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Miles Davis
©Oliver Nurock Miles Davis

Dez versões de “Corcovado”

Como uma canção plácida e embaladora, com vista para o morro do Corcovado, se converteu numa favorita dos músicos de jazz

Por José Carlos Fernandes
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Talvez seja preciso ser carioca, ou pelo menos brasileiro, ou, vá lá, católico, para sentir empatia com o verso “Da janela vê-se o Corcovado/ O Redentor, que lindo”. A estátua de 38 metros de altura do Cristo Redentor que se ergue no alto dos 700 metros do morro do Corcovado poderá ser um ícone do Rio de Janeiro e da fé cristã brasileira, mas, do ponto de vista escultórico, filia-se menos em Michelangelo do que no brutalismo soviético que, aliás, entrou em voga na altura em que a estátua foi erguida, entre 1922 e 1931, e o adjectivo “lindo” dificilmente se lhe aplica.

A canção foi composta em 1960 por Antônio Carlos Jobim e quando, mercê da febre da bossa nova nos EUA, ganhou uma versão em língua inglesa, da autoria de Gene Lees, este entendeu que o Redentor não diria nada a quem não fosse brasileiro e removeu o Cristo Redentor, o Corcovado e o Rio de Janeiro: a canção passou a chamar-se “Quiet Nights of Quiet Stars” (por vezes apenas “Quiet Nigths”), a letra passou a sugerir uma atmosfera abstracta de serenidade e apaziguamento e a janela de onde se via o Corcovado passou a dar “para as montanhas e para o mar”.

Nos 59 anos entretanto transcorridos, a canção tem sido alvo de versões por gente tão diversa quanto Evertything But the Girl, a soprano Karita Mattila, Senõr Coconut & His Orchestra e o duo Andrea Bocelli & Nelly Furtado (numa interpretação pavorosa), mas esta lista ficar-se-á sobretudo pelo jazz.

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Dez versões de “Corcovado”

João Gilberto

Ano de gravação: 1960
Álbum: O Amor, o Sorriso e a Flor (Odeon)

O primeiro a gravá-la foi João Gilberto, no seu 2.º álbum, em que Antônio Carlos Jobim foi não só o compositor mais representado como o responsável pelos arranjos e direcção musical. O Amor, o Sorriso e a Flor foi lançado logo em 1960 nos EUA pela Capitol, com o título Brazil’s Brilliant João Gilberto, e foi decisivo para dilatar o seu prestígio para lá do círculo muito restrito dos conhecedores americanos que tinham acedido ao álbum Chega de Saudade.

Jon Hendricks

Ano de gravação: 1961
Álbum: ¡Salud! João Gilberto, Originator of the Bossa Nova (Reprise)

No ano seguinte já o cantor Jon Hendricks incluía a versão inglesa no seu álbum de tributo a Gilberto, com arranjos de cordas por Tom Jobim.

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Miles Davis

Ano de gravação: 1962
Álbum: Quiet Nights (Columbia)

Em meados de 1962 o jazz americano estava em polvorosa com o sucesso do single “Desafinado”, do álbum Jazz Samba, de Stan Getz & Charlie Byrd, e as editoras começavam a pressionar os músicos que tinham sob contrato para que também eles entrassem em estúdio para apanhar aquela onda. Miles Davis sempre fora muito senhor do seu nariz e, para mais, em 1962, gozava do sucesso granjeado por uma sucessão de álbuns geniais, entre os quais estavam Kind of Blue (1959), Sketches of Spain (1959) e Someday My Prince Will Come (1961). Mas nem ele foi capaz de fazer face à febre da bossa nova que acometera os executivos da Columbia.

O trompetista foi emparelhado com a orquestra de Gil Evans e um repertório de toada brasileira, mas as sessões de gravação não correram bem. A Columbia fez sair os singles com “Corcovado” e “Aos Pés da Cruz” (de Marino Pinto e José Gonçalves), que passaram despercebidos, e Davis e Evans acabaram por concluir que o projecto estava num beco sem saída e abandonaram-no. O produtor Teo Macero, antevendo que a Columbia não iria gostar de saber que meses em estúdio com uma orquestra tinham redundado em quase nada, colou o que conseguiu aproveitar das sessões Davis/Evans a uma faixa do quinteto de Davis registada em 1963 e, em 1964, fez sair, à revelia do trompetista, o álbum Quiet Nights. Miles Davis ficou furibundo e com razão: com excepção de “Corcovado”, o seu conteúdo é anódino e bem abaixo do padrão a que Davis habituara o seu público.

Julian “Cannonball” Adderley

Ano de gravação: 1962
Álbum: Cannonball’s Bossa Nova (Riverside) No final de 1962, o prolífico saxofonista Julian “Cannonball” Adderley já contabilizava duas dúzias de álbuns como líder, era visto como figura de proa do hard bop e não dera mostras de inclinações latinas. Todavia, isso não o impediu de trocar o seu quinteto pelo sexteto do pianista brasileiro Sérgio Mendes e de gravar um álbum marcado pela bossa nova. Nas sessões participaram Durval Ferreira (guitarra), Octávio Bailly Jr. (contrabaixo), Dom Um Romão (bateria) e, nalgumas faixas (mas não em “Corcovado”), Pedro Paulo (trompete) e Paulo Moura (saxofone).

