Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Críticas de cinema

Críticas de cinema

Os filmes que estão ou estiveram em cartaz, avaliados pelas críticas de cinema da Time Out

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Críticas de cinema - 5 Estrelas

Apocalypse Now (1979)
Apocalypse Now (1979)
©1979 - United Artists

Apocalypse Now Redux

5 /5 estrelas
Filmes Drama

Para assinalar os 40 anos da estreia de Apocalypse Now, que ganhou então a Palma de Ouro do Festival de Cannes, Francis Ford Coppola apresenta uma nova versão do filme, que rapa 20 minutos à versão Redux, estreada em 2001 e que é a mais longa das existentes. Apocalypse Now: Final Cut foi restaurada do negativo original em 4K ec Dolby Atmos. Coppola pode esticar e encolher o filme à vontade. O filme será sempre uma experiência cinematográfica única e avassaladora sobre a guerra do Vietname, traduzida em termos de uma viagem irreal e alegórica ao mais fundo das forças primitivas que podem apoderar-se dos homens. E onde a selva é uma personagem tão fundamental como Willard, Kilgore ou Kurtz.

Por Eurico de Barros

A Shaun the Sheep Movie: Farmageddon
A Shaun the Sheep Movie: Farmageddon
© 2018 Aardman Animations Limited and Studiocanal S.A.S.

A Ovelha Choné - O Filme: A Quinta Contra-Ataca

5 /5 estrelas
Filmes

A segunda longa-metragem da Ovelha Choné e de todos os seus comparsas da quinta Mossy Bottom é parte paródia genial ao cinema de ficção científica pós-Guerra das Estrelas, parte comédia burlesca esfuziante, combinando a tradicional animação de volumes fotograma a fotograma que é marca criativa dos estúdios Aardman e efeitos digitais, sem que fique uma suspeita de costura a ver-se. Um simpático e jovem extraterrestre aterra o seu disco voador junto da quinta e Choné e companhia vão ajjudá-lo a voltar para casa e evitar que seja capturado pelo governo. É o filme de animação do ano, a comédia do ano, a aventura de ficção científica do ano e a produção de temática rural do ano. Simplesmente méééééééravilhoso.

Por Eurico de Barros

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Photo: Niko Tavernise/Netflix

O Irlandês

5 /5 estrelas
Filmes Drama

O novo filme de Martin Scorsese, que em Portugal pode ser visto apenas na Netflix, é a longa despedida do realizador a uma geração extinta de mafiosos, e ao próprio género de gangsters tal como ele o definiu e celebrizou. Robert De Niro interpreta Frank Sheeran, o irlandês do título, que serviu a Máfia ao longo de várias décadas, foi muito próximo do desaparecido líder sindical Jimmy Hoffa, e já velho e doente, tendo sobrevivido a toda a gente, recorda esses tempos.

Em O Irlandês, o Scorsese de Tudo Bons Rapazes e Casino encontra o Scorsese de A Última Tentação de Cristo e Silêncio. A sobreexcitação visual e a violência espectacular são substituídos pela calma, pela compostura, pela melancolia, pelo peso do tempo, pela agonia moral e pelo sentimento de culpa. Também com Al Pacino num Hoffa espalha-brasas e Joe Pesci surpreendente num chefe mafioso todo ele ponderação, bom senso e discrição. Até quando manda matar alguém, é de forma reservada.

Por Eurico de Barros

Parasitas (2019)
Parasitas (2019)
©DR

Parasitas

5 /5 estrelas
Filmes Drama

O sul-coreano Bong Joon-ho ganhou este ano o Festival de Cannes com este filme parte drama familiar de fundo social, parte comédia negra satírica, parte filme de terror "político", que põe em cena as tensões, idiossincrasias, desigualdades e fantasmas colectivos da Coreia do Sul. Uma família pobre que vive de pequenos trabalhos e esquemas consegue infiltrar-se na luxuosa casa de uma família rica e frívola, e tudo corre bem até a história dar uma reviravolta quebra-costas. Joon-hoo dá a esta história local uma ressonância universal, e passa em Parasitas uma visão pessimista da natureza humana.

Por Eurico de Barros

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Photo: Andrew Cooper

Era Uma Vez em... Hollywood

5 /5 estrelas
Filmes Comédia

Hollywood, 1969. Leonardo DiCaprio é Rick Dalton, uma antiga vedeta da televisão que não consegue singrar no cinema, e Brad Pitt é Cliff Booth, o seu “duplo”, melhor amigo e fiel assistente, neste formidável novo filme de Quentin Tarantino. O realizador de Pulp Fiction e Jackie Brown conta uma história de amizade masculina sólida como betão, ao mesmo tempo que recria ao milímetro a Los Angeles de há 50 anos, onde viveu desde muito novo, exprime o seu amor pelo cinema, pela música pop, pela cultura consumista e pelos automóveis , e propõe um fim diferente para uma tragédia ocorrida em Agosto desse fatídico ano de 1969. Imperdível.

Filme, Cinema, Ran - Os Senhores da Guerra (1985)
Filme, Cinema, Ran - Os Senhores da Guerra (1985)
©DR

Ran - Os Senhores da Guerra

5 /5 estrelas
Filmes Acção e aventura

Akira Kurosawa realizou em 1985 esta fita histórica, que adapta Rei Lear, de Shakespeare, para o Japão do tempo dos samurais. e que regressa agora aos cinemas em cópia restaurada em 4K. "Ran" significa, em japonês, caos, confusão, revolta. É precisamente isso que Kurosawa filma, com uma turbulência épica e uma superior mestria visual. Tal como já havia feito em 1957 em Trono de Sangue (inspirado por Macbeth), o autor de Os Sete Samurais volta aqui a combinar o teatro Nõ, a tragédia ocidental de matriz shakespeareana e a espectacularidade bélica do filme de samurais (ou Jidaigeki), que ele cultivou como nenhum outro. É a reposição do ano.

Por Eurico de Barros

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Photo: Courtesy of Pixar

Toy Story 4

5 /5 estrelas
Filmes Animação

Realizado em estreia por Josh Cooley e escrito pelo grande Andrew Stanton, Toy Story 4 é o melhor filme da série da Pixar sobre os brinquedos vivos liderados pelo cowboy Woody,  e aquele em que é atingida uma intensidade emocional e uma vibração existencial que envergonham o cinema de imagem real. Interessamo-nos, preocupamo-nos, sofremos e vibramos por um conjunto de brinquedos criados por computador como se fossem pessoas verdadeiras. A nova personagem mais importante desta parte 4 é Garfy, um garfo de plástico descartável transformado em brinquedo pela pequena Bonnie, e a intriga, que decorre durante uma viagem de férias da família desta, casa superiormente drama e comédia, até um final tão surpreendente como comovente. A qualidade da animação é assombrosa e as interpretações vocais fabulosas. Um dos melhores filmes do ano.

Por Eurico de Barros

Em Chamas (2018)
Em Chamas (2018)
©Xenix Filmdistribution

Em Chamas

5 /5 estrelas
Filmes Suspense

Antonioni e Patricia Highsmith são dois dos nomes que podem vir à baila a propósito de Em Chamas, do sul-coreano Lee Chang-Dong, que se inspira num conto de Haruki Murakami, por sua vez inspirado por um outro de William Faulkner. É um filme enigmático, difuso e sinuoso que assenta num trio de personagens, uma das quais desaparece a certa altura, e que pode ser visto como um thriller movediço e ambíguo, com tempero de mal-estar existencial e de disfunções emocionais, mas também como uma história por onde passam vários dos problemas da Coreia do Sul de hoje e de uma nova geração de coreanos. E que bem filma Chang-dong, como se pode ver pela sequência em que a personagem feminina dança seminua ao ar livre, ao som de Miles Davis, enquanto a luz do dia vai desaparecendo. É um grande momento de cinema puro, que levamos connosco, tal como o final magnificamente desvairado, quando há, enfim, chamas. E muito sangue.

Por Eurico de Barros

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Mirai (2018)
Mirai (2018)
©DR

Mirai

5 /5 estrelas
Filmes Animação

Mais uma delicadíssima, sumptuosa e divertida longa-metragem animada do japonês Mamoru Hosoda, que combina animação tradicional e efeitos digitais sem que se veja uma costura. Esta história de Kun, um menino de quatro anos que fica cheio de ciúmes e de raiva da irmã recém-nascida, anda para a frente e para trás no tempo, e ensina ao pequeno protagonista o significado e a importância que têm a memória e a continuidade familiar.

