Clássicos de cinema para totós – Terror. Lição 2: 1951-2000

É Halloween. Não é altura para um totó fraquejar e baquear perante referências cinematográficas. Pelo contrário, é citando clássicos obscuros que o cinéfilo totó pode brilhar. É para isso que o serviço público do cinema para totós regressa.

Morte Cerebral (1992)

A segunda metade do século trouxe a definitiva massificação do cinema de Hollywood, a queda sucessiva de tabus e praticamente o fim da censura. O que muito beneficiou o cinema de terror, que se tornou cada vez mais chocante e radical. O tempo da inocência acabou.

+ Perdeu a primeira lição? Aqui tem os clássicos de cinema para totós – Terror da primeira metade do século.

Clássicos de cinema para totós – Terror. Lição 2: 1951-2000

A Mosca (1958)

Por esta altura a América vivia em paranóia nuclear, ou, em alternativa, fascinada com o desenvolvimento tecnológico, mas amedrontada com a ideia de que este podia dar para o torto. O filme de Kurt Neumann explora esses medos de maneira exemplar, para mais tendo em frente às câmaras Vincent Price, uma espécie de príncipe das trevas de Hollywood. Na história, um cientista, André Delambre (David Hedison), põe-se a fazer experiências e, quando dá por ele, substituiu a cabeça e o braço esquerdo pelos membros de uma mosca.

O Sacrifício (1973)

Fora de Hollywood o cinema de terror era, talvez, menos praticado, mas nem por isso deixava de fazer parte de dieta cinematográfica, e O Sacríficio, de Robin Hardy, é sem dúvida dos mais importantes entre a produção britânica. É, igualmente, um dos mais estranhos filmes jamais realizados. Tendo no elenco outro príncipe das trevas encartado, Christopher Lee, a história centra-se num devoto detective cristão (Edward Woodward) que viaja para uma ilha repleta de pagãos celtas e suspeita de que aquela paganagem, apesar da sua extraordinária simpatia, anda a fazer maldades às crianças. Parece simples, mas o realizador encontrou maneira de fazer o herói parecer o vilão, os vilões passarem por vítimas (ou vice-versa?), no processo, de reviravolta em reviravolta, acrescentando camadas suplementares de suspeição que tornam o filme muito pouco convencional, e, se calhar, mesmo ousado, embora hoje continue a ser um pesadelo semiótico.

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Suspiria (1977)  

Com as suas partes bem divididas entre o thriller psicológico, violência gratuita e mistério, a obra-prima de Dario Argento permanece o mesmo quebra-cabeças a que parece faltarem peças para apurar a razão e a responsabilidade dos assassinatos que se sucedem naquela academia de dança de maneira cada vez mais sobrenatural. Mais do que o enredo é o trabalho de realização, a utilização da cor e os engenhosos movimentos de câmara, mais os contentores de sangue despejados em cena, sem esquecer a doentia banda sonora dos Goblin, um grupo de rock progressivo alemão, que coloca esta película bem à frente da manada de sub-subprodutos próprios do género.

House (1979)   

Uma vez apresentado em Portugal, em 2010, durante o MotelX, o filme de Nobuhiko Ôbayashi é uma experiência única, apesar de se tratar de uma singela história de casa assombrada. O entrecho leva um grupo de raparigas de passeio pelo campo até à casa em questão. Mostrando como a tontaria, a morbidez, e outros pormenores igualmente sórdidos podem ser filmados com alguma beleza ao ponto de serem fascinantes, o realizador leva as moças por uma jornada em que terão de enfrentar pianos capazes de comer dedos e outras bizarrias para daí não tirarem qualquer lição.

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Shining (1980)

A década de 1980 foi, em alguns aspectos, sem dúvida, prodigiosa, e, no caso concreto do cinema de terror, particularmente criativa, começando com um dos mais perfeitos filmes do género. Saber que Stanley Kubrick é o realizador desta adaptação de um romance de Stephen King ajuda a compreender a qualidade estética da película. Porém, apesar do génio do realizador, é a Shelley Duvall e, principalmente, a Jack Nicholson, no papel do transtornado escritor sem inspiração Jack Torrance, que se deve grande parte do impacto da película. Claro, sangue a transbordar em catadupas de elevadores ajuda bastante.  

