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O mais famoso bife de Lisboa ganha esta semana uma nova morada, dentro do hotel do Benfica e onde no arranque do século XX viveu um clube privado de cavalheiros. Fomos almoçar ao último Café de São Bento da cidade – palavra do responsável Miguel Garcia, que não está interessado em redes ou franchisings.

Em Julho de 1919, lia-se no jornal A Capital: “O Bristol não será apenas um grande club pelo luxo estridulo das suas installações, em que se despenderam muito mais de duzentos contos de reis até hoje; tambem pela sua frequencia selecta, pela cathegoria das pessoas que n’ele se inscrevem, creará uma roda chic, de supremo bom tom, que não terá rival em Lisboa, pelo espirito, pela fortuna e pela intelligencia.”
Na próxima quinta-feira, dia 15 de Janeiro – mais de cem anos depois da inauguração do clube privado de cavalheiros na Baixa, que posteriormente foi também secretariado do Benfica –, o salão de baile no primeiro piso do edifício histórico ganha uma nova vida como Café de São Bento. Trata-se do terceiro, e último, de Lisboa, depois do espaço original junto à Assembleia da República e da loja no Time Out Market (abriu ainda um em Cascais em 2025). “Não quero transformar isto numa cadeia, não quero expandir mais, não me revejo nisso”, disse Miguel Garcia em entrevista exclusiva à Time Out, dias antes da abertura oficial, enquanto ainda se testavam os últimos detalhes do novo restaurante.
“Esta oportunidade surgiu há dois anos e meio, quando um amigo meu viu os 3D do projecto da Feels Like Home [empresa que transformou o edifício centenário no Hotel 1904, do Benfica] e disse aos responsáveis que a parte do restaurante era a cara do Café de São Bento. Falámos e correu lindamente – fechámos logo acordo”, continuou o empresário.
O edifício no Largo do Regedor, que faz esquina com a Rua das Portas de Santo Antão, tem agora duas entradas independentes – a do hotel da Fundação Benfica e a do restaurante, esta com o toldo vermelho característico da casa-mãe e um funcionário de laço preto e colete de xadrez a dar as boas-vindas. O caminho até ao primeiro piso dá as primeiras pistas sobre o que vamos encontrar: o ambiente quente e acolhedor, a decoração clássica e aristocrática e o serviço de excelência que o restaurante tem mantido nos últimos 40 anos. Nas paredes do hall e da escadaria há fotografias e ilustrações do Bristol Club, do Café de São Bento e dos cafés Marrare, onde terá nascido a receita do famoso bife da casa.
Uma vez lá em cima, de um lado fica o bar e do outro o restaurante cheio de luz natural – ambos com assinatura da arquitecta Inês Moura, com quem o grupo São Bento tem trabalhado em projectos como o Bougain, o Corleone e o Snob. O veludo vermelho, o cabedal, a madeira e a luz amarela são comuns às duas salas, tendo o bar 1904 centenas de referências emolduradas à história do clube da Luz – de fotografias de equipas antigas a panfletos, bilhetes para jogos ou documentos assinados por figuras relevantes do Benfica.
Já no restaurante com o tecto espelhado e as mesas quadradas iguais às do restaurante original, produzidas em Paços de Ferreira em dois tons de madeira, brilham duas impressionantes esculturas femininas, em tamanho real, originais e protegidas pelo Património Cultural IP (antiga DGPC). São do artista modernista português Leopoldo Almeida, responsável por obras como o Padrão dos Descobrimentos (em colaboração com Cottinelli Telmo), a estátua de Calouste Gulbenkian no jardim do museu ou os baixos-relevos do edifício Éden, nos Restauradores.
À hora do almoço de sábado, 10 de Janeiro, cinco dias antes da inauguração oficial do Café de São Bento da Baixa, a sala com capacidade para 70 pessoas (no Verão, haverá uma esplanada isolada por canteiros com mais 20 lugares) junta amigos e colaboradores, que ajudam a afinar tudo para a abertura. Numa mesa estão sentados Fernando e Agostinho, dois dos funcionários mais antigos da casa; noutra, a equipa que cozinha e serve no Time Out Market; e noutra ainda o construtor desta obra e a sua família.
