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Este artigo foi originalmente publicado na revista Time Out Lisboa, edição 673 — Primavera 2025
O constrangimento inicial é inevitável quando, à hora marcada, diferentes pessoas chegam à morada recebida por email ou telefone – e tanto faz se o encontro acontece à porta de um prédio ou num antigo bar agora transformado em espaço de eventos. Dali a pouco tempo, todos estarão à mesa e entre brindes, a timidez desaparecerá, mas por agora (quase) ninguém se conhece. O salto para o desconhecido faz parte do encanto, tal como a vontade de conhecer novas pessoas, e explica o renascimento dos supper clubs em Lisboa. Mas não é menos importante a procura por novas experiências gastronómicas, mais íntimas e à medida, de um lado, e a necessidade de liberdade e de procura por uma vida melhor na cozinha, sem os longos, duros e rígidos horários de um restaurante, do outro. No final, chefs e clientes encontram- se, sem grandes intermediários, em jantares abertos, mas fechados, em localizações quase sempre secretas.
“Se calhar, estamos aqui para o mesmo, não?”, perguntam-nos, enquanto confirmamos no email a morada exacta onde Teresa Horta Colaço, vencedora do MasterChef Portugal em 2021 e jurada do MasterChef Júnior, nos recebe para um jantar, em que pouca coisa é pré-anunciada. Noutra noite, noutra zona de Lisboa, não estamos sozinhos à procura de uma porta nas traseiras que dará acesso a “um terraço com luzes”. “Será por aqui? O que é que dizia mesmo a mensagem do Miguel?”
Teresa Horta Colaço e Miguel Ângelo não se conhecem e têm percursos bem diferentes, mas em comum têm o facto de receberem nas suas casas grupos de desconhecidos para ao longo de três horas lhes servirem um menu pensado ao detalhe. Depois de ter conquistado o MasterChef, que lhe valeu uma entrada no Basque Culinary Center, a universidade de ciências gastronómicas em San Sebastían, uma das mais importantes no mundo, Teresa ainda passou por algumas cozinhas, mas a entrada na restauração acabou por não ser uma prioridade, também pela dificuldade em conciliar com a vida familiar. Já Miguel Ângelo fez o percurso habitual de alguém que ambiciona fazer carreira na alta cozinha. Depois da escola passou por restaurantes estrelados como o Eleven, em Lisboa, e o Mont Bar, em Barcelona, até chegar a Turim, onde trabalhou no Al Garamond e no ERAGOFFI.
“Quando voltei para Portugal, em 2023, decidi ter um tempo de descanso. Viajei, andei a divertir-me um bocadinho e comecei esta brincadeira depois. A ideia era fugir daquilo que eram os horários da restauração – trabalhava cerca de 16 horas por dia, não tinha tempo para mim, nem para as pessoas com quem eu queria partilhar esse tempo”, conta Miguel. A brincadeira à qual se refere é o Boato, o supper club que criou em 2024 com a ajuda do amigo, também chef, Daniel Sangareau – e não só não é brincadeira nenhuma, como a palavra se espalhou com a rapidez de um boato, precisamente. “Começámos a fazer jantares para amigos e amigos de amigos, até que ao terceiro, quarto jantar, começaram a chegar pessoas realmente desconhecidas”, recorda. De Outubro, quando isso começou a acontecer, para cá, não há uma sexta-feira igual em casa de Miguel. “Não estava à espera que o Boato conseguisse uma adesão tão grande e rápida.”
Não foi, nem tem sido, diferente com Teresa Horta Colaço, que já beneficiava de uma imagem pública e de quase 41 mil seguidores no Instagram quando decidiu começar a organizar uns jantares em casa. “Fiquei super surpreendida com a resposta. Eu abri a primeira temporada no final de Dezembro e esgotou logo. Abrires alguma coisa ao público que ainda não é nada e esgotar é...” Os adjectivos faltam-lhe ainda hoje. “É preciso ver que as pessoas quando reservam ainda não provaram nada, não sabem o que vêm comer. As pessoas não sabem o que é que vai acontecer quando chegam aqui”, reforça.

