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Bifanas? Tem. Pregos? Tem. Moelas? É Na Boa

Mateus Freire tem um novo projecto, mesmo em frente ao Intenso. A cozinha portuguesa mantém-se como raiz, mas aqui é para petiscar e ver a bola. Como numa tasca tradicional, com imperiais a saírem fresquinhas e com preços honestos.

Hugo Torres
Escrito por
Hugo Torres
Director-adjunto, Time Out Portugal
As moelas do Na Boa
Carlos Vieira | As moelas do Na Boa
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Apontar o dedo aos mais novos é um vício transgeracional. As causas podem ser as mais diversas e o linguajar “jovem” é, habitualmente, um deles. É consensual que a geração anterior à nossa fala de forma confrangedoramente anacrónica e que a geração posterior é essencialmente descerebrada e está a matar o idioma de todas as formas possíveis e imaginárias. Por exemplo, contaminando o discurso com estrangeirismos e neologismos – pior, misturando línguas na mesma frase. A Time Out não é inocente. Com a mania que é jovial e irreverente, escreve sobre rooftops para aqui, shopping para ali, happy hours para acolá… Ou seja, terraços, compras, convívios de fim de tarde. Outra: sports bars. Aonde é que íamos virar imperiais, petiscar e ver desporto com os amigos antes dos sports bars?

A questão surge à mesa do Na Boa. A resposta? Não é preciso ir à procura de algo muito elaborado: íamos aos cafés, às tascas e, se o horário e a carteira a isso convidassem, ao restaurante de bairro com uma, duas, três televisões, porventura com uns cachecóis e umas camisolas de jogo nas paredes. O Na Boa é um novo projecto na Rua da Boavista, naquela zona em que o Cais do Sodré começa a ser Santos, mas foi pensado para preencher esse espaço antigo das nossas vidas. Não é uma neo-tasca, nem neo-coisa nenhuma. É um sítio com cerveja a 1,60€, salgadinhos, chouriço assado, bifanas e pregos, que durante o dia passa música dos anos 1970, 80 e 90 com os videoclipes na TV, como se estivéssemos no tempo dos cafés de antenas parabólicas sintonizadas na MTV ou no VH1, e que, quando é hora de jogo grande, nacional ou internacional, muda a programação televisiva para a bola.

O conceito é não haver conceito é uma frase feita, engraçadinha e armada em popular, mas com o seu quê de reaccionária. Digamos antes do Na Boa que tem um conceito de uma época em que não se pensava nesses termos: os sítios eram o que pareciam e pareciam o que eram. A abordagem é simples, sem que isso seja sinónimo de pouco cuidada. O menu é de Mateus Freire, chef do Intenso, comodamente do outro lado da rua (“foi uma sorte”, diz). Em ambos desenvolve a sua cozinha de eleição, portuguesa, tradicional, apesar de no restaurante ter uma abordagem mais autoral e aqui, nesta tasca contemporânea (digamos assim), ser mais directo. “Sandes boas a um custo porreiro”, resume Mateus. “Sandes diferentes, mas tradicionais. E só digo diferentes porque há pouco disto em Lisboa.”

A sala do Na Boa
Carlos VieiraA sala do Na Boa

O ex-libris da casa é a bifana. O chef conta que foi esse o ponto de partida para pensar este espaço e que andou pelo país para provar receitas diferentes e descobrir exactamente o que pretendia para o Na Boa. Acabou por se converter às do Porto, em particular às da Conga – embora a sua bifana tenha menos picante, para tentar agradar também a palatos mais sensíveis. O pão é bijou, a carne é ripada e o molho… “é segredo”. O chef puxa dos galões, confiançudo: “É uma das melhores bifanas que há em Lisboa”. A fasquia é alta, o preço nem por isso. Esta sandocha de carne de porco custa 4€. Combinada em menu, com bebida e batata frita, fica a 8€; no prato, isto é, sem pão mas com arroz, batata frita e salada, o preço é 9,50€. A proteína é tratada sempre da mesma maneira, não muda.