Por Eurico de Barros

A Pereira Brava

5 /5 estrelas
Filmes Drama

O turco Nuri Bilge Ceylan filma uma história de frustração pessoal e de conflito entre um pai e um filho, numa vila da Anatólia, com o seu notável talento visual. A Pereira Brava é mais verboso do que o habitual em Ceylan, mas isso não afecta absolutamente nada este admirável filme, que tem mais de três horas mas nunca exaspera nem pesa no espectador.

Por Eurico de Barros

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Correio de Droga (2018)
Correio de Droga (2018)
©DR

Correio de Droga

5 /5 estrelas
Filmes Drama

Clint Eastwood realiza e interpreta Correio de Droga, baseado numa história real que deu uma grande reportagem no The New York Times: a de Earl Stone, um veterano da II Guerra Mundial que aos 90 anos se tornou no mais valioso correio de droga de um cartel mexicano. Eastwood transforma o enredo em mais uma das suas meditações sobre a velhice e a perplexidade perante o mundo contemporâneo. Vendo o seu negócio de cultivo de orquídeas falido por causa da internet e despejado de sua casa, Earl começa a transportar droga na sua carrinha para poder ter dinheiro e tentar reconciliar-se com a família, que cortou com ele por causa da sua dedicação obsessiva às flores, até perceber a enormidade daquilo em que se meteu e ter um rebate de consciência. É um filme moral mas não moralista. A realização é notavelmente fluida, prática e eloquente, e sem o menor elemento supérfluo, e no papel de Stone, Clint Eastwood tira todo o partido da sua cara enrugada e da sua voz de gravilha para transmitir simpatia e afabilidade, indignação e desprezo, mas também arrependimento. A cena que tem com Dianne Wiest, que interpreta a sua ex-mulher, no leito de morte desta, está entre as mais comoventes de todos os filmes que fez.

Por Eurico de Barros

O Cavalheiro com Arma (2018)
O Cavalheiro com Arma (2018)
©DCM

O Cavalheiro com Arma

5 /5 estrelas
Filmes Drama

Robert Redford encerra a sua carreira de actor no cinema em grande estilo, com uma última e inesquecível interpretação. Neste filme de David Lowery baseado em factos reais e passado no início dos anos 80, ele é Forrest Tucker, um assaltante de bancos septuagenário e cavalheiresco. Redford interpreta-o usando toda a memória do seu passado cinematográfico, e com a economia
de gestos, palavras, expressões, comportamentos e emoções de um actor que já não tem nada a aprender, exibir ou provar. Todo
o filme, e todo o restante elenco, uma feliz e homogénea mistura de veteranos como Redford (Sissy Spacek, Danny Glover, Tom Waits, Keith Carradine) e de gente mais nova (Casey Affleck,
Tika Sumpter, Elizabeth Moss), partilham dessa parcimónia eloquente e dessa atitude pausada, sem pressas, de Tucker. Não há neste filme o mais leve vestígio da lufa-lufa que afecta o cinema americano de hoje. O Cavalheiro com Arma é o imenso adeus de uma das últimas lendas vivas do cinema.

Por Eurico de Barros

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O Interminável
O Interminável
©DR

O Interminável

5 /5 estrelas
Filmes Suspense

Justin Benson e Aaron Moorhead realizam e interpretam este filme indie de terror cósmico com fumos de ficção científica (Benson também assina o argumento) feito sob a sombra tutelar de Lovecraft. É a história de dois irmãos que regressam à seita ufológica e milenarista a que pertenceram quando eram jovens, depois de receberem uma estranha mensagem. Os autores não têm orçamento para grandes efeitos especiais, por isso tudo depende aqui (e muito bem) da sugestão, da alusão, dos sinais inquietantes ou insólitos ou do jogo com a nossa percepção do real, para a criação de um clima de terror crescente e de catástrofe iminente com origens sobrenaturais. O Interminável tem tudo para se tornar num filme de culto e é uma das grandes surpresas deste ano cinematográfico.

Por Eurico de Barros

Hora Feliz
Hora Feliz
©DR

Hora Feliz

5 /5 estrelas
Filmes Drama

Com mais de cinco horas de duração, e estreado em partes, este filme do japonês Ryusuke Hamaguchi é um monumento de naturalismo e de verismo emocional e psicológico. Delicado e esmagador.

Por Eurico de Barros

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Filme, Cinema, Cold War - Guerra Fria
Filme, Cinema, Cold War - Guerra Fria
©DR

Cold War - Guerra Fria

5 /5 estrelas
Filmes Drama

Vencedor do Prémio de Realização do Festival de Cannes, o polaco Pawel Pawlikowski (Ida, Óscar de Melhor Filme Estrangeiro), conta aqui uma história de
amor agitada, acidentada e ziguezaguante entre um homem e uma mulher (a fabulosa Joanna Kulig e Tomasz Kot), vivida do pós-guerra aos anos 60, entre o Leste totalitário e a Europa livre. Inspirando-se na história dos seus próprios país, Pawlikowski filma esta tragédia de um amor ardente em tempos de rigorosa invernia ideológica em apenas 88 minutos, recorrendo a uma banda sonora mesclada de música folclórica polaca, jazz e rock dos inícios, e com uma economia narrativa que só realça ainda mais a alta temperatura das emoções em jogo. Um dos melhores filmes do ano.

Por Eurico de Barros

The Incredibles 2 - Os Super-Heróis

5 /5 estrelas
Filmes Animação

No segundo filme animado da superfamília Parr, de novo realizado por Brad Bird, há novidades sobre os papéis domésticos do Sr. Incrível e da Mulher-Elástica, bem como sobre os superpoderes do bebé Jack-Jack, de que o realizador aproveita para tirar o máximo rendimento cómico. Em tudo o resto, e felizmente, Bird mantém as qualidades técnicas, estéticas, visuais, narrativas e humorísticas que fizeram do original (datado de 2004) uma das expressões mais altas da animação por computador da Pixar, evitando ainda 
a tentação de emular, ao seu nível e neste universo específico, os detestáveis filmes de super-heróis da Marvel e da DC. Que, e a propósito, The Incredibles 2: Os Super-Heróis bate em toda a linha.

Por Eurico de Barros

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A Morte de Estaline
A Morte de Estaline
©Ascot Elite

A Morte de Estaline

5 /5 estrelas
Filmes Comédia

Armando Iannucci, criador de séries de sátira política como The Thick of It e Veep, flagela de riso (muito, muito negro) o horror totalitário em A Morte de Estaline. Baseado numa BD francesa. Com Michael Palin, Steve Buscemi e Simon Russell Beale.

Por Eurico de Barros

O Lamento
O Lamento
©DR

O Lamento

5 /5 estrelas
Filmes Terror

Um grande, grande filme de terror sobrenatural do sul-coreano Na Hong-jin, e o primeiro dos três deste realizador a estrear-se em Portugal. O Lamento vai ficar para a posteridade como a resposta asiática a O Exorcista, de William Friedkin. É uma história de possessão demoníaca – não de uma pessoa, mas de vários habitantes de uma vila do interior da Coreia do Sul –, investigada por um polícia trapalhão cuja filha foi atingida, e em que Hong-jin afeiçoa o horror às características culturais e religiosas da sociedade em que vive.

Por Eurico de Barros

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15:17 Destino Paris

5 /5 estrelas
Filmes Suspense

Aos elaboradíssimos filmes de super-heróis, Clint Eastwood responde com um filme simplex até mais não, sobre heróis inesperados e arrancados ao quotidiano banal: os três amigos americanos, dois deles militares de licença, que estavam de férias na Europa e no dia 21 de Agosto de 2015 impediram um atentado terrorista no comboio Thalys de alta velocidade que ligava Amesterdão a Paris. Eastwood põe os três a interpretarem-se a eles próprios, reconstrói as suas vidas desde a infância, quando
se conheceram na escola, e
filma no limite do minimalismo eloquente e da síntese expressiva, dando uma lição de cinema à maneira dos clássicos.

Por Eurico de Barros

Linha Fantasma

5 /5 estrelas
Filmes Drama

Um filme brilhante sobre perfeccionismo obsessivo, amor perseverante e luta pelo poder num microcosmo familiar, comercial e criativo (uma casa de moda de luxo na Londres dos anos 50), rodado por Paul Thomas Anderson com uma elegância, um rigor e um saber cinematográfico clássicos. Daniel Day-Lewis tem aqui o seu derradeiro papel, o excêntrico, mimado, exigente e genial costureiro Reynolds Woodcock, interpretado com a mesma fixação pela excelência no seu ofício que move a personagem que incarna. Vicky Krieps faz a sua nova e determinada amante, modelo e empregada, e Lesley Manville é Cyril, a austera irmã solteirona daquele.

Por Eurico de Barros

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Lumière!
Lumière!
©DR

Lumière!