O fenómeno não é novo e podemos recordar, entre outros, o sucesso extraordinário que o supper club que acabaria por dar forma ao Ajitama (hoje com quatro restaurantes, contando com os dois novos Ramen Station) teve em 2017, com uma lista de espera que chegou a ter quase duas mil pessoas. Seguiu-se um boom na restauração e uma pandemia que obrigaria a repensar tudo (e juntar estranhos à mesa tornou-se na última das possibilidades). Chegados a 2025, eis uma moda renascida. Ainda em Fevereiro, o britânico The Guardian apontou “o regresso dos supper clubs” como uma das tendências na gastronomia para este ano e, na mesma altura, o Business Insider escreveu como estes jantares estão de volta, “à medida que a Geração Z se afasta das noitadas”.
“Nos anos que se seguiram à pandemia, a Geração Z ganhou a alcunha de ‘Geração Fica em Casa’. Preocupam-se menos com subir na hierarquia profissional, são mais conscientes em relação à saúde e gostam genuinamente de passar os fins-de-semana na cama – ou seja, aninhados entre os lençóis, com snacks, séries e livros, em vez de irem para um bar. Mas isso não quer dizer que não sejam sociais. Pelo contrário, os supper clubs parecem provar que esta geração está até mais aberta a criar ligações com os outros do que as gerações anteriores”, lê-se na reportagem, assinada por Maria Noyen.
E a isto junta-se o papel fulcral das redes sociais. “Ao longo da última década, o mundo da gastronomia passou a depender do Instagram: é lá que se anunciam novos projectos, onde os clientes guardam locais para a lista de ‘a experimentar’ e onde todos mostram o que andam a comer”, analisa a revista especializada Bon Appétit, dando conta ainda de como estas plataformas criaram novas oportunidades de negócios, “sobretudo durante a pandemia”. “Permitiu a pasteleiros despedidos criarem micro- pastelarias de sucesso, deu visibilidade a projectos de ajuda alimentar comunitária e serviu de montra a restaurantes pop-up com listas de espera extensas”, exemplifica. “Ajudou também a dar força aos supper clubs, à medida que os clientes procuram experiências novas e formas de se reunir. Com seguidores fiéis, estes eventos promovidos no Instagram mostram o potencial entusiasmante de modelos alternativos na restauração – os anfitriões não precisam de um site, muito menos de um espaço físico ou de um currículo culinário convencional, para fazer com que funcione”, contextualiza a publicação.
Mi casa es su casa
É no Instagram que tanto Teresa como Miguel anunciam os seus jantares – a primeira na sua página pessoal, o segundo na página do Boato. E no caso de Teresa Horta Colaço foram os seus seguidores os primeiros a ocupar a mesa do Sem Nóm, como intitulou este seu supper club, com lugar para oito pessoas por noite, apenas às quintas e sextas-feiras. “Entretanto, acontece muito o passa a palavra. As pessoas vêm e de repente falam com amigos e depois os amigos já querem vir. Já tive até pessoas que repetiram, que vieram no menu de Janeiro e voltaram agora. E muitas das pessoas acabam e dizem ‘quando mudar o menu avisa que eu gostava de experimentar outra vez’”, diz Teresa, que ganhou a coragem de dar forma a estes jantares no início do ano, depois de partilhar muitas das suas reflexões no Instagram ao longo dos últimos meses. “Esta ideia surgiu um bocado da vontade de poder partilhar a minha comida com as pessoas e poder usar a criatividade na cozinha, que é uma coisa que eu gosto muito de fazer, sem estar presa a um menu. Achei que este conceito, pelo registo que tenho, ia permitir fazer isso tudo”, explica no fim de mais um serviço, desta vez um grupo em que todos se conheciam e que em vez de irem juntos a um restaurante optaram por este modelo, mais íntimo. “É muito engraçado porque eu tenho todas as faixas etárias. Todo o tipo de pessoas – sempre portugueses. E tanto posso ter um grupo de oito amigos que reservam a experiência, como aconteceu hoje, como amanhã vou ter diferentes pares. Também tenho pessoas que vêm sozinhas. Acho que apanho um bocadinho de tudo”, ri-se.

É de jaleca que Teresa recebe quem chega, numa sala harmoniosa e aberta para a cozinha, com música de fundo e meia-luz. Sem grandes formalidades e rodeios, explica o que há para explicar, sem nunca se impor ao grupo. Conta que o menu tem cinco momentos (65€) e as bebidas não estão incluídas, mas há kombucha e quatro vinhos disponíveis, escolhidos por Daniel Silva, sommelier do Essencial. “Eu vou pedir-vos para conservarem os vossos talheres no pousa talheres até à sobremesa porque eu não vou ter logística para trocar de talheres. Os pratos vão ser trocados a cada momento. Depois, no aparador há um jarro com água, estejam à vontade, eu não vou conseguir controlar as questões da água, do vinho, das bebidas. Vão-se levantando, vão-se servido. Se faltar a água e eu não me aperceber, digam”, começa por dizer, antes de servir o pão, o azeite com umas ervas e especiarias e a manteiga com uma calda de alface do mar e a própria da alface do mar desidratada.
