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Dez versões de “Moon River”, a canção que Audrey Hepburn salvou

A canção faz parte da banda sonora do clássico “Breakfast at Tiffany’s” e ganhou um Oscar, mas esteve para ser suprimida.

Por José Carlos Fernandes
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A canção, com música de Henry Mancini e letra de Johnny Mercer, foi composta em 1961 para a banda sonora da comédia romântica Breakfast at Tiffany’s, com guião inspirado na novela homónima publicada em 1958 por Truman Capote, realização de Blake Edwards e Audrey Hepburn e George Peppard nos papéis principais – Holly Golightly e Paul Varjak, respectivamente. O filme foi nomeado para cinco Oscars, tendo ganho dois, ambos na vertente musical: melhor banda sonora original (também a cargo de Mancini) e melhor canção original (“Moon River”). Esta distinção seria reforçada pela atribuição a “Moon River” dos galardões de Canção do Ano e de Disco do Ano nos Grammys de 1962, o que torna mais irónico que, após uma pré-exibição do filme que suscitou reacções mornas, um executivo da Paramount Pictures tivesse sugerido que “Moon River” fosse suprimida da montagem – ideia a que Audrey Hepburn se opôs terminantemente.

A canção foi imediatamente apropriada por vários cantores e tem sido alvo de incontáveis versões, na área da pop e do jazz. Eis algumas delas.

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Dez versões clássicas de “Moon River”

1. Audrey Hepburn

Ano: 1961

No filme, é a própria Audrey Hepburn que canta “Moon River”, numa cena em que a personagem Holly Golightly se acompanha à guitarra, numa escada de incêndio sob a janela do escritório em que George Peppard está a tentar escrever. Na verdade, a canção foi composta “por medida” para Hepburn por Mancini, tendo em consideração as limitadas capacidades vocais da actriz. E se estas não são extraordinárias, a sua interpretação é-o; anos depois, Mancini declarou: “‘Moon River’ foi escrito para ela. Nenhuma outra pessoa a compreendeu inteiramente. Há mais de 1000 versões, mas a dela é inquestionavelmente a melhor”.

“Moon River” e outras partes da banda sonora foram rearranjadas e gravadas pela orquestra de Mancini em 1960-61 e editadas pela RCA Victor sob a forma de um LP intitulado Breakfast at Tiffany's: Music from the Motion Picture.

2. Art Blakey & The Jazz Messengers

Ano: 1961
Álbum: Buhaina’s Delight (Blue Note)

A suave e lânguida interpretação de Audrey Hepburn não poderia estar mais distante da viva e exuberante versão que os Jazz Messengers rubricaram no mesmo ano e que faz desfilar inflamados solos de saxofone, trompete, trombone e piano, na melhor tradição hard bop. O sexteto representa uma das mais formidáveis encarnações dos Jazz Messengers, com Freddie Hubbard (trompete), Curtis Fuller (trombone), Wayne Shorter (saxofone), Cedar Walton (piano), Jymie Merritt (contrabaixo) e, claro, o líder Art Blakey (bateria).

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3. Sonny Red

Ano: 1961
Álbum: The Mode (Jazzland)

A carreira do saxofonista Sonny Red (1932-1981, Sylvester Kinney Jr. de seu verdadeiro nome) foi discreta, embora tenha sido sideman de nomes sonantes da viragem dos anos 50-60, como Art Blakey, Art Pepper ou Donald Byrd. A sua discografia como líder resume-se a meia dúzia de álbuns gravados entre 1957 e 1962, entre os quais está The Mode, com Grant Green (guitarra), Barry Harris (piano), George Tucker (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria).

4. Vince Guaraldi

Ano: 1962
Álbum: Jazz Impressions of Black Orpheus (Fantasy)

O pianista americano de ascendência italiana Vince Guaraldi (1928-1976) é hoje lembrado sobretudo pela música para a série de animação The Peanuts e pela composição “Cast Your Fate to the Wind”, incluída no álbum Jazz Impressions of Black Orpheus, gravado em trio com Monty Budwig (contrabaixo) e Colin Bailey (bateria).

O disco apresentava-se como uma reinterpretação jazzística de temas da banda sonora do filme Orfeu Negro (1959), realizado no Brasil por Marcel Camus, com guião inspirado numa peça de Vinicius de Moraes e banda sonora de Luiz Bonfá e Antônio Carlos Jobim, e pretendia, provavelmente, tirar partido da voga da fusão de jazz e bossa nova que então tomara conta dos EUA. Porém, o hit do álbum acabou por ser “Cast Your Fate to the Wind”, que Guaraldi compusera para preencher o programa, e que, para lá de ter chegado ao lugar 22 do top da Billboard (feito invulgar para um single de jazz), recebeu no ano seguinte o Grammy para melhor composição de jazz e foi alvo de numerosas versões de sucesso por cantores de todos os quadrantes.