5 /5 estrelas
Filmes

Thierry Frémaux, Delegado-Geral do Festival de Cannes e director do Instituy Lumière de Lyon, compilou e comentou aqui 108 filmezinhos de Louis e Auguste Lumière, e dos operadores da sua invenção, o cinematógrafo, feitos em França e em várias paragens do globo, de 1895 a 1905. Entre a realidade captada espontaneamente ou encenada, e os filmes humorísticos ou feitos em família, Lumière! é um testemunho preciosíssimo, tocante, variado e divertido de uma era desaparecida, e de como o cinema abriu os olhos para o mundo e começou de imediato a registá-lo em toda a sua multiplicidade.

Por Eurico de Barros

Paterson

5 /5 estrelas
Filmes Drama

Uma comédia de Jim Jarmusch finamente encantadora e poética, quotidiana e excêntrica, o triunfo do espírito keep it simple. Paterson, com Adam Driver e Golshifteh Farahani, pode muito bem ser o melhor filme de sempre sobre condutores de autocarros de New Jersey que escrevem poesia, casados com iranianas que adoram pintar círculos em tudo e querem ser cantoras de country & western. Para já, é um dos melhores filmes do ano.

Por Eurico de Barros

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Fátima
Fátima
©DR

Fátima

5 /5 estrelas
Filmes

Entre a fé e o esforço, 11 mulheres vêm em peregrinação a pé de Vinhais, em Trás-os-Montes, até Fátima (400 duros quilómetros),
no novo filme de João Canijo. O realizador está menos interessado em questionar o fenómeno de Fátima e as suas circunstâncias, do que em mostrar os efeitos físicos, emocionais e psicológicos que uma jornada deste tipo tem sobre um grupo de mulheres que se conhecem bem, vêm do mesmo sítio e têm as mesmas origens sociais. E Canijo consegue-o com um sentido de encenação do real único no cinema português.

Por Eurico de Barros

Mulheres do Século XX

5 /5 estrelas
Filmes Drama

Cruzamento de cinco pessoas numa nesga de tempo em que tentam aprender a navegar num oceano existencial que parece demasiado vasto. Uma nesga de um tempo analógico, com punk, feminismo, humor e um presidente decente (Jimmy Carter). Nada começa nem acaba no que aqui se vê, entregue por um elenco exemplar. Uma obra extraordinária, luminosa, para ver em loop.

Por Jorge Lopes

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O Herói de Hacksaw Ridge

5 /5 estrelas
Filmes

O novo filme de Mel Gibson é a história, verdadeira, de um objector de consciência que se recusou a pegar em armas na II Guerra Mundial e mesmo assim foi um dos seus heróis. É também, até ver, o melhor filme de 2016.

Por Nuno Henrique Luz

O Ornitólogo
O Ornitólogo
©DR

O Ornitólogo

5 /5 estrelas
Filmes Drama

O filme de João Pedro Rodrigues é a história de Fernando (Paul Hamy), um estudioso de pássaros, que depois de um acidente de barco no Douro se perde no mato e vive uma aventura excêntrica. O Ornitólogo mostra que se um realizador é capaz de pensar e depois sabe rodear-se das pessoas certas encontrará sempre as imagens para fazer passar o que quer dizer, e em grande estilo.

Por Nuno Henrique Luz

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O Amigo Gigante

5 /5 estrelas
Filmes Fantasia

Lá dizia o Amigo Banana que tudo é relativo. Bem, nem tudo, embora o Amigo Banana tenha razão se tivermos em consideração o gigante de O Amigo Gigante, de Steven Spielberg, baseado no livro de Roald Dahl, cujo argumento foi o último assinado por Melissa Mathison antes de morrer de cancro em Novembro (o filme é-lhe dedicado). Para os humanos como nós, e para a pequena Sophie, a heroína do filme, o gigante bondoso e vegetariano que se torna seu amigo é… bem, gigante! Só que para os restantes, carnívoros e malvados gigantes do seu país, ele é miúdo e enfezado.

Por Eurico de Barros

Críticas de cinema - 4 Estrelas

Family Romance, LLC (2019)
Family Romance, LLC (2019)
©DR

Family Romance, LLC

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Werner Herzog rodou no Japão esta ficção tão contígua da realidade, que se pode confundir com esta, na qual convenceu o dono e director da empresa do título (que aluga actores para interpretarem, em diversos contextos sociais ou profissionais, parentes, amigos ou pessoas próximas dos clientes) a interpretar-se a si próprio numa sucessão de sketches encenados. Na sua componente mais complexamente ficcionada, onde o empresário finge ser o pai de uma adolescente, que ela nunca conheceu por ser ainda bebé quando ele abandonou a mãe, Herzog questiona as implicações éticas e morais deste insólito negócio e dá ao filme dimensão dramático, peso emocional e vibração humana.

Waad Al-Kateab and her daughter Sama in the film ‘For Sama’
Waad Al-Kateab and her daughter Sama in the film ‘For Sama’
Photograph: Channel 4

Para Sama

4 /5 estrelas
Filmes Documentários

Entre 2011 e 2016, Waad al-Kateab, uma estudante universitária síria, filmou com a sua câmara digital o início dos protestos contra o Presidente Assad e a divisão e o cerco da cidade de Alepo, o seu casamento com o médico e activista Hamza Al-Kataeb e o nascimento de Sama, a sua filha, a quem é dedicado este documentário feito do ponto de vista dos civis que sofrem os efeitos de uma guerra. Para Sama é cru e lancinante ao ponto do insuportável, mas também caloroso e esperançoso. Só lhe falta um enquadramento global e explicativo do conflito e seus vários actores.

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O Lago dos Gansos Selvagens (2019)
O Lago dos Gansos Selvagens (2019)
©DR

O Lago dos Gansos Selvagens

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Depois de Carvão Negro, Gelo Fino, Urso de Ouro e Urso de Prata do Melhor Actor no Festival de Berlim de 2014, o chinês Diao Yinan traz-nos este fulgurante O Lago dos Gansos Selvagens, a narrativa vertiginosa e intensa de uma dupla caça ao homem na cidade de Wuhan, onde um gangster que matou um polícia inadvertidamente e tem a cabeça a prémio, é perseguido pelos outros marginais e pelos homens da lei. Yinan faz a transcrição, para a China contemporânea, de um daqueles policiais de acção de série B que os americanos rodavam nos anos 40 e 50, filmando com uma câmara agilíssima e nervosa, um sentido consumado da tensão e da acção visual e uma exímia utilização expressiva e dramática dos ambientes, revelando-nos ao mesmo tempo uma China marginal, feia, pobre e kitsch que coexiste com a China próspera e futurista dos telejornais e da propaganda.

Os Miseráveis (2019)
Os Miseráveis (2019)
©Julien Magre

Os Miseráveis

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Primeira longa-metragem de Ladj Ly, Os Miseráveis teve o Prémio do Júri do Festival de Cannes, foi rodado no bairro de Montfermeil, nos subúrbios de Madrid, onde o realizador cresceu. É um retrato frontal, equlibrado e muito inquietante da realidade nas cités parisienses, onde se acumulam os imigrantes, o Estado parece ter abdicado de exercer a sua jurisdição, os bandos de delinquentes e os fundamentalistas islãmicos disputam os favores dos habitantes, e em especial a atenção e a lealdade dos mais jovens, e onde apenas a Brigada Anticrime da polícia consegue entrar e manter contactos. O filme começa num tom de euforia nacional, e termina noutro, radicalmente diferente, de fragmentação total e caos geral anunciado.

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Corpus Christi - A Redenção (2019)
Corpus Christi - A Redenção (2019)
©DR

Corpus Christi - A Redenção

4 /5 estrelas
Filmes

Esta realização de Jan Komasa concorre pela Polónia ao Óscar de Melhor Filme Internacional e tem um notável jovem actor chamado Bartosz Bielenia no papel de Daniel, um rapaz que sai de um centro de detenção juvenil para ir trabalhar numa serração no campo, mas acaba a fingir que é padre e a envolver-se profundamente na vida de uma pequena comunidade (Daniel tem vocação para o sacerdócio, mas o facto de ser cadastrado impede-o de ir para um seminário). Inspirado por um facto real, Corpus Christi-A Redenção é um sério, intenso e belíssimo filme sobre os paradoxais atalhos da fé, a forma como Deus escreve direito por linhas tortas e a dificuldade do perdão e da redenção pessoal, onde Komasa nunca recorre a expedientes fáceis, simplistas ou confortáveis. Como se prova pela brutal conclusão. A não perder.

