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O elenco original reuniu-se para a nova temporada
Ana Bento O elenco original reuniu-se para a nova temporada

Conta-me (outra vez) Como Foi, desta vez nos anos 1980

A muito aguardada série da RTP está de volta ao pequeno ecrã oito ano depois. De 1974, viajamos até 1984, década em que a modernidade e a democracia se consolidam no país.

Por Sebastião Almeida
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A família Lopes está de regresso à RTP, nove anos depois. A muito aguardada nova temporada de Conta-me Como Foi tem estreia marcada para sábado, às 21.00. Para trás ficam os tempos da ditadura. O 25 de Abril também já lá vai. Respiram-se agora os ventos dos anos 1980, da consolidação da democracia, da entrada na CEE, da revolução na música e da louca vida nocturna lisboeta.

É neste contexto de expectativa e exuberância, na viragem de 1983, que a série retoma. Carlitos (Luís Ganito) habita umas águas furtadas no Bairro Alto. Luta para ganhar a vida. Toni regressou transformado do Ultramar. É agora um jornalista com um casamento desfeito. Isabel (Rita Brütt) continua a perseguir o sonho de ser actriz. Margarida (Rita Blanco) e António (Miguel Guilherme) fazem vida no bairro de Benfica e Hermínia (Catarina Avelar), a avó, trata das lides da família e tenta acompanhar as modernices da neta adoptiva, Susana (Beatriz Frazão).

Além do elenco original, há novas personagens: Inês Castel–Branco, uma jornalista amarga e destemida, e João Reis, um ambicioso corretor da bolsa. “Definimos um hiato de dez anos. Criámos um mapa, um percurso e mostrámos como os personagens cresceram”, explica Pedro Lopes, director de conteúdos da SP Televisão, produtora da série. O ano de 1984 acaba por representar “algo cíclico”. O FMI está de saída do país e isso “está na memória dos portugueses há pouco tempo”. Na última temporada, tudo acaba em festa, mas é sol de pouca dura. “Apanhámos os personagens entre a saída da crise e o sonho que pode ser Portugal na Europa.”

Para Miguel Guilherme, foram “tempos felizes”. “Os anos 1980 foram muito importantes. Há todo o período revolucionário depois do 25 de Abril e é aí que a democracia se começa a consolidar. É quando o povo começa a perceber o que é a democracia e que estamos enquadrados numa coisa maior que se chama Europa”, diz. A geração de Carlitos é atingida pelo flagelo da heroína. Surgem os primeiros casos de sida. Na vida pública, as eleições de 1986 põem frente a frente Freitas do Amaral e Mário Soares, há a Dona Branca, as FP-25, o desastre ferroviário de Alcafache. Tudo retratado nos 52 episódios a transmitir aos sábados.

Luís Ganito, 23 anos, não esconde que aprendeu muito da história do país através do guião. “Não sabia que tinha acontecido tanta coisa marcante nos anos 1980. Existe o Carlitos, a geração da mana [Susana] que vive as coisas de uma maneira. O Toni vive outras, e assim conseguimos abordar toda a parte histórica desses anos”, conta. Catarina Avelar representa a geração que continua com medo. “Os netos já estão muito para além do meu acompanhamento. Havia um alvoroço sobre o que iria ser a nossa vida. É a diferença que vejo olhando dez anos em retrospectiva ”, diz sobre o salto de uma década do programa.

“O Conta-me tem a função de entreter, informar e educar”, defende o director de conteúdos. “Quando somos bombardeados com ficção estrangeira, é uma oportunidade para as gerações novas não perderem o contacto com o que foi a história do país”. O programa termina em 1987, com a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva. E percebemos: não foi assim há tanto tempo.

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Uma década vista por três gerações

DR

Miguel Guilherme era um jovem adulto nos anos 1980, e viveu-os intensamente. Catarina Avelar lembra quem por eles passava com desconfiança. Luís Ganito só os pode imaginar.

Pedimos a três actores de diferentes gerações – que na série são pai, filho e avó – que olhem para a década, a real e a imaginada, reflectindo sobre como ela influenciou o rumo do país.

Miguel Guilherme

“Foram tempos felizes, foi quando comecei a fazer mais teatro, me emancipei e tudo isso foi muito importante para mim.” Miguel Guilherme tinha 23 anos em 1984. Esses tempos “foram muito loucos de certa maneira”. “O Bairro Alto começa aí, a movida lisboeta começa em 1982/83, com o Frágil e toda a ocupação do Bairro Alto, que deixa de ser um sítio só de prostituição e jornais, e passa a ser um sítio de diversão nocturna muito importante.” “Os anos 1980 foram muito interessantes, foi um despertar para a liberdade. Foi quando o pós-modernismo se impôs de forma muito visível, na moda, na arquitectura, nas artes plásticas e isso tinha influências muito mais rápidas em Portugal do que quando éramos uma ditadura.”

Luís Ganito

Dez anos mais tarde, o actor que dá vida a Carlitos tem agora 22 anos. Não era nascido nos anos 1980. Na série o seu personagem vive sozinho, tem um trabalho precário e é incompreendido pelos pais. Vive na pele as mudanças culturais e passa as noites no Frágil ou noutros sítios conhecidos da época. “O Carlitos tem um trabalho que hoje corresponde basicamente aos recibos verdes, trabalha numa rádio-pirata e faz trabalhos de publicidade.” O país de então era mais cru, “não havia tanto esta preocupação com o turismo”. A geração dos seus avós, hoje com 70 anos, tinha na altura com 30 “esse olhar muito conservador próprio da época”, conclui.

Catarina Avelar

As décadas de 1960 e 1970 foram a altura mais marcante da sua vida. Tudo o que vem depois é uma consequência desses tempos e das mudanças que representaram. Os anos 80 assumiram-se como “uma visão de futuro na Europa”, refere. Sedimentaram o que os ventos da liberdade trouxeram à sociedade. “Sou actriz, nós temos este grãozinho para além do cidadão comum. Não somos mais, mas vemos as coisas de outra maneira, e nunca senti isso, mas o povo no geral sentia alguma relutância pelas coisas novas”, confessa.

Cinco novas personagens

Clara (Inês Castel Branco)

Uma mulher num mundo de homens. Viajada, moderna, decidida e amarga. Só assim consegue ter mão numa redacção de jornalistas senhores do seu nariz. É através dela que é representada a mudança social e política do país.

 

Inácio (João Reis)

É corretor da bolsa e movimenta-se nos meandros do universo económico e político, à procura de encher os bolsos. É um pinga-amor, mas nunca deixa que o seu amor se ponha à frente dos seus interesses e negócios.

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Luís Almeida (Marcello Urgeghe)

Vem de França habituado a outra realidade. É lá que assume a sua homossexualidade. Vai apaixonar-se por um amigo dos tempos de Paris que reencontra em Lisboa, mas esse amor não será entendido.

Rosete Teixeira (Sofia Almeida)

É cabeleireira em Benfica, o novo bairro da família Lopes. Ficou com o negócio da mãe e é conhecida por todos. Sabe como funcionam os homens, mas continua a acreditar num príncipe encantado.

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Emídio (Tiago Delfino)

Não é uma personagem nova, mas reaparece já adulto. É amigo de infância de Carlitos e um dos que sofre na pele o boom do consumo de drogas no país. Carlitos tentará ajudá-lo no processo de desintoxicação.

O melhor para ver no sofá

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