sua vida – as suas cadelas, Faza e Daisy.

Cruzamento entre a Rua de Vilar e a Rua de D. Pedro V

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A Rua Antero de Quental está mais bonita. Na lateral de um edifício no cruzamento com a Rua de Damião de Góis, foi pintado um mural que eterniza as camélias em forma de obra de arte. Em 2021, perante a impossibilidade de realizar a tradicional Exposição de Camélias na cidade, o município convidou o artista Nuno Palhas, que assina nas paredes como Third, a criar um mural inspirado pela flor mais icónica da cidade. A Casa das Camélias é "a representação do espaço habitado por um apaixonado pela flor, que navegou desde o continente asiático até ao Porto". Os elementos representados "guiam-nos nessa história, que decorre no período de floração da camélia. O ambiente estival, caloroso e acolhedor surge em continuum com a cidade do Porto, que a cada florir nos encanta", explica a nota descritiva da obra.

Rua Antero de Quental, Porto

Profissionais de saúde
© Marco Duarte

Profissionais de saúde

Os heróis deste tempo não vestem capas esvoaçantes. Envergam batas brancas e todos os dias dão o corpo às balas para combater o bicho que virou o nosso mundo de pernas para o ar. Em Junho de 2020, o artista Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, homenageou os profissionais de saúde com um mural numa parede exterior do Hospital de São João. A obra mostra os rostos de dez médicos, enfermeiros, auxiliares, administradores e técnicos do hospital, um dos centros de referência de tratamento para a covid-19, registadas com a grande escala e sensibilidade a que o artista nos habituou. 

Hospital de São João, Porto

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Anjos na Terra
©DR

Anjos na Terra

No dia 9 de Novembro de 2020, o primeiro de cinco dias de greve dos enfermeiros, MrDheo desvendou a sua homenagem aos profissionais de saúde, em Vila Nova de Gaia. Chama-se "Anjos na terra" e mostra a figura de Sofia, uma enfermeira que ficou infectada com covid-19 enquanto exercia as suas funções no Hospital de São João, a combater o vírus. "Obrigado enfermeira Sofia, obrigado a todas as Sofias", agradeceu o artista nas redes sociais.

Vila Nova de Gaia

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Os 14 módulos da parede de sustentação dos jardins do Palácio de Cristal, estendida ao longo de 70 metros, entraram em 2022 com novas cores, com os trabalhos dos artistas seleccionados no âmbito do Programa de Arte Urbana do Porto. Os novos projectos são assinados por Inês Arisca, Pablo Cidad (Arte Seiva), André Eiras, Paula Rezende, Gustavo Carreiro, Rute Costa e Filipa Fonseca (Sphiza), que foram seleccionados por um júri composto por Hazul, Patrícia Costa e Miguel Sousa. Esta é a sexta fase do Mural Colectivo da Restauração, um projecto rotativo e de carácter anual.

Rua da Restauração, Porto

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O Parque de Nova Sintra ganhou mais cor em 2021 com instalações de artistas portuenses. Uma delas é da autoria de Tiago de Carvalho, conhecido como Oaktree. "Decidi retratar os cinco pilares da energia renovável: geotérmica, hidráulica, solar, eólica e biomassa", explica o artista. "Estes painéis pretendem capturar a atenção com a beleza do mundo natural, enquanto reforçam a importância de apostar cada vez mais num futuro ecologicamente consciente."

Parque de Nova Sintra, Porto

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Natural da Roménia, a viver em Portugal desde 2008, Daniel Padure é o autor de "Water Cycle" (Ciclo da Água), o novo mural localizado junto ao Reservatório dos Congregados, na Rua da Alegria. A obra pretende ilustrar "a profunda ligação do ser humano à água", segundo o site do município. Esta sequência de imagens, estendidas por quase 50 metros, conta a história de uma personagem que interage com o movimento contínuo da água, essencial à sua sobrevivência.

Junto ao Reservatório dos Congregados, na Rua da Alegria

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Da autoria de MrDheo e Pariz One, esta obra de arte urbana em grande escala está recheada de coloridas alusões à história da arte através dos séculos, com referências a Tintim, Michelangelo, The Simpsons ou Super-Homem, que surge aqui com um "Q" ao peito – uma homenagem ao arquitecto José Quintela da Fonseca (1946-2020), com quem MrDheo já tinha feito outros projectos em residências de estudantes em Lisboa (2017) e no Porto (2019). "Quintela era um visionário. É difícil dizer tudo em poucas palavras, mas ele acreditou e lutou pelo nosso trabalho de uma forma que lembrarei para sempre", diz MrDheo, referindo ainda como era "difícil para ele ir contra tantas mentes fechadas e as lutas que fazia nos 'bastidores'" e o quanto ele gostava de BD, tendo em casa uma extensa colecção que começou quando era muito jovem. E acrescenta: "Por isso, no topo do último prédio que ele projectou, o Super-Homem tem a letra Q ao peito. Para eternizar a vida e a obra de um grande homem e amigo. Gostava que ele pudesse ver o resultado final ao nosso lado, mas sei que ele está orgulhoso e grato. Foi uma honra pintar a sua última obra-prima".