Mulherzinhas (2019)
Mulherzinhas (2019)
©Wilson Webb/CTMG

Mulherzinhas

4 /5 estrelas
Filmes Drama

À sétima versão para cinema do livro clássico de Louisa May Alcott, Greta Gerwig desarrumou-lhe a cronologia, começando o filme lá para o meio, quando Jo (uma fulgurante Saoirse Ronan) já está em Nova Iorque a tentar viver da escrita. Mas a imortal história das quatro irmãs March resiste a tudo, e Gerwig faz todo o jus emocional, cinematográfico e evocativo à obra de Alcott sobre a vida entre irmãs, o fim da infância e a queda na maturidade, o porto seguro da família e sobretudo a vontade da arrapazada, inquieta, imaginativa e impetuosa Jo ser independente, escritora reconhecida, feliz nos termos que deseja. Com a esplêndida Florence Pugh em Amy, Emma Watson e Eliza Scanlon em Meg e Beth, e Laura Dern e Meryl Streep perfeitas como Marmee e a tia March.

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J'accuse - O Oficial e o Espião

4 /5 estrelas
Filmes

Roman Polanski adapta o livro de Robert Harris sobre o Caso Dreyfus, que abalou e dividiu a França em finais do século XIX, adoptando o ponto de vista do coronel Georges Picquart, que descobriu o verdadeiro espião e tudo fez para que Dreyfus fosse inocentado e reintegrado no Exército, arriscando a sua própria carreira, segurança e liberdade. No seu assumido academismo formal e narrativo, o filme é uma robusta recriação de um processo judicial e político escandaloso, tendo como força motriz a portentosa interpretação de Jean Dujardin no corajoso e íntegro Picquart, e Polanski parece aproveitar esta história real de um falso culpado para fazer paralelos com a sua situação pessoal de acusado de crimes sexuais, de que diz estar inocente.

O Filme do Bruno Aleixo
O Filme do Bruno Aleixo
©DR

O Filme do Bruno Aleixo

4 /5 estrelas
Filmes

João Moreira e Pedro Santo, os criadores de Bruno Aleixo, tiveram o bom senso de não se porem a fazer "cinema" neste filme em que a personagem é solicitada a fazer um filme sobre a sua vida por uma produtora, e convoca a sua bizarra pandilha (Homem do Bussaco, Busto, Monstro da Lagoa Negra chamado Renato Alexandre) para o ajudar com a história. O Filme do Bruno Aleixo porta-se como se fosse um episódio melhorado e com um bocadinho mais de orçamento da série, e esse é logo um dos seus principais méritos. Vários actores e convidados especiais - Adriano Luz, Rogério Samora, João Lagarto, Manuel Mozos, Fernando Alvim etc. - dobram aqueles (ou são personificados e dobrados por eles) ou interpretam outras personagens, e o universo de nonsense estanque e circular da série mantém-se intacto, havendo até espaço para uma publicidade da Mister Cimba. Melhor gag: a esfregona assassina.

Por Eurico de Barros

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A Ilha dos Silvos (2019)
A Ilha dos Silvos (2019)
©Vlad Cioplea

A Ilha dos Silvos

4 /5 estrelas
Filmes Comédia

Corneliu Porumboiu, um dos principais nomes do novo cinema da Roménia, pega em situações feitas, personagens tipo e estereótipos do cinema policial e acrescenta-lhes o excêntrico elemento de uma ancestral linguagem assobiada de uma ilha das Canárias, para fazer um filme que é ao mesmo tempo um pastiche e uma glosa aplicada, com todos os eles e erres, deste género clássico. A que não falta o tradicional comentário sobre a corrupção institucional no seu país. Tudo feito com a economia visual e expressiva, circunspecção dramática e toques de humor nonsense habituais do realizador. A Ilha dos Silvos é um filme de três assobios.

Por Eurico de Barros

O Caso de Richard Jewell (2019)
O Caso de Richard Jewell (2019)
©Warner Bros

O Caso de Richard Jewell

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Clint Eastwood recorda neste filme uma história vergonhosa ocorrida nos Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996. Richard Jewell, um segurança, detectou uma bomba num parque da cidade durante um concerto e ajudou a evacuar o recinto. Poucos dias depois, passou de herói nacional a suspeito de terrorismo, porque o FBI, pressuonado pela organização dos jogos e pelo governo, precisava de apresentar um culpado, e os media foram atrás da história, crucificando Jewell perante a lopinião pública. O Caso de Richard Jewell é um alerta contra os abusos e as arbitrariedades do Estado e do Quarto Poder, filmado por Eastwood com concisão brilhante e sem flores moralistas, e um elenco inatacável - a começar pelo atá aqui "secundário" Paul Walter Hauser no papel principal. O primeiro filme solida e certeiramente político de 2020.

Por Eurico de Barros

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Graças a Deus (2018)
Graças a Deus (2018)
©DR

Graças a Deus

4 /5 estrelas
Filmes Drama

François Ozon filma o escândalo que ainda está actual em França e que se deu na diocese de Lyon, envolvendo um padre que abusou de rapazes ao longo de décadas sem que a hierarquia agisse, e que foi denunciado e levado à justiça por um grupo de paroquianos que foram molestados pelo sacerdote quando eram jovens. Ozon não quer fazer tiro ao alvo, praticar o sensacionalismo indignado ou o anti-clericalismo fácil, e sem deixar de expor o silêncio, a negação, o atabalhoamento e as hesitações da igreja perante o caso, põe em cena a complexidade e a diversidade das emoções e das reacções de um trio de homens que sofreram os avanços do padre (vividos por Melvil Poupaud, Denis Ménochet e Swann Arlaud).

Por Eurico de Barros

Passámos Por Cá (2019)
Passámos Por Cá (2019)
©Joss Barratt

Passamos por Cá

4 /5 estrelas
Filmes Drama

No seu pior, Ken Loach é demagógico, tendencioso e simplista. No seu melhor, como é o caso de Passámos por Cá, é frontal, justo e justificadamente indignado e maneja o realismo social como mais nenhum realizador. Escrito como sempre por Paul Laverty, o filme é o aflitivo e inglório espectáculo de uma família de Newcastle enredada em dívidas e ameaçada de desintegração, e que quanto mais se esforça para se livre delas, mais acumula. Sobretudo o pai, que arranja um emprego como franquiado de uma empresa de entrega de encomendas, que se revela uma forma moderna de escravatura laboral sob a capa de trabalho independente.

Por Eurico de Barros

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Frozen II - O Reino do Gelo (2019)
Frozen II - O Reino do Gelo (2019)
©DR

Frozen II - O Reino do Gelo

4 /5 estrelas
Filmes Animação

A continuação do descomunal sucesso da Disney, que se transformou no filme animado mais lucrativo de sempre, é uma história de "origens" em que Elsa, Anna, Olaf, Kristoff e Sven têm que fazer uma viagem a uma floresta encantada para encontrarem respostas sobre o passado das duas irmãs e os poderes da rainha, e salvarem Erendalle da destruição. A história é mais complexa que a do filme original, a banda sonora não tem uma canção à altura de Let it Go (embora tente com Into the Unknow) e a animação é estupenda, na linha clássica da Disney. E os realizadores "repetentes" Chris Buck e Jennifer Lee não resistem a dar aqui a Elsa um polimento de super-heroína da Marvel.

Por Eurico de Barros

Photo: Merrick Morton/20th Century Fox

Le Mans '66: O Duelo

4 /5 estrelas
Filmes Acção e aventura

James Mangold realiza esta fita que recria o célebre duelo travado entre a Ford e a Ferrari nos anos 60, pela supremacia nas pistas de corrida americanas e europeias, e muito em especial pela vitória nas 24 Horas de Le Mans. É uma celebração da velocidade, da competição e da excelência técnica e humana, com Christian Bale muito bem no castiço piloto ingles Ken Miles, um sobredotado da mecânica e da condução, e o mortiço e deslavado Matt Damon a fazer de Carroll Shelby, o antigo piloto e construtor independente a quem a Ford confiou o aperfeiçoamento do lendário GT40, que em 1966 alcançaria os três primeiros lugares em Le Mans.

Por Eurico de Barros

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Um Dia de Chuva em Nova Iorque (2019)
Um Dia de Chuva em Nova Iorque (2019)
©DR

Um Dia de Chuva em Nova Iorque

4 /5 estrelas
Filmes

Há quase dez anos que Woody Allen não filmava na sua querida Manhattan, e o regresso não podia ter sido mais auspicioso. Requintadamente fotografada pelo mestre Vittorio Storaro, faça sol ou chova torrencialmente, Um Dia de Chuva em Nova Iorque é uma elegante, nevrótica, satírica e refrescante comédia romântico-sentimental que tem o ADN do realizador por toda a parte. Timothée Chalamet e uma hilariante Elle Fanning lideram um elenco onde ninguém dá um passo em falso e Allen celebra mais uma vez a sua cidade adorada, simultaneamente idealizada e real, entusiasmante e melancólica, onde as suas personagens tanto se podem apaixonar, andar num virote cómico ou receber uma grande lição de vida.

