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Perna de pato e ossobuco juntam-se às pizzas que fizeram do restaurante do Príncipe Real um sucesso. A carta mudou e a sala é uma réplica das memórias da infância de Jorge Marques.

Todas as quartas-feiras, o ritual repetia-se: a avó paterna, Maria Alice, esperava por ele e pela respectiva mochila de rodinhas à porta da escola. Seguiam depois por Campo de Ourique em busca de um lugar para almoçar. “Íamos sempre provar uma pizza diferente. Já sabia que quarta-feira em casa da minha avó era dia de pizza”, recorda Jorge Marques à Time Out.
Mas havia outra Maria Alice, a avó materna – e é a ambas que o restaurante Malice, no Príncipe Real, presta homenagem. A elas e à malandrice que Jorginho, como é tratado por todos, revelava em miúdo. Três anos depois da abertura e de muitas pizzas saídas de um forno que veio de Itália, o espaço e a carta foram reformulados, regressando àquela que era, no fundo, a ideia original. “Isto era para ser uma coisa e, entretanto, acabou por não ser essa coisa. Fazíamos um bocado de barulho porque acabámos por ser um restaurante com o complemento de copos ao final da tarde e noite. Fica um pouco complicado fazer as duas coisas e queremos focar-nos naquilo que nos fez abrir o espaço, que é a comida.”
A reformulação veio da vontade de ter uma relação de amizade “longínqua e frutuosa” com os vizinhos. “No final do dia, trabalhamos num bairro e queremos ser um restaurante de pessoas e para pessoas.” A carta foi reduzida e ganha agora comida de conforto – comida de avó. Aliás, a avó Maria Alice (a paterna) não gostava assim tanto de pizzas. “Era mais de um bom bife, de um puré de batata.” Por isso, acredita Jorge, iria gostar das novas adições ao menu.
Nas entradas há tártaro de lombo de novilho (17€), que junta molho tártaro, chalotas e alcaparras ao novilho; sfizio de burrata (5,50€), que tem massa de pizza, mortadela de pistaccio, burratina e molho de tomate; ou burrata focaccia & pomodoro (12,50€), cujo nome diz tudo.
Seguimos para os pratos de conforto, que se denunciam pelo aroma ainda antes de chegarem à mesa. Caso da perna de pato e feijão cacio pepe (24€). A perna é confitada, tem uma pele crocante e o interior desfaz-se. Descansa numa cama de feijão branco cremoso, cortesia do molho cacio pepe que é ligeiramente picante. O ossobuco e gnocchi de ricota (25€) tem igualmente uma carne tenra que se desfaz na boca, com o gnocchi a fazer um trabalho semelhante. A junção dos sabores arranca “mhhhs” à falta de palavras melhores. Há ainda lasanha de cogumelos (18€), com bechamel trufado e parmigiano; e nduja rigatoni a la vodka (15€), com o rigatoni a ser confeccionado com vodka e enchido picante da Calábria.
O Malice é agora uma espécie de reprodução da sala de estar da avó, começando pelos pratos brancos e azuis com desenhos cheios de flores e torneados. Há uma balança, uma gaiola, um bengaleiro e um espelho – não são os originais, mas remetem para as memórias da infância. O mesmo acontece com o aparador. “Ela tinha estes móveis de madeira escura com 59 copos e os serviços lá dentro. Os candelabros e os apliques de parede, é tudo a cara da minha avó.”
Mudaram-se as mesas – têm estrutura de madeira e tampo de pedra e receberam muito carinho na recuperação para poderem ter uma segunda vida – e as toalhas, os copos, os candeeiros e os espelhos, mas a equipa e o modo de trabalhar são os mesmos. Bruno Goularte da Silva é o chef responsável e é ele que merece todos os elogios. “Os produtos que compramos têm qualidade, os fornecedores italianos em Lisboa também evoluíram muito nos últimos anos e o trabalho deles lá atrás na cozinha é muito importante. O Bruno foi ganhando espaço ao longo destes anos para desenvolver a criatividade dele, acho que temos agora uma identidade sólida e marcante”, assegura Jorge.
Na esplanada há lugar para 20 pessoas e no interior para 40 ou até 50. “Queremos que a nossa comida seja como um abraço, aquele momento de conforto, mas também queremos que as pessoas se sintam como em casa da avó, onde há sempre espaço para mais um. Aqui, se pudermos, também juntamos mais um prato, mais uma mesa.” Há clientes que regressam inúmeras vezes e alguns já nem precisam de fazer o pedido. “Há três senhoras portuguesas que andam sempre juntas e pedem sempre o mesmo: três lasanhas (21€).”