Experiência Alucinante (1983)

David Cronenberg já tinha os seus pergaminhos como realizador do género quando dirigiu Videodrome (ou Experiência Alucinante, em Portugal), mas desta vez a sua obsessão com o corpo e as suas vulnerabilidades a estímulos exteriores ou interiores, consequência de qualquer tipo de contaminação, foi um pouco mais além, tornando a obra, além de incontornável para qualquer cinéfilo que se preze, o ai-jesus dos Estudos Culturais no final do século XX. James Woods é, aqui, director de um canal de televisão particularmente manhoso nas suas escolhas de programação, em permanente busca de conteúdos quanto mais escabrosos melhor. É então que se depara com a emissão pirata que vai mudar a sua vida, não apenas por conhecer carnal e psicologicamente Debbie Harry (a vocalista dos Blondie, sim), mas, mais do que tudo, porque a sua obsessão pela tortura emitida pelo canal o contamina transformando-se numa espécie de sadismo como forma de catarse alucinatória.

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Pesadelo em Elm Street (1984)

Sem ser o melhor filme de terror, a película de Wes Craven, é, sem dúvida, um dos melhores exemplos de cinema dedicado à carnificina sobrenatural, e um dos mais influentes registados por Hollywood, criador de uma descendência de malfeitores mascarados vindos do além que, mesmo há muito perdido o fôlego inicial, ainda dá frutos. Robert Englund é o assassino Freddy Krueger invadindo os sonhos adolescentes com os seus dedos-navalha (que Tim Burton satiriza em Eduardo Mãos de Tesoura) despachando vítimas sem dó nem piedade – o que pode ser visto como metáfora sobre a adolescência, mas, na verdade, não é mais de que uma orgia de violência descabelada dirigida aos mais baixos instintos dos espectadores.

O Soro Maléfico (1985)

Stuart Gordon juntou uma mistela verde com mortos-vivos, pacotes de sangue e paletes de tripas, mais uma quantidade de outros nojentos horrores e q.b de humor negro, assim a modos como quem quer esconder o seu argumento num fogo de artifício de efeitos arrepiantes. O que parece um exagero, até por a história vir de conto de H.P. Lovecraft e o argumento de Dennis Paoli ser sólido e – enfim – coerente, no entanto acaba por ser fundamental para o impacto da película. Embora a mais-valia de O Soro Maléfico seja o delírio do argumento e a tresloucada interpretação de Jeffrey Combs, no papel de estudante de medicina armado em Dr. Frankenstein, que descobre como ressuscitar cadáveres e desencadeia uma miríade de acontecimentos, todos eles desagradáveis – para dizer o mínimo.

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Morte Cerebral (1992)

Peter Jackson talvez ambicionasse já realizar O Senhor dos Anéis, mas não dizia nada a ninguém e, por esta altura, entretinha-se a fazer uma carreira onde o bizarro e o terror desempenharam um papel determinante, antes de se dedicar a coisas mais profundas, como o delicado Amizade Sem Limites, um ano depois. Até aqui, com Carne Humana Precisa-se e Feebles, os Terríveis, o director neo-zelandês preparara o terreno para uma das mais extraordinárias sátiras ao cinema de terror. Misturando comédia de abrir e fechar portas com gore do mais sumarento e cinema de zombis grotesco, tudo temperado por linguagem do mais ordinária e escatológico em cenas tão maradas como o jantar de mortos-vivos e o respectivo massacre final, Morte Cerebral tornou-se um clássico.

O Projecto Blair Witch (1999)

A ideia de Eduardo Sánchez e Daniel Myrick está longe de ser original (cf. Mundo Cão ou Holocausto Canibal s.f.f.), mas sem dúvida que estes então jovens realizadores souberam aproveitar a ideia do documentário elaborado a partir de imagens supostamente encontradas depois de qualquer tipo de catástrofe, principalmente envolvendo mortes em condições por esclarecer. O documentário choque deu, aqui, lugar ao na altura ainda incipiente falso documentário, que agora se usa por tudo e por nada. Sánchez e Myrick são especialmente habilidosos na criação da dúvida, na instilação da existência de um poder oculto, não necessariamente sobrenatural, contudo tão maléfico e destrutivo como uma maldição vinda algures do princípio dos tempos, deixando ainda espaço para a interpretação ecologista da vingança da floresta contra os humanos – o que provavelmente é esticar demais a corda da semiótica.

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