Por Eurico de Barros

O Traidor (2019)
O Traidor (2019)
©DR

O Traidor

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Marco Bellocchio dá uma contribuição maior para o acervo de filmes, séries e telefilmes italianos sobre a Mafia, com esta obra sobre Tommaso Buscetta, um dos primeiros "arrependidos" da Cosa Nostra, a Mafia da Sicília, interpretado com magnífica sobriedade por Pierfrancesco Favino. Bellocchio mostra que, para Buscetta, o traidor não era ele, que se via como um mafioso honrado e homem de palavra, "à antiga", mas sim Totò Riina, o cruel líder da Cosa Nostra, que quebrou todos os códigos de comportamento da organização com os seus métodos sádicos e arbitrários, e recria o ambiente das prisões, dos julgamentos colectivos e das vendettas desses anos intensos de combate ao crime organizado em Itália.

Por Eurico de Barros

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Asako I & II

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Ryusuke Hamaguchi, o realizador de Happy Hour: Hora Feliz, apoia-se aqjui num romance da sua compatriota Tomoka Shibasaki para assinar um filme sensibilíssimo, delicadamente elíptico e de grande decoro emocional sobre o confronto entre a idealização romântica e a realidade concreta e quotidiana da paixão e das relações sentimentais, e sobre os acasos, os inesperados, as ilusões e a componente racional do amor. E por Asako I & II paira, mesmo qua suavemente, a sombra de Vertigo.

Por Eurico de Barros

Varda by Agnès

4 /5 estrelas
Filmes Documentários

Podia chamar-se, em alternativa, Varda Explica e Decifra Varda, este último filme da realizadora, que morreu aos 90 anos em Março. Varda passa em revista e comenta a sua obra cinematográfica, fotográfica e as instalações, com uma enorme carga emocional, afectiva e íntima, trazida pelas riquíssimas memórias e recordações, profissionais, pessoais e familiares que lhe estão associadas. No discreto final, Agnès Varda desaparece na bruma de uma das suas queridas praias. Custa pensar que nos deixou, e não voltaremos a ver filmes seus.

Por Eurico de Barros

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Midsommar - O Ritual (2019)
Midsommar - O Ritual (2019)
©DR

Midsommar – O Ritual

4 /5 estrelas
Filmes Terror

Depois do soturno, invernoso e sobrenatural Hereditário, Ari Aster assina aqui um filme de terror pagão passado no pino do Verão e todo à luz do dia. Um grupo de estudantes universitários americanos vai para a Suécia, assistir, numa comunidade rural, às celebrações do Solstício de Verão, mas aquilo que parecia ser umas férias idílicas transforma-se num pesadelo que brota do passado remoto e tradicional. Em Midsommar-O Ritual, o horror é lenta e pacientemente construído por Aster, num gradual mas seguro crescendo de inquietação e desconforto, sem sustos falsos nem sobressaltos gratuitos. Com a excelente Florence Pugh e Jack Reynor.

Por Eurico de Barros

Lupo (2018)
Lupo (2018)
©DR

Lupo

4 /5 estrelas
Filmes

Pedro Lino investiga neste documentário a movimentada vida do realizador italiano Rino Lupo, que percorreu toda a Europa a filmar e esteve em Portugal nos anos 20, ainda no tempo do mudo. Aqui, Lupo rodou filmes relevantes, como Mulheres da Beira ou Os Lobos, e abriu uma escola de actores que Manoel de Oliveira chegou a frequentar. Um filme rigoroso e visualmente inventivo, em que Lino consegue desvendar lo mistério da morte de Rino Lupo, que tinha desaparecido misteriosamente na década de 30, algures na Europa que palmilhou de lés a lés a fazer cinema.

Por Eurico de Barros

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Filme, Cinema, A Herdade (2019)
Filme, Cinema, A Herdade (2019)
©DR

A Herdade

4 /5 estrelas
Filmes

Tiago Guedes filma em A Herdade uma história familiar robustamente romanesca, de amplo fôlego dramático e com músculo cinematográfico, bem ancorada na história portuguesa recente, apanhando o fim do antigo regime, a loucura revolucionária pós-25 de Abril e a acalmia democrática. Ela é dominada por João Fernandes, uma personagem forte, carismática e trágica, um poderoso proprietário rural do Ribatejo. A sorte da herdade está ligada à de João Fernandes e da família, e se ele sabe como lidar com o mundo exterior para proteger e fazer prosperar o seu pequeno império, o mesmo já não acontece dentro de portas. A sua incapacidade de expressar sentimentos e dispensar afectos, irá fazer implodir tudo em seu redor e espalhar a infelicidade nos que lhe são mais próximos, ou afugentá-los. Albano Jerónimo, Sandra Faleiro e Miguel Borges, todos soberbos, encabeçam um elenco bem escolhido e dirigido, irrepreensível e homogéneo, dos papéis principais aos mais pequenos.

Por Eurico de Barros

Amazing Grace (2018)
Amazing Grace (2018)
©DR

Amazing Grace

4 /5 estrelas
Filmes Documentários

Quase 50 anos depois de ter sido rodado, eis finalmente o filme da gravação ao vivo numa igreja de Los Angeles, em 1972, de Amazing Grace, o lendário álbum de gospel de Aretha Franklin. Sydney Pollack na altura não conseguiu sincronizar o som com a imagem e Amazing Grace ficou arrumado no arquivo da Warner Bros., até o produtor Alan Elliott ter resgatado as imagens em 2007, e conseguido uma cópia síncrona graças às tecnologias digitais. Só que Aretha proibiu a exibição pública da fita, o que apenas sucedeu após a morte da cantora, em 2018. É um concerto de ir às lágrimas de êxtase. O Senhor estava com Aretha Franklin, e abençoou-lhe a voz à nascença.

Por Eurico de Barros

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Dor e Glória (2019)
Dor e Glória (2019)
©DR

Dor e Glória

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Um filme semi-autobiográfico, de enorme gravidade introspectiva e rememorativa, onde Antonio Banderas personifica Salvador Mallo, alter ego de Pedro Almodóvar, um realizador à beira dos 70 anos, afligido por uma série de dores físicas e existenciais, que julga ter deixado para trás os seus dias de glória e não tem mais disposição para escrever ou filmar. Banderas tem uma interpretação de grande reserva emocional e em meia-luz anímica nesta fita sobre a velhice e o agridoce passar em revista das memórias familiares, amorosas e profissionais, cheia de melancolia mas também de afectuosidade e ternura, e limpa de narcisismo e condescendência.

Por Eurico de Barros

A Ganha-Pão (2017)
A Ganha-Pão (2017)
©DR

A Ganha-Pão

4 /5 estrelas
Filmes Animação

A irlandesa Nora Twomey assina esta longa-metragem de animação passada em Cabul, sob o regime talibã. Com o pai na cadeia, Parvana, uma menina de 11 anos, arrisca a vida fingindo que é um rapaz para poder sustentar a mãe e os irmãos. Saído dos estúdios que já nos deram The Secret of Kells e A Canção do Mar, A Ganha-Pão é uma história de coragem, sacrifício e desafio a um poder arbitrário, obscurantista e violento. Twomey enriquece o filme estilistica e esteticamente com a história que Parvana conta ao irmão mais pequeno, e que espelha a sua ao nível fantástico.

Por Eurico de Barros

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Variações (2019)
Variações (2019)
©DR

Variações

4 /5 estrelas
Filmes

João Maia estreia-se a realizar com esta biografia de António Variações, onde se concentra no “antes” da fama do compositor e cantor, que morreu faz agora 35 anos. O enredo decorre quase todo entre 1977 e 1981, quando Variações, então ainda António Ribeiro, era um barbeiro e uma figura excêntrica e vistosa de Lisboa e da noite que aspirava ser cantor, e procurava por todos os meios dar-se a conhecer no pequeno e pouco receptivo meio da música. Alicerçado na soberba interpretação de Sérgio Praia, que se transmuta em António Variações, da voz ao modo de ser e estar (não há aqui qualquer playback, vocal ou instrumental), recriando a época de forma credível e fugindo a lugares comuns e tiques pop na forma e no discurso, Maia assina aqui um dos melhores filmes portugueses deste novo século.