“Quando idealizei isto, a minha ideia era ter oito momentos, mas percebi que não ia dar. Porque sou só uma”, confessa. “Percebi que cinco era aquilo que fazia sentido, mais do que isso era uma logística muito grande”, acrescenta, revelando que apesar de só dar dois jantares por semana, o Sem Nóm, entre todas as preparações e mudanças de pratos, acaba por lhe ocupar grande parte da semana. Além disso, não é por não estar num restaurante que não lhe aplica a mesma exigência e rigor. A cada prato dá uma explicação do que serve, sem se alongar demasiado também para não atrasar o jantar, aproveitando para dar a conhecer a cozinha que a levou a vencer o MasterChef. “A minha ideia é desmistificar um bocadinho o conceito plant based”, afirma. “Há uma grande confusão, as pessoas acham que plant based significa veganismo ou vegetarianismo. Ou seja, que não entra proteína animal, mas, na verdade, significa trazer para o centro do prato os vegetais. Não significa que eu não possa ter um jus de porco, por exemplo”, justifica.
No Boato, Miguel faz mais ou menos o mesmo. Ou seja, apresenta-se através dos pratos, mas duplica o menu e para isso ajuda não estar sozinho – tem o apoio de um amigo. O menu tem o preço de 50€ e as bebidas ficam por conta dos comensais que são convidados a levar uma das suas garrafas preferidas, apesar de Miguel também dar sugestão de vinhos quando envia a mensagem com a morada. À chegada, as garrafas são deixadas na cozinha. A mesa fica numa pequena sala, longe da vista de Miguel, e em cada lugar há uma carta que dá mote para conversa. Desafia-se a falar sobre memórias de infância à volta da comida, sobre personalidades que dariam uma boa companhia à mesa ou até sobre a profissão de cada um. “Criei essas cartas para quebrar o gelo, depois de um jantar um bocadinho calado. Não costuma acontecer, mas é importante principalmente porque estás a trabalhar com pessoas que não se conhecem de lado nenhum”, assume.
Na noite em que nos sentámos à mesa do Boato, o grupo não podia ser mais diverso. Metade das pessoas conheciam- se, mas nem por isso se sentaram lado a lado, afinal vinham para uma experiência diferente. Havia um casal, pais recentes e que ali viram uma oportunidade de fazer um programa distinto, e duas pessoas, em diferentes faixas etárias, que chegaram sozinhas e, que curiosamente, mais à frente, perceberam que ambas já tinham participado em jantares da Timeleft, a aplicação que organiza jantares com desconhecidos em restaurantes de Lisboa – um conceito diferente do supper club. Em comum, a vontade de ter uma experiência nova, talvez até mais forte do que a curiosidade pela comida. “O conceito é mesmo esse, divertir pessoas, não é só gastronomia, é social também”, acredita Miguel Ângelo.


Foi de alguma forma com esse intuito, sem nunca descuidar a comida, que nasceu este ano o projecto imersivo Hand on Table pelas mãos de Sandra Mendes, uma mente criativa e irrequieta, capaz de dar forma às ideias mais loucas, como faz questão de frisar, através da sua plataforma Bengie. Escrever que não há um jantar igual não chega para explicar o que se passa nestas noites em que a música, a arte e a gastronomia se fundem, em cenários sempre diferentes e secretos. Já houve um jantar num antigo bar de striptease e, mais recentemente, outro num antigo armazém, hoje reconvertido em espaço de eventos.
“Esta vontade de ligar pessoas e conectar criativos está comigo desde miúda, o que aconteceu agora foi a coragem de dizer: é hora de fazer”, aponta Sandra, destacando como o Hand on Table é um projecto colaborativo porque de outra forma não poderia envolver tantas disciplinas diferentes. “O nosso objectivo não é só fazer um jantar ou só um evento normal”, elucida. “A ideia é que as pessoas se conectem mais e que tenham melhores momentos e que realmente partilhem e desfrutem. Isto é também um bocadinho uma pausa para se distanciarem do mundo real.”
