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Música, Pop, Marco Paulo, Taras e Manias
©DRTaras e Manias, Marco Paulo

Nostalgia de Outubro: as músicas que dominavam o airplay há umas décadas

As músicas que estavam a passar insistentemente na rádio neste mês, há 10, 20, 30 e 40 anos.

Escrito por
João Pedro Oliveira
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A Nostalgia tirou férias em Setembro. Faz sentido: não há mês mais nostálgico e toda a gente merece um descanso. Mas ei-la de volta, a lista que, todos os meses, rememora um pouco da música que se ouvia por aí em décadas passadas. O que aqui se escuta é uma pequena amostra das canções que ocuparam mais airplay nos Outubros de antigamente. Nem todas são canções que nos enchiam as medidas – por vezes são apenas aquelas que nos enchiam a cabeça, quiséssemos ou não, porque se escutavam em toda a parte e a toda a hora. São, por assim dizer, os singles mais destacados pelo colectivo. E que nos dão um lamiré do tempo que então se vivia.

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Há 40 anos: Outubro de 1981

Na Suécia, nasce o Nordic Mobile Telephone (NMT), o primeiro sistema de telefone celular do mundo. Também na Suécia, nasce Zlatan Ibrahimović. O primeiro-ministro egípcio, Muhammad Anwar Al Sadat, é assassinado enquanto assiste a uma parada militar. Hosni Mubarak é eleito seu sucessor. Em Fraça é finalmente abolida a pena de morte e acaba-se a história da guilhotina. As FP 25 de Abril reclamam a autoria de um atentado à bomba contra um industrial têxtil do Norte e de um assalto ao Banco Fonsecas & Burnay.

Já que andámos de férias, recuemos um pouco mais que Outubro. Durante todo o mês de Agosto e a primeira metade de Setembro, o top nacional foi liderado por “Enola Gay”, dos Orchestral Manoeuvres in the Dark (OMD). Foram sete semanas consecutivas na liderança, mas esse nem foi o feito mais notável da banda britânica. Impressionante mesmo foi a capacidade de criar um exorcismo pop que pôs tanta gente a dançar ao som de uma tragédia. Recordemos. A 6 de agosto de 1945, às oito horas e 15 minutos da manhã (“It's 08.15 / And that's the time that it's always been”), a bomba atómica "Little Boy" foi lançada sobre Hiroshima por um bombardeiro B-29 norte-americano, o Enola Gay, assim baptizado em memória de Enola Gay Tibbets, mãe do piloto da aeronave, o coronel Paul Tibbets (“Enola Gay / Is mother proud of little boy today?"). Cerca de 80 mil pessoas morreram naquele instante, outras 60 mil morreriam das sequelas até ao final do ano (“Ah-ha this kiss you give / It's never ever gonna to fade away”). Está guardado no álbum Organization e foi o segundo single mais vendido desse ano em Portugal. O primeiro foi o que se segue.

Kim Karnes, que no final da Primavera de 2001 já liderara a Billboard norte-americana, por nove semanas consecutivas, com “Bette Davis Eyes”, sucede aos OMD. Contas feitas, o single mais vendido de 1981 haveria de ocupar a liderança do top nacional por 12 semanas e ajudaria a fazer de Mistaken Identity um dos álbuns mais vendidos do ano também (o oitavo, para sermos precisos). A canção é uma espécie de advertência contra os encantos de uma certa femme fatale, que não só tem os olhos de Bette Davies como ainda lhe junta os suspiros altivos de Greta Garbo (“Greta Garbo's standoff sighs”), numa mistura explosiva capaz de desgraçar qualquer homem sério. Se lhe juntarmos “Maneater”, de Daryl Hall & John Oates (1982), e “Easy Lover”, de Phil Collins e Philip Baile (1985), temos uma boa lista temática do género “põe-te a pau com ela” (fica a ideia). Além disso, “Bette Davis Eyes” também ficaria bem na nossa lista de canções que provavelmente não sabe que são covers. É que a canção, na verdade, pertence a Jackie DeShannon, respeitável cantautora norte-americana, e o registo original, de 1975, é assim mais pop-country.

Há 30 anos: Outubro de 1991

Forças do Exército Popular Jugoslavo iniciam o cerco à cidade de Dubrovnik, que se há-de prolongar até Maio de 1992. Na Polónia, decorrem as primeiras eleições livres para o Parlamento desde 1928. Aos 59 anos, actriz Elizabeth Taylor casa pela oitava e última vez. Em Portugal, as eleições legislativas dão a segunda maioria absoluta a Cavaco Silva.

Entre o final de Julho e o final de Outubro de 1991, não havia como escapar ao xarope de Bryan Adams. “(Everything I Do) I Do It for You” serviu simultaneamente de single para a edição da banda sonora de Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões como para Waking Up the Neighbours, o sexto álbum de estúdio do canadiano. Misturar a voz rouca de Adams com a carinha laroca de Costner na mesma balada resulta em cheio. A canção é número 1 no top de 19 países. No Reino Unido, é ainda hoje a canção com mais tempo seguido no primeiro lugar do top: 16 semanas sem sair de cima. Nos Estados Unidos, fica sete semanas na liderança da Billboard Hot 100, top de referência que combina tempo de airplay com exemplares vendidos – mas se considerarmos apenas as vendas, então o reinado dura 17 semanas consecutivas. Contas feitas, foram 15 milhões de discos vendidos em todo o mundo.

Portugal não é excepção. Por cá, Adams mantém-se 12 semanas no top, embora com algumas interrupções. Para destronar este colosso azeiteiro, seria necessário recorrer ao nosso maior campeão de vendas. João Simão da Silva, coleccionador de 140 galardões de diamante, platina, ouro e prata, vendedor de mais de cinco milhões de cópias a cantar em português, havia de ser a única criatura capaz de se impor e restaurar a soberania lusitana do top.