Ainda assim, a partilha é incentivada desde as entradas porque, garante Jorge, “é muito mais divertido provar várias coisas”. O mandamento também é válido para as pizzas, cuja massa é de fermentação lenta. É possível escolher entre a simplicidade da marina (12€), com molho de tomate, azeite e manjericão; e a originalidade da espinafre, ricota, burrata e nozes (16€), que leva também parmagiano. Há ainda cogumelos trifolati (16€), com molho de tomate, cogumelos, tallegio, parmagiano, endro e cebolinho; chicago pie (16€), com molho de tomate, salame picante e mozzarella; e cebola caramelizada, gorgonzola e pecorino (13€).
As sanduíches, que são um sucesso ao almoço há muito tempo, têm pão de fermentação lenta e variam entre pistácio (8€), com creme de pistácio, mortadela de pistácio e burrata; e carpaccio di manzo (10€), com carpaccio de novilho, mozzarela flor de leite, pickles, alface cogolho e maionese d’alho. De segunda a sexta-feira existe também um menu de almoço (15€) que inclui um prato principal uma bebida e café.
O Malice faz parte do grupo Mesa 16, que detém ainda os restaurantes Faz Frio e Tascardoso, ambos na zona do Príncipe Real. Cada um tem a respectiva identidade, mas a ideia comum é receber os clientes de forma descontraída e fazê-los sentir em casa. “Foi um bocadinho por isso também que eu me dediquei a esta indústria e se continuo a faz-la com muito gosto e muito amor e muito carinho é porque este é o sítio onde as pessoas são mais felizes, onde se juntam. As pessoas têm espaço e disponibilidade para conversarem e para se ouvirem umas às outras”, explica Jorge Marques, que descobriu a restauração um pouco por acaso.
“Na escola gostava de artes e fiz cursos de design, mas rapidamente percebi que era só mais um peixe dentro do oceano, não tinha algo que me diferenciasse. A dada altura, os meus amigos iam fazer um Interrail e eu disse que também queria ir. Os meus pais disseram: ‘Óptimo, mas vais trabalhar para ganhar dinheiro’.”
Foi para o Pizza a Pezzi, que fica na rua de cima. Esteve lá um ano, fez a viagem de comboio pela Europa, voltou e viu-se confrontado com uma decisão: tinha de escolher uma área para se profissionalizar. Resolveu ir viajar outra vez. No Japão, Filipinas, América Latina – em todos conseguia trabalho na restauração. “Restaurantes são restaurantes. São todos diferentes uns dos outros, mas no final do dia são todos mais ou menos parecidos. E isso abria-me a porta para eu poder continuar nas minhas viagens, para aprender línguas e para continuar a trabalhar e a conhecer pessoas.”
Seguiram-se EUA, Noruega, Espanha, negócios familiares e restaurantes Michelin. Em todo o lado dizia: “Quando um dia voltar para Portugal, vou abrir um restaurante de comida portuguesa. Acho que hoje em dia as pessoas também procuram muito voltar à tradição, voltar ao que era caseiro.” Fê-lo primeiro com o Faz Frio, repetiu-o com o Malice. “Queria pegar num espaço do bairro e fazer algo para o bairro. Estamos no Príncipe Real, há muitas creches aqui à volta, portanto os pais vão buscar os miúdos às creches, vão ali ao jardim passear e depois vêm aqui comer e ficam já jantados. Adoro ver essa dinâmica.”
A cozinha não fecha e nas sobremesas há três opções. Além do tiramisu (6€) e do chocolate (6€), há uma rabanada (6,50€) obrigatória. Feita com a mesma massa das pizzas, é tostada no forno, mantendo o interior mal cozido e cremoso. Sabe a Natal, a infância e a tudo o que é sinónimo de alegria, além de ter uma massa fofa e leve e de ser acompanhada por uma bola de gelado da gelataria Nivà.
Os vinhos são de perto, como Quinta de Porrais Reserva Branco (9€ o copo e 30€ a garrafa), e de longe, como Pio Cesare Nebbiolo tinto (40€). Há cocktails clássicos, como margarita (10€) e caipirinha (9€), e especiais, com destaque para o malícia (9€), com pisco, luxardo, maçã, sálvia, limão e clara de ovo. “Por acaso há uma coisa que ainda não temos e que devíamos acrescentar: a minha avó adorava um copinho de vinho do Porto com a sobremesa.”
A playlist faz-se de canções italianas. O que sai do forno e do fogão tem a mesma origem, mas com impressão digital local, de quem aqui trabalha. “Tudo isto é feito à volta não só de um conceito, de um menu, de uma vontade, mas de muitos sentimentos. E acho que isso, no final do dia, é o que nos diferencia e nos destaca do resto.”
Rua do Século 238, Príncipe Real. Seg-Dom 12.00-23.00
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