Monumentos de Lisboa: estátuas de A a bronze

Falar dos monumentos de Lisboa e de todas as estátuas resultaria numa enciclopédia. Mas este é um bom ponto de partida
monumento ao calceteiro
Fotografia: Duarte Drago
Por Renata Lima Lobo |
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As estátuas são como aquele amigo que está sempre lá, mas com quem nunca conseguimos combinar um café. Estas são algumas das obrigatórias, para conhecer melhor e, de preferência, de bem perto. Há muitas coisas que os turistas fazem e todos os lisboetas devem experimentar, uma delas até passa por uma visita à Casa dos Gessos para ver o molde que deu origem à estátua de D. José I na Praça do Comércio. Mas desta vez queremos que preste mais atenção às obras finais, da mais antiga à mais polémica, ali no topo do Parque Eduardo VII.

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Monumentos de Lisboa: estátuas de A a bronze

monumento ao calceteiro
Fotografia: Duarte Drago

A retornada

Tem sido uma história atribulada para as duas esculturas em homenagem aos calceteiros que moravam em frente à Igreja de São Nicolau, na Rua da Vitória, onde ficaram apenas dois anos. Após terem sido vandalizadas e recolhidas pelos serviços da Câmara Municipal de Lisboa em 2008, regressaram à rua onze anos depois, mas com uma nova morada na Praça dos Restauradores. Uma representa um calceteiro a esculpir a pedra e a outra um ajudante com o maço de serviço, ambas sobre um desenho em calçada artística portuguesa de uma barca de São Vicente, um molde antigo que também serviu para decorar o chão na Rua da Vitória.

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Fernando Pessoa-Largo SaoCarlos
Fotografia: Ana Luzia

A literária

Como dar a volta ao texto sem falar no Fernando Pessoa da Brasileira? Falando da escultura do poeta instalada desde 2008 no Largo de São Carlos, no dia em que se celebraram os 120 anos do seu nascimento. Aqui Pessoa está irreconhecível, com um livro em substituição da cabeça, obra do belga Jean-Michel Folon (1934-2005) feita primeiro para uma mostra de escultura realizada no Castelo de São Jorge em 2001. "Homage a Pessoa", com quatro metros de altura, foi adquirida pelo município e colocada mesmo em frente ao prédio onde Fernando Pessoa nasceu e viveu até aos cinco anos.

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Cauteleiro – Largo de São Roque
Fotografia: Ana Luzia

A apostadora

Lotaria Clássica, da Páscoa, de Natal ou de Fim-de-Ano. A Santa Casa vende e dá os prémios, e um dos locais onde pode tentar a sua sorte é no quiosque em frente à sede da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no Largo de São Roque, que teve a iniciativa de homenagear os antigos vendedores de cautelas da lotaria, uma das figuras mais típicas de Lisboa antiga. A estátua do cauteleiro, da autoria de Fernanda Assis, foi inaugurada em 1987, tem tamanho real (de certeza que já existiu um cauteleiro com 1,78m) e inclui um boné com chapinha, um cigarro no canto da boca e um bilhete onde se lê "Homenagem da Santa Casa da Misericórdia. Lotaria Nacional. Ao cauteleiro".

Monumento ao 25 Abril – Parque Eduardo VII
Fotografia: Ana Luzia

A polémica

No alto do Parque Eduardo VII mora este Monumento ao 25 de Abril de 1974, da autoria de João Cutileiro, talvez o escultor mais incompreendido da nossa praça. Este monumento foi encomendado pelo município e inaugurado a 25 de Abril de 1997. E o povo chama-lhe "O Pirilau". Na altura o escultor lembrou que "o jacto de água do Lago de Genebra tem uma ejeculação muito maior". Feita a partir de um pedestal que estava destinado a uma estátua do Santo Condestável, pesa 90 toneladas e a forma fálica que se destaca simboliza mesmo a força viril e o vigor da revolução de Abril.