Em 1991, o homem que conhecemos por Marco Paulo celebra 25 anos de carreira com um best of onde reúne os seus maiores êxitos até à data, mais quatro inéditos. Um deles é este lendário “Taras e Manias” (um original de Elymar Santos), que à lamechice pegada de Bryan Adams contrapõe uma paixão erótica e despudorada. Enquanto o canadiano roga à menina que o olhe bem nos olhos, perscrutando os interstícios da sua alma bajoja (“Look into my eyes / You will see / What you mean to me / Search your heart / Search your soul / And when you find me there / You'll search no more”), o português contempla a “cara de menina levada para a brincadeira”, que é “uma lady na mesa, uma louca na cama”, capaz de realizar todas as suas fantasias.

Além de interromper pontualmente a liderança de Adams em Setembro, Marco Paulo acaba assim por se impor no final de Outubro. No top de singles mais vendidos, publicado pela Música & Som no dia 27 desse mês, “Taras e Manias” é primeiro e “Maravilhoso Coração”, outro dos inéditos desta colectânea (original do espanhol Raphael), ocupa já a segunda posição.

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Há 20 anos: Outubro de 2001

Os Estados Unidos invadem o Afeganistão. O IRA anuncia que vai renunciar à luta armada. O voo 1812 da Siberian Airlines despenha-se no Mar Negro depois de ter sido atingido por um míssil ucraniano: 78 mortos. O fotojornalista Robert Stevens torna-se a primeira vítima mortal na vaga de ataques terroristas com cartas contaminadas com Anthrax nos Estados Unidos. A Apple lança o iPod, o Windows XP chega ao mercado.

Há canções que têm várias vidas e esta é uma dessas. “Lady Marmalade”, originalmente gravado pelas Labelle em 1974, ressuscitou por duas vezes nas décadas seguintes: em 1988, com as All Saints, e em 2001 com esta versão de Christina Aguilera, Mýa, Lil' Kim e Pink para Moulin Rouge (teve também uma versão menos notável, gravada em 1987 pela transbordante Sabrina, que vale muito a pena espreitar). É uma das raras canções que conseguiu chegar a número 1 da Billboard Hot 100 com duas versões diferentes (primeiro com as Labelle, depois na banda sonora do filme de Baz Luhrmann). Por cá, a pergunta “Voulez-vous coucher avec moi, ce soir?” faz-se ouvir com especial afinco entre Agosto e Outubro de 2001, quando a canção foi número 1 do top ao longo de sete semanas.

A disputar atenções com “Lady Marmalade” temos por estes dias “Elevation”, dos U2. É a terceira faixa e também o terceiro single a ser extraído do álbum All That You Can't Leave Behind, entra directamente para o número 3 da tabela de singles a 21 de Julho, chega a número 1 nas três primeiras semanas de Agosto, cai para número 2 à sombra de Aguilera & Cia, e regressa em força no mês de Outubro, tornando-se uma vez mais na canção mais batida nas ondas hertzianas nacionais.

De resto, a voz de Bono é então omnipresente em Portugal. Um ano antes, a 28 de Outubro de 2000, “Beautiful Day” era já número 1 do top nacional de singles por sete semanas, até meados de Dezembro. Depois, a 3 de Março de 2001, Stuck in a Moment You Can't Get Out Of”, o segundo single, chega a número 2, a sua melhor posição – e só não trepa até ao primeiro lugar por culpa de “Touch Me”, o tema com que o português Rui Da Silva se fez ouvir por toda a Europa e que já aqui evocámos na Nostalgia de Maio. Contas feitas, é um ano inteiro de U2 a bater nas rádios com uma frequência constante.

Há 10 anos: Outubro de 2011

Morre o histórico déspota líbio Muammar Kaddafi. A líder da oposição birmanesa, Aung San Suu Kyi, vence o prémio Nobel da Paz. O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, anuncia um novo pacote de austeridade previsto no Orçamento do Estado para 2012, que elimina os subsídios de Natal e férias para os funcionários públicos e para as pensões acima de mil euros. A ETA anuncia o fim da acção armada. A ONU informa que a população mundial ultrapassou os sete mil milhões.

Há dez anos, por esta altura, não havia como escapar a Adele. Vimos já na Nostalgia de Agosto como ela consegue o feito de ser a mais badalada das inglesas numa terra onde elas costumam abundar nesse mês. No pico do Verão, Adele chega mesmo a ocupar simultaneamente a primeira e a segunda posição do top nacional de singles, com “Someone Like You” e “Rolling in the Deep”, ambas retiradas do álbum 21. A febre continua Outono adentro. Durante todo o mês de Outubro, “Someone Like You” é ainda a canção escutada em frequência modulada, acumulando um total de nove semanas em primeiro lugar. Se considerarmos o tempo de vida total das duas canções no top 50 nacional, a coisa torna-se ainda impressionante: vai de Fevereiro de 2011 a Janeiro de 2013.

Música para os seus ouvidos

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Ah, as manhãs. Esse pedaço de discórdia da humanidade, ora pendendo para os que de nós acordam em euforia ora pendendo para os que odeiam tudo no começo do novo dia. Mas não se inquiete porque, ao contrário dos nossos antepassados, temos muitas e boas soluções musicais para superar a pior das manhãs.

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Por mais anos que passem, os concertos no banho continuarão a ser fenómenos. Isto porque, se pensar bem, há poucas coisas mais hilariantes do que aquele mini concerto à porta fechada que todas as manhãs – ou tardes ou noites, somos inclusivos nos horários – acontece sem pudores.

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