Por Eurico de Barros

David Bukach

Na Sombra da Lei

4 /5 estrelas
Filmes Suspense

Mel Gibson e Vince Vaughn interpretam, neste filme de S. Craig Zahler (Bone Tomahawk, Rixa no Bloco 99), dois polícias suspensos sem vencimento por terem alegadamente usado de excesso de força durante a prisão de um traficante de droga. Necessitados de dinheiro com urgência para prover aos seus, os polícias decidem assaltar um traficante de droga, mas este reuniu um bando para roubar um banco e eles surpreendem-no com a mão na massa. Importante para a história é também um pequeno delinquente negro (Tory Kittles) que está no bando do traficante para conseguir dinheiro para a família, com tanta urgência como o duo de polícias. As sombras de Sam Peckinpah, Don Siegel e Robert Aldrich passam por Na Sombra da Lei, um policial de acção soturno, duríssimo, seco e fatalista, como Hollywood os fazia nos anos 70 e 80. Absolutamente a não perder por quem tinha saudades deles.

Por Eurico de Barros

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A Vida Secreta dos Nossos Bichos 2 (2019)
A Vida Secreta dos Nossos Bichos 2 (2019)
©Universal Pictures

A Vida Secreta dos Nossos Bichos 2

4 /5 estrelas
Filmes Animação

Esta continuação da longa-metragem animada de 2016 consegue ser-lhe superior. Os realizadores Chris Renaud e Jonathan del Val contam duas histórias em paralelo, uma envolvendo o cãozinho Max, o seu amigo Duke e a nova família da sua dona, Katie, durante uma visita ao campo; e a outra metendo ao barulho o frenético coelho Snowball, a cadelinha Gidget, Daisy, outra cadela, e um desvairado exército de gatos, que, na cidade, vão salvar uma cria de tigre presa num circo itinerante, e atam jubilatoriamente estes dois enredos no final da fita. A animação continua a ser subtilmente estilizada. as personagens permanecem pandegamente variadas e bem caracterizadas, e os gags são distribuídos com abundância e qualidade. Esta parte 2 até tem Harrison Ford a fazer a voz de um cão, o imponente e imperturbável Rooster.

Por Eurico de Barros

Verão (2018)
Verão (2018)
©Xenix Film

Verão

4 /5 estrelas
Filmes Drama

O realizador e encenador russo Kiril Serebrennikov evoca e celebra a sua geração neste filme ora melancólico, ora enérgico, passado na Leninegrado do início dos anos 90, quando dois grupos pop/rock de culto, os Zoopark de Mike Naumenko, e os Kino de Viktor Tsoi, faziam entrar alguma luz de alegria, agitação, revolta e esperança no quotidiano dos jovens. Verão é um filme político, mas não de forma estridente e óbvia, recriando, sem revanchismo e com delicadeza de toque e de sentimentos, esse tempo de declínio da URSS e do seu regime de cinzentismo totalitário, em que quem ouvia, tocava e respirava rock, mesmo sob todos os constrangimentos e todas as repressões, procurava ser minimamente feliz através dele. E tanto fazia que fosse Marc Bolan ou Bob Dylan, os Doors ou os Blondie, Mott the Hopple ou Kraftwerk.

Por Eurico de Barros

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3 Faces (2018)
3 Faces (2018)
©Filmcoopi

3 Faces

4 /5 estrelas
Filmes Drama

O quarto filme rodado por Jafar Panahi à revelia das autoridades iranianas tem, de novo,o próprio realizador como protagonista. Panahi e a famosa actriz iraniana Behnaz Jafari metem-se num jipe e rumam à montanhosa região da fronteira com o Azerbaijão, para investigarem da veracidade de um vídeo que receberam, em que uma adolescente dali parece suicidar-se, ante a recusa da família em a deixar ser actriz. Com meios mínimos e baralhando mais uma vez a fronteira entre realidade e ficção, Panahi assina uma fita admirável sobre três gerações de actrizes iranianas, sobre os absurdos da situação da mulher no Irão e sobre as carências, os contrastes e os paradoxos de um país onde as pessoas são hospitaleiras e generosas, mas também apegadas a costumes rígidos que podem muitas vezes ser implacáveis e arruinar as vidas de quem não os quer seguir.

Por Eurico Barros

Mr. Link (2019)
Mr. Link (2019)
©DR

Mr. Link

4 /5 estrelas
Filmes Animação

Chris Butler, o realizador de ParaNorman (2012) assina esta homenagem (e paródia) aos filmes de aventuras sobre explorações a lugares remotos ou míticos, que envolve Sir Lionel Frost, um aventureiro vitoriano, e o Pé-Grande, que se revela um monstro amigável e jovial. A animação é deliciosamente expressiva e o humor vai do nonsense à espirituosidade seca e ao slapstick.

Por Eurico de Barros

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Dumbo (2019)
Dumbo (2019)
©Disney

Dumbo

4 /5 estrelas
Filmes Família e crianças

Nesta versão em imagem real e efeitos especiais, Tim Burton manteve-se fiel ao essencial do clássico de 1941. O realizador evita uma aproximação verista à história, que poderia comprometer a credibilidade do elefantezinho voador e, através de uma leve estlização, transforma Dumbo numa fantasia de rosto “realista”.

Por Eurico de Barros

John McEnroe - O Domínio da Perfeição (2018)
John McEnroe - O Domínio da Perfeição (2018)
©DR

John McEnroe - O Domínio da Perfeição

4 /5 estrelas
Filmes Documentários

O francês Julien Faraut foi resgatar dos arquivos um documentário didáctico em 16mm sobre John McEnroe feito nos anos 80, em Roland Garros, por Gil de Kermadec, então director técnico nacional do ténis francês, bem como imagens inéditas do mesmo, e construiu este filme sobre o irascível prodígio do ténis, ajudado por opiniões de Jean-Luc Godard e do crítico de cinema Serge Daney, ambos ferrenhos da modalidade.

O resultado é um documentário inteligente, elegante e incisivo, que explica o talento sobre-humano de McEnroe e a sua fome de perfeição, analisa a sua psicologia profunda, demonstra que o seu lendário mau feitio fazia parte da sua identidade de jogador e como ele se alimentava do clima hostil e de riso que se criava em seu redor nos jogos. E Faraut contraria ainda os habituais estereótipos e lugares comuns preguiçosos sobre o campeão americano dos courts.

Por Eurico de Barros

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As Cinzas Brancas Mais Puras (2018)
As Cinzas Brancas Mais Puras (2018)
©DR

As Cinzas Brancas Mais Puras

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Passado entre 2001 e a actualidade, o filme documenta o efeito da acelerada e violenta transformação da China numa superpotência. Jia Zhangke desenvolve a história num quadro narrativo que comunga do policial e do melodrama tradicional, pondo em cena um mafioso (Fan Liao) de uma cidade do interior e a sua devotada namorada (Tao Zhao, mulher do realizador e sua actriz favorita), cujas vidas são radicalmente sacudidas por poderosas forças políticas, económicas e sociais que os rodeiam. Mas a grande história do país nunca se sobrepõe à das personagens.

Por Eurico de Barros

Todos Sabem (2018)
Todos Sabem (2018)
©Frenetic Films

Todos Sabem

4 /5 estrelas
Filmes Drama

O oscarizado realizador iraniano Asghar Farhadi, autor de Uma Separação e O Vendedor, foi a Espanha filmar, com Penélope Cruz, Javier Bardem e Ricardo Darín à frente de um óptimo elenco, esta história que parecer ser, à superfície, um thriller sobre o rapto de uma adolescente numa vila castelhana. Mas este é, na realidade, o cabide narrativo onde Farhadi pendura o seu gosto pela observação e desmontagem meticulosa do desconcertante e imprevisível mecanismo de funcionamento das relações e dos conflitos humanos. A fita podia ser um pouco mais curta e por vezes, menos demonstrativa, mas a enorme qualidade da escrita, as interpretações e a inflexível tensão dramática que o realizador instala e não deixa afrouxar, compensam plenamente estas pequenas arestas.

Por Eurico de Barros

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A Favorita (2018)
A Favorita (2018)
©DR

A Favorita

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Baseando-se em situações reais, Yorgos Lanthimos filma aqui
a história da feroz rivalidade entre duas mulheres que também eram parentes, Sarah Churchill, duquesa de Malborough (Rachel Weisz), e a sua prima afastada e arruinada, a baronesa Abigail Masham (Emma Stone), que disputaram o exclusivo dos favores, da intimidade, da confiança e dos privilégios da Rainha Ana de Inglaterra (Olivia Colman), no início do século XVIII, e terão tido relações lésbicas com a monarca. A Favorita, filme candidato a 10 Óscares, comunga das produções históricas de prestígio da BBC, de filmes como Tom Jones, de Tony Richardson, e Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, mas também do humor de um Black Adder. Weisz, Stone e Colman sugam os seus papéis até ao tutano, fazendo com que a fita pertença plenamente a este majestoso trio de actrizes.