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Eusébio – Estádio do SLB
©P. Fernandes/wikipedia

A desportista

Era jogador do Sport Lisboa e Benfica, o que pode mitigar o interesse de alguns adeptos de outras cores. Mas Eusébio da Silva Ferreira, uma figura ímpar do desporto nacional, foi o maior marcador do Campeonato do Mundo de 1966 (em Inglaterra), ajudando a selecção nacional a alcançar um incrível, e podemos dizer glorioso, terceiro lugar na competição. Só isso já vale mais que uma visita à estátua do Pantera Negra, oferecida por um sócio do clube radicado nos EUA, Vitor Batista. Inaugurada em 1992, é da autoria do escultor americano Duker Bower. Relembramos que após a morte de Eusébio, a estátua de bronze foi inundada por cachecóis e camisolas futebolísticas em sua homenagem, levando o museu a conservá-los dentro de uma cobertura transparente que só foi retirada passado um ano.

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Dr. Sousa Martins – Campo Mártires da Pátria
Fotografia: Arlindo Camacho

A milagreira

Nem só em templos religiosos se faz o culto. Pelo menos em Lisboa, onde uma das estátuas costuma estar rodeada de flores ou de velas acesas. É a do Dr. Sousa Martins, um médico que se recusava a receber dinheiro quando tratava os mais desfavorecidos, o que lhe valeu a alcunha "Pai dos Pobres". Este monumento foi erigido em 1907 no Campo Mártires da Pátria através de subscrição pública e concretizado por Costa Motta (tio, porque há o Costa Mota, sobrinho), autor de várias estátuas em Lisboa e dos túmulos de Camões e Vasco da Gama no Mosteiro dos Jerónimos.

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Simon Bolivar – Avenida da Liberdade
©DR

A política

A Avenida da Liberdade é um verdadeiro festival de estátuas e bustos, do Marquês de Pombal aos Restauradores. Algumas herdadas do tempo do Passeio Público, um local de passeio aristocrata no século XIII (como as esculturas mitológicas que representam o rio Tejo e o rio Douro), outras acrescentadas com o passar dos séculos. Como é o caso da estátua de Simon Bolívar, o herói da independência sul-americana, inaugurada em 1978 e oferecida pela comunidade portuguesa radicada na Venezuela. Volta e meia são depositadas coroas de flores a seus pés, uma delas por Hugo Chávez quando visitou Lisboa em 2008.

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Neptuno (fonte) – Largo Dona Estefânia
Fotografia: Ana Luzia

A olímpica

Neptuno passeou-se por Lisboa antes de vir parar ao Largo Dona Estefânia em 1951. Esta estátua em mármore, da autoria de Machado de Castro, começou por decorar o antigo Chafariz do Loreto no século XVIII. Após a demolição desse chafariz, Neptuno seguiu para a Mãe de Água, depois esteve no Museu do Carmo e ainda encaixou uns tempos no Depósito de Águas dos Barbadinhos. No actual lago, Neptuno é brindado por jogos de água iluminados por projectores debaixo de água.

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D. José I – Praça do Comércio
Fotografia: Arlindo Camacho

A veterana

O mesmo autor de Neptuno também idealizou D. José I para o Terreiro do Paço. E esta obra foi pioneira em muitas coisas: é a estátua pública mais antiga de Portugal, a primeira estátua em bronze fundida em território nacional e a primeira estátua equestre. Foi erguida sobre um pedestal de pedra vinte anos depois do terramoto de 1775, ainda o rei estava vivo. Após a inauguração houve festa durante três dias, com cortejos alegóricos, fogo de artifício, exercícios militares, ópera, baile e banquete.

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Santo Condestável – Jardim Ducla Soares
Fotografia: José Fernandes

A militar

A quem folheia jornais é familiar o nome do cartoonista e caricaturista Augusto Cid, cujo traço já passou por inúmeros jornais e revistas, como os antigos Diário de Lisboa e O Século, e mais recentemente o semanário Sol. Mas o artista, que frequentou o curso de Escultura das Belas Artes de Lisboa, também tem deixado o seu cunho na arte pública da cidade. Em Lisboa são da sua autoria os painéis de azulejo do Viaduto de Sete Rios e o monumento em memória do navegador Gonçalves Zarco, em Belém, freguesia que recebeu em Novembro este portento em bronze. A estátua de Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, ganhou vida graças a um projecto vencedor da edição de 2013 do Orçamento Participativo e está no Jardim Ducla Soares.

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©DR
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Fotografia: Arlindo Camacho
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