O cenário é sempre pensado ao detalhe. A meia-luz não é só uma meia-luz, há uma visão por trás. A mesa nunca está igual – os guardanapos, por exemplo, são sempre feitos para cada jantar. A música é de um DJ convidado e o menu é de um chef (ou mais) desafiado por Inga Martin, actualmente no Mona Verde e que não pensou duas vezes quando Sandra a chamou para estas noites. “O que me chamou logo à atenção foi esta ligação entre a gastronomia, a música e a produção que a Sandra faz e que é super interessante. Há uma sinergia brutal entre todos”, explica a chef que no primeiro jantar, em Fevereiro, partilhou a cozinha com Diogo Lopes, chef de pastelaria do hotel Ritz, enquanto no segundo, que aconteceu em Março, entregou o jantar a Hugo Candeias, chef do Ofício, que nem de propósito criou recentemente o Ofício Supper Club, não exactamente um supper club (são antes jantares especiais a quatro mãos com chefs internacionais), mas provando que o termo está na moda.
“Não consigo estar a cozinhar em todos os jantares, mas também conheço tanta gente e tanta gente quer fazer coisas comigo e eu quero fazer coisas com essas pessoas, que foi isso que sugeri à Sandra, contactar pessoas com quem eu gosto de estar na cozinha, pessoas que eu acho interessantes e que conseguem fazer uma coisa gira no projecto”, contextualiza Inga. “Eu posso convidar um chef e esse chef se quiser trazer outro para vir cozinhar com ele. O chef tem total liberdade. A única coisa que pedimos é que o menu esteja ligado ao tema”, acrescenta. A acompanhar todo o jantar de Hugo Candeias, que acabou na cozinha, esteve o DJ Ramboiage e a bailarina Isabella Souza.


“O nosso palato é o sentido mais forte, é o sentido que activa os outros quatro. Portanto, a comida fazia todo o sentido. A música para mim é a vibração, nós viemos daí, e os visuals porque eu vivo da estética, eu vivo para a estética. Achando que estamos todos um bocadinho desconectados, pensei em como é que nos poderíamos conectar. É um bocadinho isso que eu estou a tentar criar”, acrescenta ainda Sandra Mendes, responsável também por escolher o lugar de cada pessoa. Ao contrário dos jantares de Teresa Horta Colaço e de Miguel Ângelo em que não são impostos lugares, no Hand on Table, Sandra não facilita. Afinal, não há ali nada deixado ao acaso. “Apesar de ter cometido um erro no último jantar”, confessa. “Cedi aos pedidos da menina Inga e do menino Hugo para pôr pessoas juntas e isso não volta a acontecer. Isto não é um jantar de amigos. É muito fixe virem todos, mas não têm de ficar juntos. Senão, criam-se grupinhos e esse não é o objectivo. Berrem para o outro lado da mesa. Levantem-se e usufruam do espaço porque o espaço também faz parte do projecto”, remata de forma despachada e entre gargalhadas, reforçando que “o objectivo é que as pessoas comuniquem com pessoas que não conhecem.”
E como são, então, decididos os lugares? Tudo começa com um manifesto de intenções. Ou seja, assim que os jantares são anunciados nas páginas de Instagram do Hand on Table e do Bengie através da venda de bilhetes, cujos preços rondam entre os 100€ e os 150€, dependendo da experiência, os interessados em participar são convidados a responder a cinco perguntas aparentemente simples: nome, profissão, restrições alimentares, aniversário e, a mais importante, porque quer fazer parte do momento. “Não vamos seleccionar ninguém, mas quando as pessoas respondem a esta questão estão a colocar, sem saberem, uma intenção”, esclarece Sandra, para quem estes jantares podem servir tanto para criar “oportunidades de business” como para “criar oportunidades de romance”. “É o que as pessoas quiserem sonhar”, exclama. “Por exemplo, és jornalista e eu sei que há aqui uma marca a nascer, com um potencial gigante. Faz sentido, se calhar, ficarem perto para poderem falar”, completa.
“A cena gira é que em cada evento tu crias uma ligação com as pessoas de forma totalmente diferente, até porque são sempre pessoas diferentes, são sempre sítios diferentes e cada sítio tem a sua dinâmica”, conta Inga. O próximo jantar do Hand on Table já tem data marcada: 14 de Maio. A localização só é revelada aos participantes próximo do dia. Na cozinha, desta vez, estará o chef Vítor Hugo.