Por Eurico de Barros

À Porta da Eternidade (2018)
À Porta da Eternidade (2018)
©DCM

À Porta da Eternidade

4 /5 estrelas
Filmes Drama

A pergunta é simples e a resposta ainda mais singela. “O que é que você pinta?”, pergunta o internado num asilo ao debilitado, física e mentalmente, Vincent van Gogh, que responde: “A luz do Sol.” O que é uma excelente descrição para a pintura e o caminho escolhido por Julian Schnabel para traçar o retrato pungente e atormentado dos últimos dias do pintor holandês em À Porta da Eternidade.

Para aqui chegar, a este caminho pelo interior do cérebro de um génio, o realizador nova-iorquino contou como uma interpretação de Willem Dafoe que não só coloca o actor no caminho dos Globos de Ouro e dos Óscares, como ainda mostra aos mais distraídos a capacidade do actor em transformar-se na personagem, com ela vivendo as dores, o isolamento, mas também a visão de quem procurava a luz perfeita como quem busca o seu Graal.

Por Rui Monteiro

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O Culpado (2018)
O Culpado (2018)
©DR

O Culpado

4 /5 estrelas
Filmes Suspense

Um polícia, um telefone, um computador, uma chamada de emergência. É tudo o que o dinamarquês Gustav Moller precisa, no seu filme de estreia, para nos manter pendurados em suspense durante hora e meia. Escorado numa soberba interpretação de Jakob Cedergren, o realizador tira o máximo efeito emocional, dramático e psicológico do mínimo de elementos neste filme controladíssimo e tensíssimo, que faz lembrar o inglês Locke, de Steven Knight. O Culpado é um dos candidatos ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e o remake americano já está a caminho.

Por Eurico de Barros

Photo: Netflix

Roma

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Alfonso Cuarón ganhou o Festival de Veneza (e quer também ganhar Óscares) com este filme produzido pela Netflix em que evoca a sua infância num bairro burguês da Cidade do México no início dos anos 70 e homenageia Cleo, a dedicadíssima de carinhosa criada indígena que o ajudou a criar, e aos irmãos. Cleo (Yalitza Aparicio) que é o pivô narrativo e emocional de Roma, filmado em digital de grande formato, com incomensurável brilho visual e apuro técnico, e onde Cuarón vai do íntimo ao geral, do pessoal ao colectivo, com um espantoso sentido do real. O elenco, soberbo, é praticamente todo composto por gente sem qualquer experiência de representação.

Por Eurico de Barros

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Pedro, o Louco
Pedro, o Louco
©DR

Pedro, o Louco

4 /5 estrelas
Filmes

Dizia o poeta a propósito de um refrigerante: primeiro estranha-se, depois entranha-se. E assim é com o filme de 1965 em que Godard, através da singela história de amor entre Ferdinand (Jean-Paul Belmondo) e Marianne (Anna Karina) monta um enredo onde a paixão convive com perseguição e violência. À primeira vista é um filme de gangsters em que, depois de um crime, o casal rouba um carro, instala-se numa ilha deserta em modo Robinson Crusoé, e depois resolve pôr-se ainda mais ao fresco e, se necessário, enfrentar as consequências. O que parece simples, não fora o tom, digamos antes, a textura em camadas que é preciso decifrar, antes de concluir que, provavelmente, como na vida, nada aqui faz sentido.

Por Rui Monteiro

O Acossado
O Acossado
©DR

O Acossado

4 /5 estrelas
Filmes

Ainda no horizonte se desenhavam os contornos do cinema francês engendrado pela Nova Vaga, em 1960, quando Jean-Luc Godard e o argumentista (embora já tivesse dirigido 400 Golpes) François Truffaut meteram mãos a esta homenagem ao cinema americano. O realizador chamou-lhe um documentário sobre Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo, mas O Acossado está longe
 do cinema documental na
 sua desembestada narrativa das aventuras do bandido 
de meia tijela e sangue na guelra, Michel Poicard, fugindo para Paris depois
 de matar um polícia e aproveitando para cobrar uma dívida quando choca de frente com Patricia... E a sua vida – como o cinema – nunca mais foi como era.

Por Rui Monteiro

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Shoplifters - Uma Família de Pequenos Ladrões
Shoplifters - Uma Família de Pequenos Ladrões
©cineworx

Shoplifters - Uma Família de Pequenos Ladrões

4 /5 estrelas
Filmes Drama

O japonês Horokazu Kore-era continua a explorar o tema da família em todas as suas possibilidades dramáticas. Neste novo filme, Palma de Ouro em Cannes, o realizador de Ninguém Sabe e Tal Pai, Tal Filho interroga-se sobre o que é uma família, e se será preciso haver laços de sangue entre aqueles que a compõem para a considerarmos como tal, centrando-se num agregado que vive ao monte numa pequena casa dos subúrbios de Tóquio, subsistindo essencialmente do produto de pequenos furtos em lojas e mercados locais. Sem sentimentalismo, sem agitar bandeiras de causa, sem querer fazer proselitismo e dirigindo um magnífico e coeso grupo de actores de um amplo espectro etário, Kore-eda mostra como uma família "falsa", em manta de retalhos, pode escrever direito por linhas tortas. E que é um cineasta com uma profunda compreensão da natureza humana, das suas singularidades e dos seus paradoxos.

Por Eurico de Barros

Fahrenheit 11/9
Fahrenheit 11/9
©Ascot Elite

Fahrenheit 11/9

4 /5 estrelas
Filmes Documentários

Para criar o que é, em anos, o seu melhor filme, Michael Moore não abdicou da ideologia nem dos seus alvos preferenciais. Todavia, pelo menos desta vez, também ele percebeu que era preciso parar para pensar. Reflectir, pesar os prós e os contras do passado, compreender como afinal foi um sistema político fechado sobre si e sobre os seus interesses egoístas que deixou de fora tantos americanos e tantos americanos levou a votarem no capitalista de cabelo esquisito que fazia uma figuraça na televisão. E é isso que nos mostra este documentário.

Por Rui Monteiro

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Halloween (2018)
Halloween (2018)
©Universal Pictures

Halloween

4 /5 estrelas
Filmes Terror

Esqueçam os nove filmes que foram feitos desde que em 1978 John Carpenter rodou o seminal Halloween – O Regresso do Mal. Este novo Halloween de David Gordon Green quer fazer tábua rasa de tudo
o que aconteceu nestes últimos 40 anos, e ser a única e verdadeira continuação da fita-mãe. Laurie Strode (Jamie Lee Curtis, também produtora executiva, com Carpenter) está mais velha e azeda, mas
com espírito de sobrevivência, e toda artilhada na sua casa-fortaleza, à espera de Michael Myers. Que se evade na noite de Halloween e regressa a Haddonfield para o confronto final. David Gordon Green glosa
muito bem John Carpenter e mantém tudo a funcionar sobre rodas, transportado pela banda sonora composta pelo mestre.

Por Eurico de Barros

A Revolução Silenciosa
A Revolução Silenciosa
©Look Now

A Revolução Silenciosa

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Em 1956, na RDA, os alunos
de uma turma de finalistas
de liceu fizeram um minuto
de silêncio pelas vítimas da repressão soviética na Hungria. O incidente foi tratado como
se se tratasse de um acto deliberadamente subversivo,
os rapazes e raparigas tratados como contra-revolucionários, instados à delação e finalmente expulsos. Lars Kraume evoca este episódio real num filme que evita o preto e branco ideológico e os maniqueísmos, ilustra os muitos dramas vividos pelos alemães no pós-II Guerra Mundial, aquando da divisão do país ao meio e da separação de amigos, famílias
e amantes, e homenageia a coragem e a dignidade dos alunos rebeldes, interpretados por um elenco juvenil de uma qualidade uniforme.

Por Eurico de Barros

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McQueen
McQueen
©Ann Ray

McQueen

4 /5 estrelas
Filmes

Ian Bonhôte e Peter Ettedgui assinam este documentário sobre o malogrado designer de moda inglês Alexander McQueen, que se suicidou em 2010 com 40 anos, e que se distinguiu como um outsider e um talentoso iconoclasta no mundo a que dedicou a sua vida. E que revolucionou (e por vezes chocou) com a concepção e criação das roupas, os sítios díspares a que ia buscar inspiração (incluindo a sua vida pessoal e familiar), e os elaboradíssimos e surpreendentes desfiles em que apresentava as colecções. A maior qualidade de McQueen é não ser um filme corporativo, feito apenas para o meio da moda, a que o biografado nunca se restringiu e ao qual jamais se acomodou.