Pode perguntar-se o que faria “Moon River”, sem ligações ao Brasil ou à bossa nova, no alinhamento de Jazz Impressions of Black Orpheus – provavelmente era uma tentativa de tirar partido da grande popularidade de que a canção então gozava.

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5. Victor Feldman

Ano: 1962
Álbum: A Taste of Honey and a Taste of Bossa Nova (Infinity)

Em 1962, o pianista Victor Feldman (um britânico radicado nos EUA desde 1958), acompanhado por Nino Tempo (saxofone), Bob Whitlock (contrabaixo) e Colin Bailey (bateria), decidiu aproveitar a febre do “jazz samba” que tomara conta dos EUA, gravando um álbum de canções populares e jazz standards em ritmo de bossa nova. Como boa parte da concorrência teve a mesma ideia, o álbum A Taste of Honey and a Taste of Bossa Nova passou despercebido e caiu, entretanto, no esquecimento. Vale a pena recordá-lo pela curiosidade de ver “Moon River” a desaguar na Baía de Guanabara.

6. Jerome Richardson

Ano: 1962
Álbum: Going to the Movies (New Jazz/Prestige, reed. United Artists)

Em 1962, o jazz começava a dar sinais de estar a perder apelo comercial e as editoras foram ensaiando formas de seduzir as massas – uma delas foram os álbuns com programas associados a êxitos de Hollywood. Going to the Movies, do saxofonista e flautista Jerome Richardson, aposta em material de Les Liaisons Dangereuses (1959), Never on Sunday (1960), West Side Story (1961), Samson and Delilah (1949) e, claro, Breakfast at Tiffany’s. O grupo alinhava Les Spann (guitarra), Richard Wyands (piano), Henry Grimes (contrabaixo) e Grady Tate (bateria).

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7. Nancy Wilson

Ano: 1963
Álbum: Hollywood: My Way (Capitol)

Hollywood: My Way seguiu a mesma estratégia de reunir canções associadas a êxitos de bilheteira da indústria cinematográfica e pagou dividendos, pois o álbum subiu ao lugar 11 do top da Billboard. Nele, a cantora Nancy Wilson, então no auge da popularidade, era acompanhada por uma orquestra com arranjos e direcção de Jimmy Jones e “Moon River” ganha inesperados condimentos latinos.

8. Count Basie

Ano: 1963
Álbum: This Time by Basie! (Reprise)

Também Count Basie – ou a sua editora – sentiram a necessidade de refrescar o repertório da sua orquestra com êxitos pop do momento, uma estratégia repetida no álbum seguinte, More Hits of the 50s and 60s (também gravado em 1963). Para os arranjos foram contratados os serviços de Quincy Jones, que, apesar de ter apenas 30 anos, se tornara num dos mais requisitados arranjadores e compositores para big bands e que delineou um “Moon River” que combina swing relaxado com arranjos exuberantes (ao arrepio da atmosfera da canção).

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9. Quincy Jones

Ano: 1964
Álbum: Explores the Music of Henry Mancini (Mercury)

Além do trabalho como arranjador e compositor, Quincy Jones também dirigia a sua própria orquestra e, no ano seguinte à colaboração com Basie, retomou “Moon River” para o seu álbum integralmente dedicado à música de Henry Mancini, que inclui peças tão conhecidas como “The Pink Panther Theme”, “The Theme form Peter Gunn” e “Days of Wine and Roses”. Quincy Jones não era muito dado a ambientes melancólicos, pelo que este “Moon River” soa vivaço e descontraído, sem sombra de melancolia e apto a abrilhantar o lounge de hotéis.

10. Duke Ellington

Ano: 1965
Álbum: Ellington ’66 (Reprise)

Tal como era então regra na designação dos modelos de automóvel dos fabricantes americanos, o ano indicado no título deste álbum de Ellington é o do ano seguinte ao seu lançamento (que foi também o da sua gravação) – o mesmo acontecera já com Ellington ’65. É um álbum que dá sinal da pressão que, em meados da década de 60, se fazia sentir sobre o mundo do jazz, em resultado da deserção do seu público para o pop-rock: além do “Moon River” de fama cinematográfica (numa leitura colorida e exuberante, embora em tempo relaxado), o programa inclui versões (não muito felizes) de “All My Loving” e “I Want To Hold Your Hand”, dos Beatles.

O melhor da bossa nova (em versões)

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