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Samarkand. “Comida de família” no primeiro restaurante uzbeque da cidade

Pilaf, cheburek ou manti. Podem não ser nomes muito comuns, mas não os vai esquecer depois de provar. Os responsáveis pelo restaurante arménio Ararate apresentam um novo destino: o Uzbequistão.

Andreia Costa
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Andreia Costa
Samarkand
Rita Chantre | Samarkand
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Hora de embarque: almoço ou jantar; destino: Samarkand, Uzbequistão.

Não é preciso apanhar um avião, fazer escala, apanhar mais um voo e estar no ar para lá de dez horas para chegar à cidade conhecida pela Rota da Seda. Em Lisboa, junto ao Instituto Superior Técnico, os aromas a especiarias e condimentos espalham-se pela rua bem antes da hora das refeições. É que o plov (ou pilaf), a estrela do Samarkand – e da cozinha uzbeque no geral –, começa a ser preparado pelo menos duas horas antes. 

Neste novo restaurante, a especialidade chama-se pilaf samarkand (11,50€). É um prato de arroz com borrego, cenoura, cebola e cominhos. Faz-se por etapas e às camadas: primeiro, o borrego é salteado com cebola no kazan (uma panela típica); depois adiciona-se cenoura laranja e cenoura vermelha; e, por fim, o arroz. É rico em sabor, a definição máxima de comida de conforto. 

“No Uzbequistão, fazem o plov em kazans enormes que podem servir entre 100 e 150 pessoas. Aqui, para que não haja desperdício, faz-se um de manhã para 30 ou 35 doses e outro para o jantar”, explica Andranik Mesropyan, o chef responsável, que deixa uma dica à Time Out. “Fazemos o prato todos os dias, mas o verdadeiro segredo é ficar a apurar de um dia para o outro.”  

Samarkand
Rita ChantreO plov é a estrela do restaurante Samarkand — e da cozinha uzbeque no geral. Aqui chama-se pilaf samarkand

A viver em Portugal há oito anos, o chef continua a ser pioneiro. Em 2018, assinou a carta do Ararate, o primeiro restaurante arménio a abrir as portas em Lisboa. Em 2023 o conceito cresceu para os arredores e abriu um segundo espaço, em Odivelas. Com o Samarkand, aumentam os projectos, mas também o alcance da cozinha. Aqui, apesar de haver influências arménias, os pratos são típicos do Uzbequistão, algo inédito na cidade. 

Antes de arregaçar as mangas, vestir o avental e começar a acender os bicos do fogão, Mesropyan foi fazer pesquisa. O chef arménio e Karine Sarkisyan, a proprietária, viajaram até Samarkand e comeram. Comeram em restaurantes grandes e em tascas, em espaços conceituados e em apostas mais arriscadas. Comeram muito. E trouxeram ideias na cabeça, no paladar e no olfacto. “Preciso de comer para saber que pratos quero transformar sem perder o sabor”, explica Andranik. Uma coisa ficou clara desde o início: precisava de reduzir, e drasticamente, algo muito típico: o óleo. “Lá usam óleo em tudo, aqui não queríamos que a comida estivesse cheia de gordura, queríamos algo mais suave.” 

Samarkand
Rita ChantreSamarkand

Há várias opções nas entradas que comprovam que a prova foi superada. Resta agora outro desafio, este para quem se senta à mesa: o melhor é chegar com apetite (e companhia) porque há muita coisa para experimentar. Os samsa de borrego (8,50€, três unidades), por exemplo, são pastéis de massa folhada com recheio de borrego picado, gordura bovina, cebola e especiarias. É um dos pratos mais antigos da cozinha uzbeque, com uma massa crocante e um interior a rebentar pelas costuras. Já os manti (6,90€, três unidades) são dumplings igualmente recheados com borrego picado e gordura bovina e cebola, cozidos a vapor no mantovarka, uma panela de vapor, e com uma massa tão leve que quase se desfaz para deixar sobressair o sabor da carne, aqui bem mais dominante e intenso. O cheburek (8€) é um pastel crocante, tem recheio de carne de bovino e especiarias. A massa não tem fermento, é fina e revela pequenas bolsas de ar que se formam entre as camadas durante a fritura. Faz lembrar um pastel de massa tenra.