Rua Monsenhor Fonseca Soares, Boavista.

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A Câmara Municipal de Gaia, através do projecto "Meu Bairro, Minha Rua", convidou Nuno Palhas, que assina nas paredes como Third, a pintar um edifício no Cedro. Com esta intervenção, o artista quis representar a ligação entre a comunidade e o bairro. "Como gaiense tenho muitas memórias dos bairros populares, de passar especificamente pelo Bairro do Cedro, cheio de estendais, mulheres diligentes nas suas lides, atentas aos filhos que brincavam por perto e aos muitos cães que teimavam em saltar às roupas", diz o artista. "Procurei representar essas memórias de um quotidiano simples, que actualmente tem outras rotinas, mas onde se mantém vivo o sentido de comunidade."

Bairro do Cedro, Vila Nova de Gaia

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Mário Fonseca (Oker) nasceu na Maia, onde começou a dar os primeiros passos no mundo do graffiti em 1999. Hoje desenvolve trabalhos no âmbito da ilustração, graffiti e street art, tendo já colaborado com marcas como a Super Bock ou a Red Bull. O seu estilo é distinto, com traços coloridos, contornos bem marcados, formas abstractas e personagens animadas. Um dos seus trabalhos mais recentes chama-se Juntos e adequa-se bem a estes tempos.

Rua de Oliveira Monteiro

 Profissionais de saúde
© DR

Profissionais de saúde

Em Vila Nova de Gaia, o nobre trabalho dos profissionais de saúde também ficou gravado num mural de 200 metros quadrados, no Centro Hospitalar de Gaia. O autor é Miguel Mazeda, artista gaiense que assina como Guel Do It, que, além de somar colaborações com reputadas marcas e instituições, tem trabalhado com associações ligadas à habitação social e ao acolhimento de crianças em risco. Foi esse espírito solidário que o levou a misturar o realismo e a fantasia para imortalizar os protagonistas, adultos e crianças, do serviço hospitalar, num mural onde o azul se destaca.

Centro Hospitalar de Gaia/Espinho I

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Modern Parenthood
© DR

Modern Parenthood

As obras de MrDheo reflectem a visão atenta e crítica do que o rodeia – e prova disso são as constantes referências à dimensão que as redes sociais ocupam no nosso dia-a-dia. Este mural alerta para a necessidade de os pais tirarem os olhos do ecrã para estarem presentes na vida dos filhos, em tempo real e sem filtros.

Vila Nova de Gaia

Stinker’s mating season
© Marco Duarte

Stinker’s mating season

As ruas do Porto são o recreio dos lobos traquinas de Fedor, que vai revelando diferentes facetas e peripécias das personagens em cada muro que pinta – como se fosse uma espécie de capítulo novo num livro. Seja a representá-los com um ar feroz, mansinho, endiabrado, festivo ou apaixonado, como numa das suas peças recentes, o artista do Colectivo RUA vai construindo uma verdadeira alcateia pela cidade fora. É estar atento ao virar de cada esquina.

Rua Antero de Quental (perto do nº 34)

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Comedian 02
© Marco Duarte

Comedian 02

Poucos murais terão sido tão fotografados como o de Kilos Graffiti nos últimos tempos. E é fácil perceber o apelo desta imagem tão satírica quanto instagramável. Trata-se do rosto de Donald Trump com os olhos tapados por um adesivo cinzento e uma banana na boca, clara referência à polémica obra de Maurizio Cattelan vendida por um valor astronómico no final de 2019. Esta é apenas uma de várias paredes que se tornam statements nas mãos de Kilos, artista que escrutina a actualidade política, económica e social nas suas obras através de uma estética realista impressionante.

Rua Formosa (perto da ACE Escola das Artes)

Solidarity with Polish women
© Marco Duarte

Solidarity with Polish women

Radicada no Porto desde 2016, a artista polaca Berri Blue retrata vultos negros, figuras femininas completamente desinibidas com o seu corpo e rostos com traços femininos e masculinos, para abordar temas como identidade, sexualidade, saúde mental e morte, com um toque leve e colorido. Este trabalho mostra um corpo feminino mutilado e é uma afirmação de solidariedade para com as mulheres do seu país natal, que protestam contra a proibição do aborto.

Escadas do Pinheiro (em frente ao Café Candelabro)

Mais arte no Porto

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Que o Porto é uma cidade cheia de arte já nós sabemos. Ora, o que o leitor pode não saber é onde encontrar essa mesma arte. Na rua? Sim, claro. Mas também pode entrar sem medos numa das melhores galerias de arte no Porto. Entra, dá uma vista de olhos, e se quiser levar um pedacinho de arte para casa mal não lhe vai fazer. Pelo contrário.

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