Isto não é um restaurante
Luís Castelo, por sua vez, desenvolveu um modelo diferente de supper club, ainda antes desta nova febre. Não recebe pessoas em casa, nem cria acontecimentos, tem antes um espaço, a Oficina Oito, junto à Alameda, que foi pensado para isso, com a particularidade de ser também o atelier e showroom da joalheira Leonor Silva. “Há sete anos, nascemos com esse intuito. A decoração do espaço é mais próxima a uma sala de jantar. Quando alguém se senta aqui à mesa é mais natural que se sinta numa casa do que num restaurante e isso foi propositado”, explica o responsável, que viu o termo “supper club” cair em desuso. “Agora renasceu, mas o que pessoas como eu faziam, manteve-se. Há é outros vão surgindo e se calhar também daí esta nova fase”, analisa. “Hoje em dia já há espaço para muita coisa diferente dentro da restauração.”

Na Oficina Oito, a agenda é preenchida com workshops gastronómicos, que incluem a refeição, partilhada entre estranhos, e jantares mais ou menos fechados. Luís organiza um que obriga a uma reserva de um grupo fechado e onde tudo se desenrola em torno de um mistério que precisa de ser resolvido durante a refeição. Há outro pensado para um público estrangeiro e que tem como intuito dar a conhecer a cozinha portuguesa, mas é o Ramen Supper Club, com Nuno Gonçalves que mais tem dado que falar – e não é para menos. Nuno, vindo do SUGOI! e com passagens por restaurantes como o Rabo d’Pêxe ou o Afuri, é um mestre no que faz.
Todas as quartas-feiras, prepara um ramen em frente a cerca de uma dezena de convivas. O jantar, que além do ramen inclui snack, sobremesa e uma bebida, custa 25€ e é uma verdadeira lição, com o chef a detalhar cada passo que dá e pronto para responder a qualquer pergunta. Foi a vontade de criar sem amarras que o levou a sair do SUGOI!, em Marvila. “Pela primeira vez na minha vida eu não tenho um plano e até sabe bem, mas se eu tivesse um plano seria algo como isto que estou a fazer”, conta, enquanto prepara um ramen fora da caixa, como os que gosta de fazer, com morcela e caldo de frango do campo. “Se eu tivesse de dar um nome a este ramen seria shoyu de frango do campo”, brinca, lembrando o ramen de Bulhão Pato que fez sucesso em Marvila. “O que eu gosto é de inventar novos ramen. Senão é bué aborrecido e eu odeio rotina.”
Apesar de saber que todas as semanas tem encontro marcado com o desconhecido, não sofre a pressão de trabalhar num restaurante. O ambiente é mais recatado e a proximidade que Nuno Gonçalves proporciona acaba por também ajudar a quebrar o gelo entre quem chega para comer, basta que o chef comece a falar das “mil e uma maneiras de se fazer ramen”, ao contrário do que se possa pensar. “O ramen é um bocado o punk rock da comida japonesa, podemos brincar um bocadinho com tudo. O pessoal pensa que por ser japonês tem de ser assim e mais não sei o quê. Não é bem assim. Os japoneses são mestres a inventar. Há ramen de café, há ramen com gelado, há ramen com tudo”, revela. “O ramen artesanal é a minha paixão”, adianta, sem vontade de voltar, pelo menos por agora, para uma cozinha industrial. “O que eu quero maioritariamente é ficar a solo e dedicar-me ao ramen artesanal, seja com os workshops, que eu gosto muito de ensinar as pessoas, seja com estes jantares e alguns pop-ups.”

Na verdade, nem Miguel Ângelo ou Teresa Horta Colaço se vêm igualmente a trocar estas experiências por um regresso aos restaurantes. “Estou contente com aquilo que tenho feito. Vejo-me a criar consistência e possivelmente no futuro a ter o mesmo conceito, mas num espaço meu, que não seja a minha casa”, conclui Miguel com uma resposta não muito diferente da de Teresa. “Eu tenho uma atracção muito grande pelo trabalho que é feito dentro de um restaurante, aquela adrenalina, toda a dinâmica que acontece lá dentro, mas depois sinto que há uma prisão muito grande associada a isso e então estou aqui um bocadinho num limbo”, elabora. “Estou a deixar a coisa ir. Não posso dizer que nunca vou ter um restaurante, mas pensando idealmente, o que eu gostaria era transitar este projecto para outro espaço. Imagino agarrar nesta sala e nesta cozinha e pô-la num sítio na rua e se calhar dar jantares duas vezes por semana e noutro dia abrir para dar um workshop. Ou seja, não seria um restaurante, mas uma coisa híbrida que me permite ter esta flexibilidade.”
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