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Biblioteca, Biblioteca de São Lázaro, Livros
©Joana FreitasBiblioteca de São Lázaro

Dos códices e incunábulos ao Harry Potter: uma viagem pelas bibliotecas em Lisboa

Uma primeira edição de 'Os Lusíadas'? Está na Academia das Ciências, morada de uma das bibliotecas que merecem a sua visita. Mas há muito mais para ler e conhecer.

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Escrito por
Maria Ramos Silva
e
Raquel Dias da Silva
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Bem-vindo a um arquivo sem-fim de livros, monografias, fonogramas, periódicos e muito, muito mais. Temos museus e recantos municipais, espaços que nos fazem recuar à época medieval e outros que ainda cheiram a fresco. Apresentamos algumas das melhores bibliotecas em Lisboa para pôr na sua lista de “próximos locais a visitar na cidade”. Estes espaços vão poder finalmente reabrir: a Rede de Bibliotecas de Lisboa já o anunciou, avisando só que continua a ser preciso fazer marcação para uso de mesas e computadores. Mas habitue-se às novas regras por causa da pandemia: o uso de máscara é obrigatório e o melhor é reservar ou saber em que turnos pode visitar as bibliotecas da cidade. Boas leituras. Ah, se ainda está a pensar na palavra “incunábulo” aqui vai uma pequena ajuda: trata-se de um livro impresso nos primórdios da imprensa, com recurso a tipos móveis.

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Bibliotecas em Lisboa

Biblioteca Manoel Chaves Caminha
  • Coisas para fazer
  • Alvalade

Depois de ter encerrado para obras de reabilitação no Verão de 2018, a Biblioteca Manoel Chaves Caminha reabriu em 2019 com melhores condições e uma agenda preenchida. Para quem teve o prazer de a visitar antes do encerramento por causa da pandemia, sabe que as mudanças estão logo à vista, nomeadamente através da rampa colocada à entrada a pensar nas pessoas com mobilidade condicionada – há também instalações sanitárias adaptadas. Mas a maior novidade foi a aposta nas, entretanto suspensas, actividades para toda a família e na criação de uma comunidade de leitores, moderada pelo escritor Gonçalo M. Tavares. No segundo andar, há uma sala dedicada ao público infanto-juvenil, com livros, jogos e uma tenda de circo para os miúdos darem largas à imaginação. No último piso, há mais obras para consultar ou requisitar, mas destaca-se sobretudo o espólio deixado por Manoel Chaves Caminha e a iluminação natural, com o sol a bater nas paredes e no mobiliário branco.

  • Atracções
  • Bibliotecas, arquivos e fundações
  • Campo de Ourique

Inaugurado em Fevereiro de 1931, passou de sala de espectáculos incrível a edifício abandonado em 1981. Só em 2010 é que se começou a falar na sua salvação – a instalação do equipamento cultural estava previsto na candidatura do movimento SOS Cinema Europa ao Orçamento Participativo de 2009/2010, que acabou por dar frutos. Em 2017, o antigo Cinema Europa, em Campo de Ourique, reabriu como biblioteca e, além de milhares de livros, é também composta por uma programação cultural complementar. Mais: é primeira biblioteca pública Europe Direct Center em Lisboa, com um programa de informação e actividades sobre a União Europeia. Na fachada mantém-se a escultura que lhe dá graça, de Euclides Vaz.

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  • Coisas para fazer
  • Lisboa

É perto do Campo Mártires da Pátria que se esconde um dos pequenos grandes tesouros da cidade. Criada em 1883, a Biblioteca de São Lázaro está instalada num edifício de arquitectura neoclássica erudita dos finais do século XIX. Quem mergulha neste espaço desemboca no famoso Salão Nobre da mais antiga biblioteca municipal da capital, que apresenta ainda outro detalhe relevante: esta é também a casa da colecção “Memórias de Outra Infância”, composta por oito mil volumes publicados em Portugal para a infância e juventude. Atente na mezanine e no mobiliário da época.

  • Atracções
  • Bibliotecas, arquivos e fundações
  • Marvila

Biblioteca de Marvila é a mais recente e a maior de Lisboa, com quase três mil metros quadrados. Uma casa senhorial abandonada há décadas, a Quinta das Fontes, foi ocupada por um auditório com 187 lugares, uma horta comunitária e 23 mil obras para consulta com foco na arte urbana e cultura hip-hop, para não falar de estrelas mais recentes dos livros como Harry Potter. Mais do que um equipamento de acesso a livros e à cultura, esta Biblioteca, assume-se como um lugar da comunidade e para a comunidade. O projecto, com o Lagar de Azeite no centro, tem a assinatura do arquitecto Hestnes Ferreira. Fica o convite para a deslocação a Marvila. 