A servir e a preparar a operação, há caras conhecidas de outros restaurantes do grupo, como Paulo Galveias, que já trabalhou com Miguel Garcia em vários projectos, incluindo o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e o Tivoli, em Lisboa; e Carlos Eduardo Silva, chefe de sala que todos tratam carinhosamente por Cadú (e que apresentámos num artigo sobre a valorização de quem nos serve em 2024). “Sempre que abro um novo restaurante, chamo a equipa dos outros para os novos membros perceberem os processos, as rotinas”, descreve o empresário, que tem já sob sua alçada 190 trabalhadores. “Tem sido uma batalha nossa a questão do serviço. Dar formação, dar importância a todos, não só ao chef de cozinha. Não faz sentido só se falar de chefs, tem de ser sexy falar das outras pessoas, do saber receber, do saber atender. Aqui, dificilmente vão ver um dos nossos actores a sobressair em relação aos outros.”
Importante, nesta nova aventura, foi também envolver a vizinhança. Miguel Garcia falou com outros restaurantes das redondezas – clássicos como o Gambrinus, o Pinóquio e o Solar dos Presuntos, todos a poucos passos dali e todos pensados para clientes locais e não só para os turistas de passagem – e quer acompanhar a programação das salas de espectáculo do bairro, como o Coliseu dos Recreios, o Teatro Politeama ou o Tivoli BBVA. “Em dias de espectáculo, servimos até mais tarde. E em dias de jogo no estádio do Benfica também, claro”, promete.
A carta do Café de São Bento da Baixa é a de sempre, mas ganhou alguns pratos novos e exclusivos deste espaço, que terá o chef João Santos aos comandos da cozinha. Nas entradas, por exemplo, aos já populares croquetes (2,5€/cada), bife tártaro (14€) e fois gras de pato (13€), juntaram-se umas amêijoas à Bulhão Pato (16€), ostras (14€/seis unidades) e peixinhos da horta (8€). E se até aqui, no capítulo dos peixes, a carta oferecia apenas o bacalhau gratinado (20€), agora há filetes de peixe-galo com arroz de tomate (23€) e bacalhau à brás (22€) – além da tarte mediterrânica (18€), de legumes estufados, que continua disponível para quem procura uma alternativa vegetariana.
Mas vamos à carne, a estrela da companhia. Antes de avançar com as novidades, Miguel Garcia revela que são consumidas três toneladas todos os meses no grupo São Bento e conta que já têm um centro de operações onde recebem e arranjam os cortes dos fornecedores (maioritariamente portugueses, mas também europeus e sul-americanos). “Permite-nos um maior controlo de qualidade e mais consistência.” Na Baixa, ao lado do incontornável bife à Café de São Bento (28€/33€ lombo; 25€ vazia) e do residente bife à portuguesa (mesmo preço), estão agora o bife ao molho madeira, uma receita clássica em vias de extinção, e o chateaubriand (52€/duas pessoas). “Foram pensados para o cliente regular do Café de São Bento, que não vem só pelo bife da casa e pode querer variar”, explica.
E chegamos então às sobremesas, onde está a estreia mais inesquecível e gulosa: um soufflé de avelã (14€), que chega à mesa quente e recebe, à frente do cliente, uma bola de gelado de baunilha e um banho de molho de chocolate quente. Leve como uma nuvem, convive com outros doces da casa, como a tarte tatin de maçã (9€) e o leite creme (8€).
Há clássicos que nunca falham – e este não parece sequer sofrer de dores do crescimento. Lisboa está fechada, mas Miguel Garcia não esconde a ambição de levar o Café de São Bento até ao Porto e, na loucura, São Paulo, no Brasil.
Rua do Jardim do Regedor, 7 (Baixa). 918 449 967. Ter-Sáb 12.30-15.00 e 19.00-00.00. A partir de Março: todos os dias 12.30-00.00, com horário extendido em dias de espectáculos e de jogo no Estádio da Luz
Começar o ano a comer fora é difícil, mas não impossível. Para evitar desesperos financeiros, juntámos os melhores restaurantes até dez euros e, vá, até vinte. No campo das novidades, tem recordações da avó no Tantazzi, pizza al taglio na Coccinella, bife no Blade, comida japonesa no After Dark ou a "neo-tasca" de Bernardo Agrela na Casa Capitão, Mesa. Se ainda está a compensar tempo perdido, veja as nossas escolhas para o melhor de Lisboa em 2025.
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