A carta do Samarkand já é extensa, mas o chef garante que isto “é só o início”. O objectivo é aumentá-la, mas, para já, “a prioridade é abrir a porta aos portugueses, fazer uma viagem sem sair de Portugal”. Não há nada aqui que as bocas mais peculiares (ninguém está a chamar esquisito a ninguém) não possam provar. O borrego – comum a muitos pratos – é uma carne com sabor intenso, mas dependendo dos condimentos que a acompanham, pode ser mais ou menos discreta. Na shurpa de borrego (9,50€), com batata, pimenta, cenoura, cebola, coentros e tomate cherry, é tudo menos discreta. Ainda assim, estão sempre disponíveis opções de vitela ou vegetarianas, excepto no pilaf.

Para ajudar a aligeirar a refeição (ou a digestão) há muitas saladas no capítulo de entradas frias. A lazzat (9,50€) é a mais tradicional. Tem beringelas crocantes com tomates suculentos e queijo Labneh cremoso, cobertas com molho agridoce, coentros e sementes de abóbora. É fresca e variada e um óptimo acompanhamento para os pastéis fritos.  

Samarkand
Rita ChantreA balyk shurpa do Samarkand

O sabor rico, filho do casamento entre muitos ingredientes (e sobretudo especiarias), é comum a todos os pratos e, apesar de o pilaf ser já uma das preferências, não podemos não falar da balyk shurpa (9,50€), uma sopa de peixe com salmão e legumes frescos. A dose é generosa e o caldo deixa-se perfumar por batata, cenoura e tomate. Se a refeição terminasse aqui, já ficaria na memória. 

A carta pede uma leitura demorada, já que explica não só os ingredientes que estão nas receitas, mas também a origem de cada prato. A história está também espalhada pelas paredes em amarelo torrado, onde estão pendurados chapéus coloridos e loiças típicas. Os pratos são todos pintados à mão. “Não há nenhuma peça igual.”

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Rita Chantre

56 pessoas cabem aqui, divididas por dois pisos — lá fora há uma pequena esplanada com três mesas. A entrada faz-se por cima, onde panos coloridos preenchem o tecto. Aqui há mais luz, que faz sobressair os azuis das cadeiras e os dourados dos candeeiros. A escada dá acesso à cave, onde a falta de luz natural é colmatada com o conforto e as cores quentes. Há bancos corridos e uma ilustração muito específica numa das paredes. É a praça principal de Samarkand. Andranik Mesropyan explica porque escolheram esse nome e não Tashkent, a capital do Uzbequistão, por exemplo. “Samarkand carrega mais história e pratos tradicionais, portanto achamos que faria todo o sentido ser esse o nome, até porque fica na cabeça.”

Na cozinha estão seis pessoas, apoiadas por mais seis na sala. Para já, domingo é dia de folga, mas a pretensão é que no futuro o restaurante funcione sete dias por semana. Num futuro próximo haverá música tradicional e dança do ventre. Há um pequeno espaço mais reservado, escondido por cortinados, que será mais aconchegante para um grupo de cinco ou seis pessoas. Aqui a regra é só uma: sentar no chão, em cima de almofadas, como se fosse um verdadeiro uzbeque. 

Samarkand
Murad RMO Napoleão do Samarkand

Muita gente chega aqui vinda do Ararate. “80% dos nossos clientes são portugueses. Hoje as pessoas já estão dispostas a provar coisas diferentes, há cinco ou seis anos era impossível”, lembra o chef.  Não se poupa nas especiarias – nem nos chás, que ganham a corrida ao álcool. Há de hortelã fresca (5€), preto com tomilho (5€), verde com limão (4,50€) ou um jarro de litro de chá frio caseiro (9,50€).

Nas sobremesas, há chak-chak (7,50€), palitos crocantes de massa cobertos com mel, ou napoleão (7,50€), uma espécie de mil folhas, feito de inúmeras camadas intercaladas com creme de baunilha. O primeiro é muito mais doce, o segundo é mais delicado. Na dúvida, não há dúvida: é pedir os dois. 

No Samarkand faz-se uma viagem por cores e sabores onde todas as conjugações funcionam. O rigor e a vontade de partilhar a tradição são dois dos objetivos do chef e isso nota-se. “Isto é comida de família, é isso que queremos transmitir às pessoas.”

Avenida Rovisco Pais, 6A (Alameda). 963 373 263. Seg-Sáb 12.30-23.00

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