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  • Coisas para fazer
  • Chiado/Cais do Sodré

Um exemplar da primeira edição, autêntica, d'Os Lusíadas? Encontra-o na Biblioteca da Academia das Ciências, fundada no reinado de D. Maria I e D. Pedro III, em 1779, em pleno Iluminismo. Levava então o nome de Academia Real das Ciências. Séculos volvidos, continua a afirmar-se como espaço de divulgação e conhecimento científicos, estimulando ainda o estudo da língua e da literatura portuguesa. Para além das obras modernas, a sua biblioteca inclui parte da Livraria do Convento de Jesus, com dezenas de milhares de volumes impressos, manuscritos portugueses, árabes, espanhóis e hebraicos, e obras saídas dos séculos XIV a XVII, como o excepcional códice Crónica Geral de Espanha (séculos XIII e XIV), o Livro de Horas da Condessa de Bertiandos (século XVI) ou o incunábulo Biblia Moguntiae (1462).

  • Atracções
  • Bibliotecas, arquivos e fundações
  • Campo Grande/Entrecampos/Alvalade

Quando pensar no maior património bibliográfico de Portugal, pense em Biblioteca Nacional, esse projecto arquitectónico de Porfírio Pardal Monteiro. Fica na Cidade Universitária de Lisboa, no Campo Grande, para onde se mudou no Estado Novo devido à exiguidade do Convento de São Francisco, anterior morada. Na verdade, fique a saber que a biblioteca é bem mais antiga — remonta a 1796 e chamava-se então Real Biblioteca Pública da Corte. 13 é o número de andares da Torre dos Depósitos, a guardiã de todos esses livros, arquivos, jornais, revistas e partituras. Apareça, porque há sempre uma curiosa exposição à sua espera. 

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Arquivo Nacional Torre do Tombo
  • Museus
  • História
  • Campo Grande/Entrecampos/Alvalade

Monografias correntes na área da História, Religião, Genealogia e uma longa viagem ao passado. Esta biblioteca é a menina dos olhos dos fãs do arquivismo, bem como dos técnicos e investigadores a braços com um daqueles trabalhos dignos de Hércules. Tem na sua origem o espólio bibliográfico dos conventos e foi conhecido como Arquivo Geral do Reino, levando-nos até à Idade Média. De tal forma que os primeiros guardas-mores eram também os cronistas-mores de Portugal. Se ainda não meteu lá os pés, está na hora de visitar o famoso Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

  • Atracções
  • Ajuda

Preciosidades como o Cancioneiro da Ajuda, o Livro de Traças de Carpintaria, ou Da fabrica que falece a cidade de Lisboa, de Francisco d'Holanda residem na Biblioteca da Ajuda, com um importante acervo patrimonial. No total, são mais de 150 mil exemplares, destacando-se ainda as colecções de Cartografia, Iconografia e Fotografia, com toda a documentação fotográfica do século XIX e princípio do século XX. Só mais uma boa desculpa para visitar este Palácio, monumento nacional desde 1910, antiga habitação real e museu de artes decorativas.

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  • Museus
  • Belém

Bem-vindo ao mundo das cartas e dos atlas, das lições sobre Astronomia, Geometria, Aritmética, História e Geografia. Prepare-se para os calhamaços que devolvem tudo o que sempre quis saber sobre os Descobrimentos e a expansão portuguesa no mundo. E ainda para um considerável número de edições dos séculos XVI e XVII, com obras portuguesas, espanholas, flamengas, francesas ou alemãs. Some-se também o acervo alimentado pelo espólio dos Almirante Gago Coutinho e Teixeira da Mota e os contributos de outras figuras do nosso trajecto náutico. É verdade: a Biblioteca Central da Marinha é cá uma peça.