A bifana do Na Boa
Carlos VieiraA bifana do Na Boa

Isto é igualmente verdade para as outras quatro sandes no menu: o prego, feito com uma carcaça recheada com o pojadouro de raça Alentejana, também ripada, “para ser mais fácil de comer”, e lubrificada com um “molho especial feito à base de cebola” (6€ no pão, 10€ em menu, 11,50€ no prato); o panado de frango, servido em pão de forma caseiro, com tiras de pimento vermelho, picles de pepino e maionese (4,50€, 8,50€, 9,50€); o prego de atum, em bolo do caco, com picles caseiros e maionese de sriracha (10€, 13,50€, 14,50€); e a proposta vegetariana, a sandes de panado de cogumelos (4,50€, 8,50€, 9,50€). Mateus frisa que é tudo “muito directo, sem inventar nada”. “Não estamos cá para inventar nada”, afirma.

O chouriço assado do Na Boa
Carlos VieiraO chouriço assado do Na Boa

O Na Boa tem 38 lugares sentados, mais 20 a 30 de pé. Há uma espécie de ilha logo à entrada que funciona como um balcão colectivo, alto, quadrangular, para melhorar a dinâmica da sala. As tascas de sandes têm amiúde balcões destes, fora da zona de serviço, para ir comendo, ir bebendo e ir andando, sem empatar o trânsito no espaço. “Isto é um sítio de comida rápida, um fast food mas bem feito. Podes estar sentado, podes estar a pé”, observa o chef. “Temos muitas empresas aqui à volta e o objectivo também é trabalhar esse mercado” – e muitas vezes, continua, o que essas pessoas precisam é de “comer rápido e andar”. “Têm que sentir que ficam confortáveis, mas ao mesmo tempo que se despacham.”

Mateus Freire
Carlos VieiraMateus Freire

Tudo certo. Acontece que o que mais nos entusiasmou no menu aponta em direcções distintas. Por um lado, os pastéis de bacalhau perfeitos (2,75€) – estaladiços, arejados, bem desfiados e uniformemente recheados – são uma óptima solução para esses momentos apressados; por outro lado, as moelas (8€) – tenrinhas, com picante qb e, aqui somos nós a dizer, um achado na cidade – convidam a uma estadia mais prolongada. Imaginemos: junta-se uma mesa de quatro, vem um chouriço assado (8€), um prato de presunto (8€), outro de paio do lombo (8€), um queijinho seco (3,75€), uns rissóis de camarão (2,75€), umas chamuças (2,75€, de frango ou vegetais, das poucas coisas que vêm de fora, feitas por uma “senhora goesa”), quem sabe um caldo verde (4€)... e uma sandes para cada um. Se formos dessa gente que precisa de sobremesa, há vários clássicos: mousse de chocolate, pudim flan, arroz doce, leite creme e salada frutas (todas a 4€).

Na Boa
Carlos VieiraNa Boa

O que fica a faltar? Bebida. Além da imperial a 1,60€, há canecas de cerveja a 3,50€ e uma tradição que começou a desaparecer das nossas vidas: panachés (2,20€). Há ainda vinho da casa (copo 4€, garrafa 15€), sangria (copo de imperial 3€, caneca 7,50€, jarro 15€) e espirituosas obrigatórias em qualquer tasca que se preze – bagaceira, aguardente velha, whisky, vinho do Porto, ginginha e alguns licores, e ainda tequila, vodka, rum, gin (com os preços a variar entre os 2,50€ e os 8€). Não é preciso tanto? O café com cheirinho (2,20€) está no menu, não precisa de piscar o olho a quem está atrás do balcão e pedi-lo em surdina. Mas se o fizer ninguém o vai recriminar: é porque está no espírito certo.

Rua da Boavista, 128 (Cais do Sodré). Ter-Dom 16.00-00.00

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