Por Eurico de Barros

A Balada de Adam Henry
A Balada de Adam Henry
©DR

A Balada de Adam Henry

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Depois de Na Praia de Chesil, Ian McEwan volta a assinar aqui o argumento de um filme baseado num livro de sua autoria. Emma Thompson brilha no papel de Fiona Maye uma juíza que tem em mãos
o caso de um adolescente com leucemia que, por ser Testemunha de Jeová, recusa a transfusão de sangue que lhe poderá mudar a vida.
 Mas o verdadeiro tema da
 fita é a repressão emocional 
e a desumanização íntima
 de Maye, que se deixou monopolizar pelo trabalho, secou a sua vida conjugal
e pessoal e impediu de ter filhos. Também com Stanley Tucci, Fionn Whitehead e Jason Watkins no fiel e zeloso assessor da juíza.

Por Eurico de Barros

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Juliet, Nua
Juliet, Nua
©DR

Juliet, Nua

4 /5 estrelas
Filmes Comédia

Uma comédia romântica como deve ser, baseada no livro de Nick Hornby e realizada por Jesse Peretz, que tocou na banda indie The Lemonheads e já realizou um ramalhete de bons filmes cómicos. Ethan Hawke, Rose Byrne e Chris O’Dowd, todos excelentes, formam o triângulo amoroso desta
fita deliciosa, amena e muito bem escrita, que mexe com música, com cromos da música, com conhecimento enciclopédico da dita e com personagens paradas na vida e acomodadas nas suas relações sentimentais, que têm que tomar decisões que podem novo ânimo às suas existências. A comédia é gozona sem ser ofensiva ou cruel e o drama é tangível sem precisar de ser extremado, as personagens nunca são reduzidas a clichés, e Peretz farta-se de tirar dividendo risonhos dos nerds da cultura pop (no caso vertente, os maluquinhos do indie rock).

Por Eurico de Barros

Ant-Man ve Wasp
Ant-Man ve Wasp
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Homem-Formiga e a Vespa

4 /5 estrelas
Filmes Acção e aventura

Peyton Reed é repetente na realização desta nova aventura do Homem-
Formiga, ainda melhor que o primeiro filme homónimo, de 2015. Paul Rudd volta a interpretar este super-herói da Marvel, agora emparceirando com a Vespa (Valentine Lilly) numa vertiginosa e jubilatória aventura que envolve que envolve combates com vilões normais
 e uma super-vilã fantasmática, um mergulho em profundidade no mundo quântico e perseguições com automóveis de vários tamanhos, tudo numa jigajoga entre o micro e o macro, o muito pequeno e muito grande, a miniaturização e a amplificação de pessoas, animais e objectos, nomeadamente o prédio do laboratório do genial Dr. Pym (Michael Douglas). Homem-Formiga e a Vespa é o melhor, mais bem esgalhado, mais divertido e mais dinâmico filme de super-heróis do Verão, e deste ano. Também com Michelle Pfeiffer, Laurence Fishburne e Michael Peña.

Por Eurico de Barros

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Sicário - Guerra de Cartéis

4 /5 estrelas
Filmes Drama

O italiano Stefano Solima (SuburraGomorra) substituiu Denis Villeneuve a realizar esta continuação de Sicário-Infiltrado, e a personagem de Emily Blunt foi descartada. Mas tudo o resto continua no lugar, incluindo a visão desapiedada do argumentista Taylor Sheridan sobre a sangrenta e amoral guerra fronteiriça entre os cartéis da droga mexicanos, agora a traficar imigrantes clandestinos em vez de cocaína, e sobretudo as personagens de Josh Brolin e Benicio del Toro, os homens frios e duros das operações clandestinas, que desta vez revelam mais alguma humanidade e sentido de honra do que seria de esperar.

Por Eurico de Barros

Western

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Um grupo de operários alemães vai erguer uma central hidroeléctrica numa zona remota da Bulgária, que confina com a Grécia. Em vez de desenvolver um enredo à base de lugares-comuns sentimentais, de confrontação ou de estereotipação nacional e política, bem como de metáforas prontas-a-usar sobre a Europa de hoje, a realizadora Valeska Grisebach faz um filme sobre o esforço - nem sempre fácil, espontâneo ou correspondido - de entendimento, comunicação e convívio entre seres humanos. O elenco é quase todo composto por amadores, muitos deles recrutados no local em que Western foi rodado, com destaque para o ex-feirante Meinhard Neumann) no principal papel masculino.

Por Eurico de Barros

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Mundo Jurássico: Reino Caído
Mundo Jurássico: Reino Caído
©Universal Studios and Amblin Entertainment, Inc.and Legendary Pictures Productions, LLC

Mundo Jurássico: Reino Caído

3 /5 estrelas
Filmes Acção e aventura

Apesar da assombrosa qualidade dos efeitos especiais que ressuscitam os dinossauros do início dos tempos, este segundo filme da nova trilogia que sucede à iniciada há 25 anos por Parque Jurássico, de Steven Spielberg, e que dá continuidade a Mundo Jurássico (2015), soçobra devido a um enredo crescentemente absurdo, a uma absoluta falta de originalidade e de frescura da história (um cabide para se pendurarem as tropelias dos dinossauros e em que o Indoraptor, um híbrido feito em laboratório, rouba o estrelato ao T-Rex) e à irritante tendência do realizador J.A. Bayona para se pôr a impingir sermões sobre temas tão variados como a manipulação genética ou a exploração dos animais para fins criminosos ou militares. O 3D volta a não servir para nada e o terceiro filme fica preparado com um final muito aberto.

Por Eurico de Barros

O Workshop
O Workshop
©Agora Films

O Workshop

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Vencedor do Festival de Cannes em 2008 com A Turma, sobre um professor e os seus alunos de um liceu difícil de Paris, o francês Laurent Cantet, a escrever de novo com Robin Campillo, volta a juntar aqui um adulto e jovens que estão a tactear o seu caminho no mundo (uma escritora de policiais que faz um workshop de escrita com adolescentes de La Ciotat, em Marselha), usando-os para expor as divisões, medos e tensões da França contemporânea. Um filme muito bem escrito, que finta simplificações de caracterização e situação, e foge a julgamentos apressados e moralismos reconfortantes.

Por Eurico de Barros

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Frantz
Frantz
©DR

Frantz

4 /5 estrelas
Filmes Drama

Um dos melhores filmes de François Ozon, sobre um livro pacifista de Maurice Rostand depois levado ao palco e adaptado para o cinema em 1932 por Ernst Lubitsch (O Homem que Eu Matei). O realizador francês acrescenta uma segunda parte à história original, alterando ainda o ponto de vista da personagem principal, um francês, para a alemã. Frantz é um drama sobre o perdão e a mentira, e sobre o peso da dor pelos mortos queridos, passado logo após a I Guerra Mundial, entre a Alemanha e a França. Nos papéis principais, Pierre Niney e Paula Beer são formidavelmente tocantes. Ozon mantém à distância qualquer manifestação melodramática e filma com parcimónia de intimidades, num preto e branco austero com assomos de cor para enfatizar picos emocionais do enredo.

Por Eurico de Barros

Um Lugar Silencioso

4 /5 estrelas
Filmes Terror

A Terra é invadida e devastada por monstros alienígenas cegos mas hipersensíveis ao ruído, e para sobreviver, os humanos têm que se habituar a existir no mais absoluto silêncio, como a família liderada por John Krasinski (que também realiza), numa quinta no interior dos EUA. Partindo desta premissa, Krasinski e os seus co-argumentistas, Bryan Woods e Scott Beck, alinham uma série de situações de suspense esfrangalha-nervos, em que um simples prego saliente numa escada ou uma inundação numa cave podem ser fatais. Com Emily Blunt, que é mulher de Krasinski, na mãe, e a óptima Millicent Simmonds, que é surda-muda, na filha com a mesma deficiência.

Por Eurico de Barros

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Na Síria
Na Síria
©DR

Na Síria

4 /5 estrelas
Filmes Drama

O director de fotografia belga Philippe Van Leeuw filma um grupo de civis trancados num apartamento de Damasco enquanto os perigos da guerra rondam lá fora e ameaçam entrar. A ideia do realizador é dar o ponto de vista dos civis anónimos num conflito, e o filme é vago o suficiente para esta situação poder ser extrapolada para outras guerras noutros países e não se confinar à Síria. Por isso, longe de ser virtuosamente político, propagandista ou engajado, Na Síria é um filme de terror de alta tensão claustrofóbica e de medo sempre à flor da pele, com a soberba Hiam Abass no papel
da mãe de família que mantém o grupo preso em casa unido e protegido.

Por Eurico de Barros