  • Museus
  • Belém

O Museu Nacional de Arqueologia foi fundado em 1893 por José Leite de Vasconcelos e o seu acervo, alojado no Mosteiro dos Jerónimos, reúne as suas colecções iniciais, bem como as de Estácio da Veiga. A estas somaram-se muitas outras, casos das colecções de arqueologia da antiga Casa Real Portuguesa, ou das colecções de arqueologia do antigo Museu de Belas Artes. Outras aqui chegaram por doação ou legado de coleccionadores e grandes amigos do museu, como Bustorff Silva, Luís Bramão, e Samuel Levy. A biblioteca inclui um acervo documental com cerca de 22 000 monografias, 1800 títulos de publicações periódicas e ainda uma colecção de 850 folhetos de literatura de cordel, cinco incunábulos e outros livros antigos, mapas e gravuras.

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Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
  • Casas
  • Campo Grande/Entrecampos/Alvalade

Tudo começou em 1859, quando D. Pedro V fundou a Biblioteca do Curso Superior de Letras, uma espécie de antepassado dos cursos actualmente ministrados nesta faculdade. Se lhe apetecer, pode dedicar um dia a consultar cerca de 300 mil monografias e mais de 1600 títulos de publicações periódicas. Não é preciso completar um sem fim de cadeiras do ensino superior para concluir que aqui encontra várias obras raras, dos séculos XVI a XX, como por exemplo uma primeira edição da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, oferecida em 1973 por Marcelo Caetano.

  • Museus
  • Belém

Está a ver, ou a ouvir, neste caso, 3353 fonogramas da recolha sonora de Michel Giacometti da música tradicional portuguesa? É na Biblioteca do Museu Nacional de Etnologia que os deve procurar. Também encontra documentos sociais e políticos, mais de 200 registos de vídeo sobre populações indígenas do Brasil, informações sobre os esquimós Inuit, sobre etnomusicologia, ou sobre a presença portuguesa em alguns locais do mundo. Quanto ao museu, tem uma vista fabulosa sobre o rio Tejo. Fica no Restelo, por cima do estádio d’Os Belenenses, e inclui uma exposição permanente com sete núcleos temáticos.

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  • Museus
  • História
  • Lisboa

A Sociedade de Geografia de Lisboa remonta a 1875 e ocupa instalações de encher o olho na baixa da cidade. Acrescente-lhe o respectivo Museu Etnográfico, com um acervo digno de nota, em especial no que toca a espécies relativas às antigas possessões portuguesas em África e Ásia. Aqui encontra uma Biblioteca e Cartoteca estrondosa, os diários de viagem de nomes como Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens, Silva Porto e Gago Coutinho, e peças incríveis dispersas por diferentes salas.

 

  • Museus
  • Estrela/Lapa/Santos

Fomentar as ligações entre Ocidente e Oriente, entre a Ásia e Portugal, é a grande missão do Museu do Oriente. E é claro que a biblioteca, ou centro documental da fundação, acompanha este desígnio. O seu fundo é constituído por cerca de 25 mil volumes de monografias, e ainda uma centena de publicações periódicas e documentação audiovisual e multimédia. Os dois maiores destaques vão direitinhos para a colecção Kwok On (composta por 13 mil testemunhos das artes performativas de toda a Ásia) e para a colecção da Livraria do Convento da Arrábida (3500 volumes de monografias, periódicos e manuscritos dos séculos XVI a XX).

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  • Atracções
  • São Sebastião

Agradeça ao mecenas Calouste Gulbenkian a criação de uma das maiores estruturas lisboetas no que à promoção da arte diz respeito. Inaugurada em 1969, a Fundação Calouste Gulbenkian tem um jardim que se tornou um dos símbolos da capital, recebe concertos, tem um museu dedicado à arte contemporânea e uma relevante biblioteca orientada para a História da Arte, as Artes Visuais, o Design e a Arquitectura. O seu fundo é composto por quase 200 mil volumes de monografias, e se é daquelas pessoas que adora coleccionar catálogos de exposições, saiba que aqui partilham o seu gosto, reunindo exemplares desde o século XIX. O que talvez não tenha em sua casa é o espólio de nomes como Luís Reis Santos, Bordalo Botto, Ernesto Soares, Alfredo Pimenta ou Viana da Mota.

  • Atracções
  • Bibliotecas, arquivos e fundações
  • Areeiro/Alameda

É uma das bibliotecas mais bonitas de Lisboa, um dos melhores exemplos de casa nobre portuguesa seiscentista e está instalada num palácio construído em meados do século XVII, destinando-se a ser a casa de campo dos Marqueses de Távora. É um bonito exemplo de casa nobre portuguesa seiscentista. O edifício é, desde 1929, arquivo, biblioteca e museu municipal. Tem mais 220 lugares sentados, salas de estudo com horário alargado, um espaço para crianças e salas polivalentes e de trabalho, com acesso livre à internet e um espaço lounge.