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Stan Getz & João Gilberto

Ano de gravação: 1963
Álbum: Getz/Gilberto (Verve) Tal como aconteceu com “Garota de Ipanema”, a consagração definitiva de “Corcovado” veio com a versão bilingue, com responsabilidades vocais repartidas entre João Gilberto e Astrud Gilberto, registada em Nova Iorque em 18-19 de Março de 1963 (ver Dez versões de “Desafinado”), com Stan Getz (saxofone), Tom Jobim (piano), Sebastião Neto (contrabaixo) e Milton Banana (bateria).

Stan Getz & Laurindo Almeida

Ano de gravação: 1963
Álbum: Stan Getz With Guest Artist Laurindo Almeida (Verve)

O frenesim da bossa nova nos EUA era tal que, apenas dois dias depois das sessões com João e Astrud Gilberto, já Stan Getz estava de novo a gravar um disco de bossa nova, desta feita com o guitarrista Laurindo Almeida, que desde 1953, pugnara, em associação com Bud Shank, pela fusão do jazz e da música brasileira – com magros resultados. A sessão contou com George Duvivier (contrabaixo) e Dave Bailey, Edison Machado ou José Soorez (bateria).

Porém, talvez porque o mercado do “jazz samba” começasse a ficar congestionado, a Verve optou por reter o álbum, só o lançando em 1966 – e deixando de fora esta versão de “Corcovado”, que só seria adicionada como bónus muitos anos depois.

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Stan Getz

Ano de gravação: 1964
Álbum: Stan Getz Au Go Go (Verve)

Pouco mais de um ano depois, Getz registaria mais uma versão memorável de “Corcovado”, desta vez com a parte vocal confiada apenas a Astrud Gilberto, que entretanto se envolvera sentimentalmente com Getz e deixara João Gilberto. O álbum Getz Au Go Go resultou, supostamente, de gravações ao vivo no Café Au Go Go, em Greenwich Village, e no Carnegie Hall, mas, embora estes concertos tenham, com efeito, sido registados, há suspeitas de que o que o conteúdo do disco provenha de gravações realizadas pouco depois no estúdio de Rudy Van Gelder, com aplausos e som ambiente adicionados, possivelmente por a qualidade do som ou do desempenho nos live terem sido considerados insatisfatórios.

Na versão de “Corcovado” incluída em Getz Au Go Go tocam Kenny Burrell (guitarra), Gene Cherico (contrabaixo) e Helcio Milito (bateria) – pelo menos é o que reza a “história oficial”.

Grant Green

Ano de gravação: 1965
Álbum: I Want To Hold Your Hand (Blue Note) O título do álbum do guitarrista Grant Green indica que em 1965 o jazz estava a ser forçado, pelos imperativos comerciais, a acolher outra voga musical: o rock’n’roll, e, mais concretamente, a “Beatlemania”. Todavia, para lá da canção dos Beatles que dá título ao álbum e de “Corcovado”, o programa é composto por quatro standards. Embora tivesse começado a gravar – sempre na Blue Note – em 1961, Green registara uma vintena de álbuns em apenas quatro anos (embora alguns só fossem lançados muito depois). Nesta sessão tem a parceria (de luxo) de Hank Mobley (saxofone), Larry Young (órgão) e Elvin Jones (bateria).

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Frank Sinatra & Antônio Carlos Jobim

Ano de gravação: 1967
Álbum: Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim (Reprise) Em “Corcovado”, Jobim remeteu-se à guitarra e deixou a parte vocal inteiramente por conta de Sinatra – e fez bem, pois Sinatra desliza pela canção com uma serenidade e suavidade extra-terrenas, lembrando o ouvinte de que “Corcovado” é, de certa forma, uma canção de embalar.

Martial Solal

Ano de gravação: 1993-94
Álbum: Improvise pour France Musique (Éditions Jean-Marie Salhani)

Não poderia ser mais diversa a abordagem do pianista francês Martial Solal. Solal, nascido em Argel em 1927, revelara-se um improvisador nato logo aos 10 anos, ainda antes de ter descoberto o jazz com as tropas americanas que desembarcaram no Norte de África em 1942. Quando, aos 66-67 anos, registou, a solo, uma série de improvisações e recriações de clássicos para a Radio France, as suas capacidades técnicas estavam no auge e a sua abordagem ganhara uma natureza zombeteira e iconoclasta. Por esta altura, “Corcovado” já se tornara em sinónimo de easy listening e bares de karaoke, mas, nas mãos de Solal, a canção é virada pelo avesso e ganha ângulos inesperados – embora alguns lamentem que, no processo, o Cristo Redentor seja convertido num monte de entulho.

O melhor da bossa nova (em versões)

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