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Há um segredo escondido no Parque Mayer: o omakase do talentoso Thalles Boniatti

Nos antigos armazéns de vinho do restaurante A Gina nasceu o Zō. Com apenas 15 lugares ao balcão, serve um menu de 15 momentos onde brilha o que o mar dá.

Vera Moura
Escrito por
Vera Moura
Directora Editorial, Time Out Portugal
Zō Omakase
Rita Chantre | Thalles Boniatti, o anfitrião do Zō Omakase
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Thalles Boniatti tem um sonho: chegar aos 60 anos e abrir um boteco “onde só entra velho, passa música brasileira antiga e se bebe um chope”. Até lá chegar, é à gastronomia japonesa que o chef de Porto Alegre (há 12 anos em Portugal) quer continuar a dedicar-se a 100%. Depois de uma década no Grupo Olivier, onde passou pelo Yakuza e pelo Mimi, abriu um espaço onde é o protagonista. Um espaço pequeno – com 30 metros quadrados, um balcão em U e uma equipa de apenas cinco pessoas – e, no mínimo, improvável: quase como se fosse um speakeasy, escondido nas traseiras do restaurante tradicional A Gina, no Parque Mayer, que se atravessa para lá chegar. Chama-se Zō, palavra japonesa que representa “o lugar onde se guarda o que tem valor”. Afinal, estamos num antigo armazém de vinhos.

Zō Omakase
Rita ChantreZō Omakase

“O Rui [Pinto Gonçalves], filho da Dona Gina, queria abrir aqui um restaurante japonês, mas não tinha pensado num omakase [estilo de cozinha nipónica em que o cliente se entrega nas mãos do chef]. Quando vim visitar pela primeira vez, era um armazém de vinhos, com duas enormes arcas frigoríficas, mas consegui logo imaginar tudo”, conta Thalles Boniatti à Time Out a poucos minutos de mais um serviço de jantar, marcado para as 20.00. Nesta noite somos quase os únicos portugueses ao balcão para 15 pessoas: há uma reserva para um grupo de americanos e para um casal japonês. Alerta spoiler: a noite termina com um aplauso e muitos elogios. “It was awesome! Awesome!”, repetem os nossos vizinhos do lado.

“Há um tempo que já queria uma coisa nova, à minha maneira, mais tradicional – aprendi com japoneses e queria seguir essa linha, sem muitas misturas, sem carregar na trufa ou no caviar”, diz o chef, que no seu menu de 15 momentos (95€) privilegia o produto e evita o excesso de sal, açúcar e molhos. O sashimi (quarto prato da noite) é um bom exemplo disso, com uma apresentação minimalista de fatias finas e translúcidas de peixe galo de Sesimbra, dourada do Algarve enrolada em chorão-do-mar (que tem um curioso travo a percebes), sarrajão braseado na pele e akami (atum magro) para acompanhar apenas com wasabi japonês e soja envelhecida dois anos. Vem decorado com uma folha de ácer japonês colhida na horta do lado de fora da porta fechada do restaurante.

Zō Omakase
Rita ChantreO sashimi minimalista do Zō Omakase
Zō Omakase
Rita ChantreO niguiri de lírio dos Açores com malagueta e rábano ralado do Zō Omakase

Seguem-se os nigiris, dez peças para comer à mão, com peixes como o lírio dos Açores, a cavala de Sesimbra, a barriga de atum maturada nove dias ou carapau cortado muito fino para quebrar as fibras. São colocados na travessa de madeira que cada pessoa tem à sua frente um de cada vez sobre bolas de arroz “al dente”. “O meu avô era italiano e isso sente-se na forma como cozinho o arroz, mais durinho, sem açúcar, só com sal e vinagre.” Mais elaborados e surpreendentes, o gunkan de atum com ovas de polvo secas (butargas) e o unagui no kabayaki, com enguia grelhada muito crocante, arrancam suspiros ao grupo.

Zō Omakase
Rita ChantreZō Omakase
Zō Omakase
Rita ChantreA enguia a ser preparada para o unagui no kabayaki do Zō Omakase

“Mudamos o menu constantemente, consoante o que o mar entrega e a sazonalidade”, explica o conversador Thalles, sem nunca sair de cena ou perder o foco do corte minucioso do peixe. “Para já, as atenções estão viradas para a Primavera – no Verão não vou servir um menu muito quente e no Inverno talvez junte uma carne. O que vou manter sempre são os pratos mais icónicos, como este unagui de enguia de água doce, o pudim ou a vieira”, continua, referindo-se aos segundo e terceiro momentos da noite. O pudim chaomushi, um clássico da cozinha japonesa, é servido numa pequena taça redonda depois do dashi com beringela frita, que inaugura a refeição. Quando abrimos a tampa, o aroma do camarão tigre, do molho de soja e sake, dos cogumelos e do cebolinho invade a pequena sala. Segue-se a dita vieira, que tem feito sucesso entre os clientes desde a abertura do Zō Omakase no final de Novembro de 2025. Selada em cima e crua em baixo, surge mergulhada num género de beurre blanc feita com vinagre de arroz envelhecido e sake seco. Uma gulodice para comer à colher e rapar até ao fim, sem vergonha.

Zō Omakase
Rita ChantreO chaomushi com camarão tigre é um dos pratos-estrela do Zō Omakase
Zō Omakase
Rita ChantreO menu do Zō Omakase pode mudar, mas vieira com beurre blanc de vinagre de arroz envelhecido e sake seco nunca sai

Por falar em gulodice, o festim japonês – entre lições de história e de gastronomia, conversas sobre viagens e Lisboa, piadas e até a revelação do chef que podia ter sido futebolista (médio-centro, número 8) – chega ao fim com um gelado de sake com caramelo de miso, pimenta sansho e pedaços de suspiro que se desfazem na boca. “É a primeira coisa a ser feita e a última a ser servida”, conta Thalles ao grupo, saltitando entre o português, o inglês e até algumas expressões em japonês.

Zō Omakase
Rita ChantreO gelado de sake, caramelo de miso e suspiro do Zō Omakase

Para acompanhar, somos aconselhados a experimentar um sparkling sake. “Sabe a sake mas com bolhinhas”, descreve a chefe de sala Maria Infantaria, que veio do Encanto e com quem o chef já tinha trabalhado antes (como aliás, todos os elementos da equipa, que incluem ainda a mulher de Thalles, Vanessa Antunes). A bebida festiva abriu o apetite, acompanhou a refeição – que antes da sobremesa contou ainda com uma reconfortante sopa miso que, de forma muito sustentável, usou todos os peixes da noite no caldo – e até serviu para brindar. Era noite de festa para uns, foi noite de festa para todos: havia um aniversariante no grupo.

A Gina, Parque Mayer (Avenida). 912 038 243. Ter-Sáb 19.00-23.30

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