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  • Atracções
  • Princípe Real

Aberta ao público desde Outubro de 2009, a Biblioteca Arquitecto Cosmelli Sant’Anna tem novas instalações desde 2017 e está toda mordenaça, com anfiteatro e áreas dedicadas aos leitores infantis (em idade mesmo). E a colecção de livros engloba um espólio que o arquitecto Cosmelli Sant’Anna tinha doado em 1987 à então Junta de Freguesia de São Mamede. Hoje pertence à Junta de Freguesia de Santo António e tem mais de quatro mil obras nacionais e internacionais que cruzam campos tão distintos como crítica de arte, ficção ou teatro. Além disso tem várias primeiras edições de Eça de Queiroz, Fialho de Almeida e de José Rodrigues Miguéis e colecções completas de revistas dos séculos XIX e XX.

As cabines telefónicas podem ter caído em desuso mas os livros não têm que seguir o mesmo caminho. A prova disso é o encontro de ambos em pontos distintos da cidade. As Cabines de Leitura, assim se chamam estes pontos com exemplares disponíveis (também lá pode deixar os títulos de que já não precisa), estão à sua espera na Praça de Londres ou no Jardim da Parada, em Campo de Ourique.

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  • Atracções
  • Estrela/Lapa/Santos

Ao contrário de Las Vegas, o que acontece no Parlamento não fica no Parlamento (mas há uma pequena parte que vive para a posteridade no seu interior). A Biblioteca da Assembleia da República possui mais de 180 ​mil volumes, a sua maioria relacionada com a actividade parlamentar — também encontra material sobre História, Direito, Economia, Estatística e textos de organizações internacionais. A título de curiosidade, fique a saber que no centro da sala maior chegaram a estar dois bustos, o de António de Oliveira Salazar, da autoria de Francisco Franco, e o de Passos Manuel, esculpido por Anatole Calmels. Após a Revolução de Abril de 1974, um deles foi retirado (adivinhe qual) e o mobiliário remodelado. Para recuar ainda mais no tempo, acrescente-se que a biblioteca tem origem na antiga Biblioteca das Cortes, criada em 1836 por decreto do ministro Passos Manuel, para o serviço do Corpo Legislativo. 

  • Atracções
  • Estrela/Lapa/Santos

É aquele jardim bem plantado no coração de Lisboa, são aqueles cinco hectares onde se encontram figueiras-da-Austrália e araucárias-de-Cook, castanheiros-da-Índia e cedros-do-Líbano, é aquele parque infantil perfeito para levar os miúdos, e são aquelas clareiras relvadas mesmo a chamar-nos. Se o livro que estiver a ler ficar pelo caminho, aproveite para requisitar outro na Biblioteca-Quiosque do Jardim da Estrela, um vestígio de uma geração de bibliotecas de jardim que, durante décadas do século passado, contribuíram para o acesso da população de Lisboa ao conhecimento e à informação.

Outras leituras em Lisboa

  • Miúdos
  • Eventos literários

A leitura é uma peça-chave para a educação dos miúdos e uma das melhores formas de os entreter. Em Lisboa (e arredores) já existem algumas livrarias dedicadas aos mais pequenos, onde a literatura infanto-juvenil é o foco, os livros de editoras independentes – da Pato Lógico à Planeta Tangerina – têm lugar de destaque e o mundo da ilustração é a chave de ouro. 

  • Coisas para fazer
  • Eventos literários

Nem só de livros vivem estes espaços culturais em Lisboa. Há também lanches e cartas de vinhos. Outro género de literatura, portanto. São uma dúzia de livrarias especiais, onde uma visita significa muito mais do que virar umas páginas e ler meia dúzia de prefácios na diagonal. Parta então à descoberta e boas leituras (ou não). 

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  • Coisas para fazer

Alguns espaços receberam novos inquilinos, outros tornaram-se museus que celebram o trajecto dos escritores, outros, ainda, serviram-lhes unicamente de última morada. Aventure-se, deixe os livros em casa e faça-se ao caminho. Este é o guia Time Out para um roteiro literário de Lisboa onde vai poder experimentar todos os pedaços do passado, página por página.

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